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21 de setembro de 2020

Companhias e Marcas de Neuromancer


Parte da imersão em cyberpunk que estou fazendo para meu primeiro romance me levou à dissecação de uma das obras fundamentais do gênero: Neuromancer, de William Gibson.


A obra, escrita em 1983, estabelece um futuro onde figuram corporações hegemônicas, empresas gigantes que controlam o rumo do mundo. Gibson usou uma técnica simples mas eficiente para ajudar a criar este mundo: a menção de marcas e companhias ao longo da estória. Mas ele não faz distinção entre as reais e as imaginárias, o que dá verossimilhança às que inventou.


O risco que Gibson correu é o que analiso neste artigo: em 2020, o que aconteceu com as companhias e marcas que ele mencionou como existentes no futuro? Vamos ver o que aconteceu com elas e ver se o futuro criado por Gibson é plausível ou improvável:


Neuromancer: fabricante da unidade transdermal usada por Molly pra se recuperar.
Realidade: companhia eletrônica japonesa fundada em 1946, estava em alta no começo dos anos 80. Mas enfrentou problemas ao longo da década, deixando a indústria de áudio em 1991, e pedindo insolvência em novembro de 2000, fechando em 2002. Um escândalo então veio à tona: o diretor James Ting havia fundado a Grande Holdings e passado a ela as marcas da Akai desde 1999, além de ter roubado mais de 800 milhões de dólares da companhia desde 1994. Ting foi preso em 2005 mas a Grande mudou de nome para Nimble e continuou com a marca. Hoje a Nimble colabora com fabricantes de eletrônicos para distribuir produtos da marca Akai. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: Ratz bebe a água em uma caneca de cerveja
Realidade: a "Rainha das Águas de Mesa", uma água mineral alemã, de uma fonte descoberta por acaso em 1852. De meados dos anos 30 até 1945 foi controlada pela Alemanha Nazista. Em 1956 ela foi comprada pela Schweppes mas repassada para a Dortmunder Union, até em 1991 quando foi fundada a Apollinaris & Schweppes. Em 2002 a fusão Cadbury-Schweppes assimilou a marca. Em 2006, em antecipação do fim da fusão, a marca foi vendida à Coca-Cola. Futuro: PLAUSÍVEL!

Beautiful Girl
Neuromancer: franquia de cafeterias, com lojas em Tóquio e em Freeside
Realidade: companhia inventada por Gibson

Bell Europa
Neuromancer: dona da base de dados em que Case descobre sobre Corto
Realidade: Alexander Graham Bell, o inventor do telefone, fundou a Bell Telephone Company em 1877. A empresa foi comprada por sua própria subsidiária, a American Telephone & Telegraph Company -- a AT&T. Acusada de monopólio, as tentativas da AT&T de espalhar seus tentáculos para o resto do mundo foram detidas pela regulação dos EUA, e em 1925 a divisão européia foi vendida para a International Telephone & Telegraph, ou ITT. As acusações contra a gigante das telecomunicações não pararam: quando Gibson escreveu Neuromancer, estava correndo nos EUA o caso antitruste contra a AT&T, que levaria à Cisão do Sistema Bell em 1984. Não adiantou muito: a AT&T é hoje uma das empresas mais próximas do que seria uma megacorporação cyberpunk. O mais próximo atualmente de uma "Bell Europa" é a AT&T EMEAFuturo: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: aconselha Case sobre o Kuang Grade Mk 11; subsidiária da Reinhold Scientific A.G.
Realidade: companhia inventada por Gibson

Neuromancer: cafeteira branca usada no Chiba Hilton, outra cafeteira incluída na Missão: Compras, projetor holográfico em que Case vê Freeside, complexo audiovisual no quarto do Intercontinental, e o microrrobô que ajuda Molly na Vila Straylight
Realidade: companhia alemã de eletroeletrônicos fundada em 1921. Em 1962 abriu seu capital e em 1967 a Gillette tornou-se acionista majoritária, mas só moveu-se para integrar a empresa em 1982, quando Gibson estava escrevendo o livro. O processo concluiu em 1984, com a Braun tornando-se uma subsidiária integral. Em 2005 a Gillette foi adquirida pela Procter & Gamble -- a P&G. Em 2008 a marca foi descontinuada, até 2012, quando a De'Longhi adquiriu direitos perpétuos de uso da marca. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: casaco de Armitage
Realidade: casa de moda britânica fundada em 1856, originalmente focada em roupas para exteriores, depois movendo-se para o mercado da alta moda. Inventores do Gabardine. Eram controladas pela família Burberry até 1955, quando foi reincorporada e o controle passou à Great Universal Stores. Em 2005, isso se desfez perto do fim da GUS, com as ações retornando aos demais acionistas. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: Case compra uma caneca em Freeside
Realidade: cervejaria dinamarquesa fundada em 1847. Com a morte do fundador J. C. Jacobsen em 1887, seu testamento impôs o controle acionário da cervejaria à Carlsberg Foundation. Ela fundiu-se à Tuborg em 1970, e depois à Tetley's em 1992, tornando-se única dona desta em 1997. Em 2008 a Scottish & Newcastle, maior cervejaria do Reino Unido, foi dividida entre a Carlsberg e a Heineken. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: carros que aparecem em Istambul
Realidade: fábrica francesa de automóveis fundada em 1919. Em 1934, dificuldades levaram à empresa pedir falência, apesar da assistência prestada pela Michelin, que ganhou o controle acionário. Com nova crise em 1974, o governo francês interveio para fazer uma fusão da Citroën com a Peugeot, criando o PSA Group. Falhando em entrar no mercado chinês nos anos 80, em 1992 a PSA criou uma joint venture com a Dongfeng Motor Corporation. Em 2014, a empresa chinesa adquiriu ações suficientes da PSA para equiparar-se aos outros majoritários: a França e a família Peugeot. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: monitor de altíssima resolução que Case usa no Marcus Garvey
Realidade: fabricante de supercomputadores dos EUA fundada em 1972. O primeiro produto da companhia, o Cray-1, foi lançado em 1975 e foi um grande sucesso. Em 1982 lançaram o Cray X-MP, que foi o computador mais rápido do mundo entre 1983 e 1985. Desbancada por computadores paralelos em massa de concorrentes, a empresa perdeu mercado até pedir falência em 1995. Em 1996 foi adquirida pela Silicon Graphics. Em 2000 foi vendida para a Tera Computer Company, que mudou de nome para Cray Inc. Em 2019, a Cray foi adquirida pela Hewlett Packard (HP), que manteve o nome apenas para seus produtos de computação de alto desempenho. Futuro: IMPROVÁVEL!

Neuromancer: tipo das lâmpadas de mesa bulbosas na mesinha de café de Julius Deane
Realidade: conglomerado de mídia e entretenimento dos EUA, fundado em 1923. A Disney passou maus bocados nos anos 80, com uma biblioteca de títulos sem sucessos recentes fazendo 70% de sua renda vir dos parques temáticos. Em 1984 a Reliance Group Holdings chegou a tentar uma aquisição hostil, e no mesmo ano a empresa chegou a fazer um acordo para ser adquirida pela MCA, que não foi pra frente. Quem foi pra frente e pra cima foi a Disney, cujo histórico de aquisições a tornou outra das que se qualificam como megacorporação cyberpunk. Futuro: PLAUSÍVEL!

Dornier-Fujitsu
Neuromancer: estaleiros que fabricaram o iate Haniwa
Realidade: fusão inventada por Gibson. 

- Dornier era uma fábrica de aviões alemã, fundada em 1914 e ativa durante as duas Guerras Mundiais. A produção de aviões foi proibida na Alemanha depois da 2ª Guerra, e a companhia mudou para a Espanha e depois para a Suíça. Em 1985 foi comprada pela Daimler-Benz. Em 1996 a Fairchild ganhou controle acionário, criando a Fairchild Dornier, que se tornou insolvente em 2002. A Avcraft assumiu as produções em andamento, enquanto os bens se tornaram parte da AirbusFuturo: IMPROVÁVEL!

- Fujitsu é uma empresa de equipamentos e serviços de TI japonesa fundada em 1935, a segunda companhia de TI mais antiga do mundo, depois da IBM e antes da HP. Saiu da Fuji Electric Company (ver abaixo) com o nome Fuji Tsushinki. Manteve atuação constante na área de TI: em junho de 2020 co-fabricaram Fugaku, o supercomputador mais poderoso do mundo. Futuro: PLAUSÍVEL! para a companhia, IMPROVÁVEL! para a fusão.


Neuromancer: isqueiro de ouro usado pelos Turings
Realidade: marca de bens de luxo britânica fundada em 1893. O isqueiro Unique, o primeiro que podia ser operado com apenas uma mão, foi lançado em 1927 e depois seria usado por James Bond. Em 1956 foi lançado o isqueiro de butano Rollagas. Em 1963 iniciou a marca de cigarros Dunhill. Em 1993 a Rothmans International fica com os cigarros (em 1999 adquirida pela British American Tobacco), enquanto que a Vendôme fica com os bens de luxo. Em 1998 a Richemont adquire a Vendôme, mantendo a marca ativa até hoje. Futuro: PLAUSÍVEL!

Eastern Seaboard Fission Authority
Neuromancer: aparece como uma pirâmide asteca escarlate na matrix
Realidade: companhia inventada por Gibson

Neuromancer: logo-holograma gigantesco em Tóquio
Realidade: companhia de equipamentos elétricos japonesa fundada em 1923, em uma joint venture da Furukawa Electric Company, da zaibatsu Furukawa, com a alemã Siemens. Em 1970 chegaram às Américas, em 1987, à Europa, e em 1989 ao Pacífico (via Singapura). De 1995 a 2016 abriu subsidiárias nas Filipinas, França, Coréia, Tailândia, Malásia, Taiwan, Xangai, Indonésia, Vietnã, EUA, Alemanha, Canadá e Índia. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: cigarro oferecido pelos Turings
Realidade: marca de cigarros francesa introduzida em 1910. Em 1926 foi criada a SEIT -- depois SEITA -- a estatal francesa que monopolizava a indústria de tabaco no país, que controlou a marca. Em 1995 a SEITA foi privatizada, e em 1999 fundiu-se ao monopólio estatal espanhol Tabacalera para formar a Altadis. Em 2008 esta tornou-se uma subsidiária da Imperial Tobacco, que em 2016 passou a se chamar Imperial Brands -- uma das cinco gigantes mundiais do Big Tobacco. A clássica marca está sendo vendida apenas na França e arredores, e enfrenta a pesada regulação do país voltada a diminuir o consumo de tabaco, com um maço custando 11 Euros. Mas, apesar disso, Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: uma das lojas caras na Desiderata, em Freeside
Realidade: marca de moda de luxo italiana fundada em 1921. Ativa durante a 2ª Guerra Mundial, a companhia tornou-se um ícone da Dolce Vita pós-Guerra, introduzindo vários produtos icônicos até os anos 80. Nesta década ocorreu uma guerra da família Gucci, em que Maurizio Gucci tentou ganhar o controle da empresa, eventualmente trazendo uma empresa de Bahrain chamada Investcorp. De 1988 a 1993 a Investcorp comprou as ações de Maurizio, pondo fim ao envolvimento da família Gucci com a empresa. Entre 1995 e 1999, a LVMH adquiriu 34% da Gucci, que recorreu à PPR para evitar ser dominada. A briga só terminaria em 2001 com um acordo. Em 2013 a PPR mudou de nome para KeringFuturo: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: uma das lojas caras na Desiderata, em Freeside
Realidade: marca de bens de luxo francesa estabelecida em 1837. Famosa fabricante da Kelly, a bolsa de Grace Kelly e dos carrés, echarpes quadradas de seda. Nos anos 80 a empresa investiu pesado em itens de mesa, com sucesso. Abriu o capital em 1993, mas a familia Hermès manteve o controle acionário. É uma das marcas mais valiosas do mundo. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: onde Case e equipe ficam em Chiba e em Istambul
Realidade: empresa de hotelaria dos EUA fundada em 1919. Em 1964 ela criou uma divisão internacional baseada no Reino Unido, que se tornou uma empresa independente atuando no mesmo ramo com o mesmo nome. Eles atenuaram a confusão em 1997 com uma parceria, que só acabou definitivamente em 2005, quando a empresa original readquiriu a internacional. Em 2007 o Blackstone Group adquiriu a companhia logo antes de uma séria crise, que a levou a abrir seu capital em 2013. Em 2016, a chinesa HNA tornou-se a acionista majoritária. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: computador de bolso padrão de Case
Realidade: conglomerado japonês fundado em 1910. Originalmente parte da zaibatsu Nissan e depois do DKB Group. Pesadamente prejudicada pela 2ª Guerra Mundial, abriu seu capital em 1949. Chegou às Américas em 1959 e à Europa em 1982. Entre 2006 e 2010 a empresa sofreu a maior perda corporativa da história japonesa, que exigiu uma pesada reestruturação programada para terminar em 2021, com especialização em TI e manutenção de infraestrutura. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: triciclo de Bruce
Realidade: fabricante de veículos japonesa fundada em 1946. Desde 1959 é a maior fabricante de motos do mundo. Em 1986 passaram a investir em inteligência artificial e robótica, lançando o ASIMO em 2000. A partir de 2004 expandiram também para o ramo aeroespacial com a joint venture GE Honda Aero EnginesFuturo: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: fabricante do deck Ono-Sendai Cyberspace 7
Realidade: zaibatsu inventada por Gibson, mais explorada em outra de suas obras, New Rose Hotel

Neuromancer: ônibus espacial para o Arquipélago
Realidade: Japan Airlines, companhia de aviação japonesa fundada em 1951, tornando-se a companhia aérea nacional em 1953. Em 1987 a companhia foi privatizada. Em 2002, fundiu-se com a Japan Air System formando a Japan Airlines System. Em 2007, juntou-se à aliança Oneworld. Em 2009 passou por uma crise financeira e pediu falência, com suas ações chegando a sair da bolsa em 2010. Ela conseguiu sair da falência para ser disputada pela Delta e a aliança SkyTeam contra a American e outros membros da Oneworld. A JAL permaneceu nesta aliança, recuperou-se e voltou com ações públicas em 2012. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: Ratz enche uma bandeja de copos com Kirin Draft
Realidade: companhia de bebidas japonesa fundada em 1885, com o nome Japan Brewery Company, parte da zaibatsu Mitsubishi. A cerveja Kirin começou a ser feita em 1888, e em 1907 tornou-se o nome da empresa. Em 2006 adquiriram o controle da Hangzhou Qiandaohu, e em 2011 da Schincariol, que se tornou Brasil Kirin antes de ser vendida em 2017 para a Heineken. Em 2018 adquiriram a Kyowa Hakko para entrar no mercado farmacêutico e biotecnológico, e em 2019 foi a vez de cosméticos e suplementos dietéticos com o controle da Fancl. A Mitsubishi é outra candidata a megacorporação cyberpunk. Futuro: PLAUSÍVEL!

Lexan
Neuromancer: pára-brisas do Mercedes em Istambul e janela do Marcus Garvey
Realidade: nome comercial do policarbonato fabricado originalmente pela General Electric, com patente de 1955 e início de venda em 1960. Em 1973 foi estabelecida a GE Plastics, responsável pela marca. Em 2008 a GE Plastics foi vendida para a árabe SABIC junto com a marca, que ainda é usadaFuturo: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: uma das lojas caras na Desiderata, em Freeside
Realidade: loja de departamentos de luxo britânica fundada em 1875. Em 1955, abriu lojas regionais pelo Reino Unido. Em 1988 estabeleceu uma subsidiária no Japão para vender produtos com sua marca. Em 1996, a rede fechou todas as lojas fora de Londres, para focar em pontos de venda menores em aeroportos. Em 2009, a empresa teve que vender a loja original de Londres por débitos, continuando a usá-la por arrendamento. Em 2010, a BlueGem Capital adquiriu a empresa, mantendo-a em três frentes: as lojas, tecidos e produtos de luxo. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: carro alugado em Istambul
Realidade: marca de automóveis iniciada em 1902, originalmente da Daimler (DMG). Esta fabricante fundiu-se à Benz & Cie. em 1926, formando a Daimler-Benz. A Daimler escolheu a marca para representá-la na nova marca chamada Mercedes-Benz. Em 1998, a companhia fundiu-se à estadunidense Chrysler, formando a DaimlerChrysler. Em 2007 a empresa vendeu a falida Chrysler para a Cerberus Capital Management, mudando de nome para Daimler. Até 2019 uma marca de automóveis, nesse ano a Daimler criou uma subsidiária com o nome Mercedes-Benz, para gerir a marca. Futuro: PLAUSÍVEL!

Mitsubishi Bank of America
Neuromancer: aparece como cubos verdes na matrix
Realidade: o Mitsubishi Bank não chegou a ter um ramo nos EUA com esse nome. Banco japonês fundado em 1880, parte da zaibatsu Mitsubishi. Depois da 2ª Guerra Mundial, com o conglomerado desfeito, em 1948 o banco tornou-se o Chiyoda Bank, voltando ao nome original em 1953. Em 1972 iniciou operações na Califórnia, em 1984 comprando o Bank of California. Em 1996 fundiu-se ao The Bank of Tokyo, e o resultado desta fusão em 2006 fundiu-se ao UFJ, formando o BTMU. As subsidiárias na Califórnia se uniram primeiro com o nome UnionBanCal, adquiridas pela BTMU em 2008 e em 2014 renomeada para MUFG Union Bank. Futuro: PLAUSÍVEL!

Mitsubishi-Genentech
Neuromancer: um sarariman com o logo tatuado nas costas da mão direita
Realidade: fusão inventada por Gibson.

- Mitsubishi: a maior zaibatsu das Big Four, um conglomerado japonês fundado em 1870. A maioria das gigantes japonesas foi dissolvida com a derrota do país após a 2ª Guerra Mundial, e essa empresa teve a mesma sina: apesar de compartilharem nome e marca, as companhias sobreviventes (keiretsu) são formalmente independentes. As quatro maiores são o MUFG Bank, a Mitsubishi Corporation, Mitsubishi Electric e Mitsubishi Heavy Industries. Uma megacorporação cyberpunk que já existe em nossos dias. Futuro: PLAUSÍVEL!

- Genentech: companhia de biotecnologia dos EUA fundada em 1976. À época em que o livro foi escrito, uma empresa nova e revolucionária, com atuação em manipulação genética. Contudo, em 1990 a Hoffmann-La Roche adquiriu o controle acionário da empresa, completando a aquisição das ações restantes em 2009. Futuro: PLAUSÍVEL! para a companhia, IMPROVÁVEL! para a fusão.

Neuromancer: os olhos de Wage são transplantes cultivados em tanques da marca
Realidade: empresa de dispositivos óticos e de imagem japonesa fundada em 1917 como Nippon Kōgaku Kōgyō, abreviada como Nikkō, parte da zaibatsu Mitsubishi. Forneceu lentes para o exército japonês na 2ª Guerra Mundial, depois retornando ao mercado civil. A intenção era que a marca de lentes se chamasse Nikkon desde o começo, mas houve uma disputa com a Carl Zeiss, que tinha uma marca chamada Ikon. Por isso em 1932 a marca saiu como Nikkor, e só em 1948 lançou a primeira câmera com o nome, a Nikon I. O grande sucesso da marca levou à empresa mudar o nome para Nikon em 1988. Futuro: PLAUSÍVEL!

Reinhold Scientific AG
Neuromancer: donos da Bockris Systems GmbH, e subsidiária "três saltos" abaixo da Tessier-Ashpool
Realidade: companhia inventada por Gibson

Neuromancer: escopeta usada por Maelcum
Realidade: fabricante de armas dos EUA fundada em 1816 como E. Remington & Sons. Em 1888 a família Remington vendeu a empresa para a Hartley and Graham, que mudou seu nome para Remington Arms Company. Em 1912 a empresa fundiu-se com a Union Metallic Cartridge na Remington UMC. Fabricou armas para os Aliados na 1ª Guerra Mundial, mas perdeu a Rússia como cliente com a Revolução Russa. Durante a Grande Depressão, foi vendida à DuPont. Em 1993 foi vendida à Clayton, Dubilier & Rice. Em 2007, foi comprada pelo Cerberus Capital Management, que a incluiu em uma holding chamada Freedom Group. Em 2015, a holding foi renomeada para Remington Outdoor Company. Em 2017 surgiram indícios de falência, que foi pedida em 2018, mas saíram da falência dois meses depois graças a um plano de recuperação acionário. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: transceptor usado por Terzi, traje de vácuo vermelho
Realidade: empresa de eletrônicos japonesa fundada em 1947. Chegou à América em 1970, adquirindo a Warwick Electronics da Whirlpool em 1976 e a Fisher Electronics em 1977. Em 1986 o ramo nos EUA tornou-se a Sanyo Fisher. O terremoto de Chuetsu em 2004 danificou a fábrica de semicondutores da Sanyo, causando grande prejuízo financeiro à empresa. Em 2008 vendeu sua divisão de telefonia móvel à Kyocera, e em 2009 foi adquirida pela Panasonic, tornando-se subsidiária dela. Em 2012, a Panasonic anunciou que a marca Sanyo seria encerrada na maioria dos produtos. Porém, a empresa reviveu a marca na Índia em 2016 com uma linha de smart TVs, e aparelhos de ar-condicionadoFuturo: IMPROVÁVEL!

Sendai
Neuromancer: dermatrodos usados com o deck
Realidade: companhia inventada por Gibson

Sense/Net
Neuromancer: companhia que mantém o construto de Dixie Flatline
Realidade: companhia inventada por Gibson

Neuromancer: Case cresceu vendo vídeos de artes marciais de Sony Mao e Mickey Chiba
Realidade: companhia de produções cinematográficas de Hong Kong fundada em 1958, descendendo da Tianyi Film Company e parte da Shaw Organization. No fim dos anos 60 a empresa focou em filmes de artes marciais, pelos quais se tornou famosa, como por exemplo a Venom Mob e seus filmes. Em 2000 a Celestial Pictures -- subsidiária da malaia Astro -- adquiriu direitos sobre a biblioteca de filmes da produtora. Em 2011 ela encerrou a produção de filmes, tornando-se Clear Water Bay Land Company Limited. Desde 2017 a Celestial concentra-se apenas na distribuição de filmes, com títulos da Shaw disponíveis na Amazon PrimeFuturo: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: marca da escopeta usada por Kurt no Chatsubo
Realidade: companhia de armas dos EUA fundada em 1856, depois que a S&W original, fundada um ano antes, foi vendida como Volcanic (que depois se tornaria a Winchester). Lendária produtora de revólveres, como o S&W Model 1 na Guerra Civil dos EUA, o  popularíssimo Model 10 de 1899, o Model 27 que inaugurou a Era Magnum em 1935 e o Model 29 de Dirty Harry. Em 1965 a família Wesson vendeu o controle à Bangor Punta, que expandiu a produção para acessórios e equipamentos policiais. Perdeu mercado pras concorrentes fabricantes de semiautomáticas nos anos 80, e em 1987 foi vendida à britânica Tomkins. Com tentativas de controle de armas nos EUA, tentou um acordo com a administração Clinton em 2000, que saiu pela culatra com um boicote orquestrado pela NRA e NSSF. Em 2001 a empresa foi vendida para a Saf-T-Hammer, que mudou de nome em 2002 para S&W Holding e em 2016 para American Outdoor. Em 2019 foi dividida criando uma nova companhia chamada S&W Brands, responsável pelas armas da marca. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: monitor comprado pra usar com o deck
Realidade: conglomerado de mídia e tecnologia japonês fundado em 1946 como Tokyo Tsushin Kogyo. Em 1958 mudou de nome para Sony. Chegaram aos EUA em 1960 e invadiram o mercado do país com rádios portáteis como o TR-63. Produziram o padrão Betamax de fita magnética em 1975, derrotado na Guerra do Videotape. O primeiro Walkman saiu em 1979. Co-desenvolveu o Compact Disc (CD) com a Philips em 1982. Adquiriram a CBS Records em 1988, origem da Sony Music, e a Columbia Pictures em 1989, origem da Sony Pictures. Em 1994 lançaram o primeiro PlayStation, linha de videogames bem-sucedida até hoje, origem da Sony Interactive Entertainment. Em 2006 entraram em nova Guerra de Formato com o Blu-ray, desta vez vencendo. Mais uma megacorporação cyberpunk em nossos dias. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: console de entretenimento do velho Ashpool
Realidade: fabricante de rádios e televisões alemã fundada em 1903, uma joint venture da AEG e da Siemens & Halske. Em 1941, ocorreu o chamado Acordo Telefunken, com a S&H passando sua participação na empresa à AEG. A empresa continuou como subsidiária integral, em 1955 como limitada (GmbH) e em 1963 como SA (AG). Em 1967 fundiu-se à AEG, que foi renomeada AEG-Telefunken. Em 1985 a então Daimler-Benz adquiriu a companhia, dissolvendo a AEG internamente. Em 1995 o que havia sido a Telefunken foi vendida à Tech Sym, mantendo-se apenas como um sistema de rádio em Berlim. Em 2000 Toni Roger Fishman comprou os direitos de uso da marca nos EUA para restauração e réplicas de produtos antigos, formando a Telefunken USA (atual Telefunken Elektroakustik). Em 2005 o sistema de Berlim perdeu o nome Telefunken, mudando de nome para Transradio. Em 2006, a turca Profilo Telra adquiriu o uso da marca para vender televisões. Futuro: IMPROVÁVEL!

Tessier-Ashpool S.A.
Neuromancer: companhia central na história, de um clã industrial baseado na Vila Straylight
Realidade: companhia inventada por Gibson.

Neuromancer: voo saindo de Istambul
Realidade: Turkish Airlines, companhia de aviação nacional da Turquia, fundada em 1933 como Devlet Hava Yolları (Companhia Aérea do Estado). Em 1956 o governo a reorganizou como Türk Hava Yolları (Companhia Aérea da Turquia) ou THY. No mesmo ano juntou-se à IATA. Apesar de um período crítico do fim dos anos 70 aos anos 90 com acidentes, sequestros, e a Guerra do Golfo, entre 1990 e 1992 ela abriu seu capital e se recuperou em 1995. Em 1996 o mercado turco foi aberto a concorrentes externos. Em 2004 o governo turco, ainda detentor de 98% das ações, ofereceu 20% da empresa na Bolsa de Istambul. Em 2008 juntou-se à Star Alliance. Passou por nova crise em 2016, superada em 2017. Futuro: PLAUSÍVEL!

Neuromancer: o Chatsubo tem um cinzeiro de plástico com um anúncio da cerveja
Realidade: cervejaria chinesa fundada em 1903, por uma companhia cervejeira anglo-germânica baseada em Hong Kong. Em 1916 foi vendida para a japonesa Dai-Nippon. Com a rendição do Japão e sua saída da China (o fim da 2ª Guerra Mundial), em 1945, a companhia tornou-se chinesa, de propriedade da família Tsui. Em 1949, a Proclamação da República Popular da China levou à confiscação dos bens da companhia, que se tornou uma estatal. No começo dos anos 90 foi privatizada, e em 1993 fundiu-se a três outras cervejarias da região homônima. O controle acionário do Tsingtao Group chegou a ser ameaçado nos anos 2000 pela Anheuser-Busch e em 2009 pela Asahi, mas esta vendeu sua participação em 2017. Futuro: PLAUSÍVEL!

Tsuyako
Neuromancer: uma das lojas caras na Desiderata, em Freeside
Realidade: companhia inventada por Gibson, ツヤ子 quer dizer "lustroso"

Neuromancer: pistola que Case aluga é imitação vietnamita de uma cópia sul-americana da marca, Michèle usa uma PPK com silenciador integral
Realidade: fabricante de armas alemã fundada em 1886. Começaram a fabricar pistolas em 1908. Em 1929 lançaram a popular PP (pistola policial), e em 1931 a primeira PPK (modelo detetive), popularizada por James Bond. Entre 1942 e 1945 usaram trabalho escravo no campo de concentração de Neuengamme. Ironicamente, Hitler usou uma PPK para se suicidar. Com a fábrica destruída na Guerra, foi reduzida às patentes, reiniciando apenas em 1953. Em 1993 foi adquirida pela Umarex, que tornou-se PW Group em 2006. Futuro: PLAUSÍVEL!

Yeheyuan
Neuromancer: marca de cigarros preferida de Case
Realidade: marca criada por Gibson.

1 de setembro de 2020

Por que "Blade Runner"?

Em meio à imersão em cyberpunk que faço para meu próximo projeto, esbarrei nessa curiosidade que compartilho nesta postagem.


Por que o filme Blade Runner tem esse nome?



O filme é uma adaptação de Do Androids Dream of Electric Sheep? (Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?) de Philip K. Dick.


No filme, o termo é usado para os caçadores de andróides -- ou melhor, os aposentadores de replicantes.


Mas o termo blade runner, como muitos outros, só existe no filme. Não é mencionado no texto original, nem o termo replicantes (o autor usa andy, plural andies, para referir-se aos andróides).


A explicação intrincada:



O livro The Bladerunner (1974), de Alan E. Nourse, se passa em uma sociedade com pesadas exigências para o atendimento médico, incluindo a esterilização. Por isso, surgiu um mercado negro de serviços médicos, e os suprimentos para os médicos ilegais -- como os bisturis -- são fornecidos por traficantes de lâminas, ou bladerunners.



Em 1979, o escritor americano William S. Burroughs, ícone da Beat Generation e autor de Almoço Nu, foi comissionado para escrever um tratamento (uma prévia de roteiro de filme) da obra de Nourse. O tratamento foi publicado como Blade Runner (a movie).


Hampton Fetcher e David Peoples, na adaptação para o cinema da obra de Philip K. Dick (Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?), trabalharam primeiro com o título Android (Andróide) e depois Dangerous Days (Dias Perigosos). Fetcher possuía uma cópia do tratamento de Burroughs e sugeriu o título Blade Runner. Ridley Scott, o diretor do filme, adquiriu os direitos para o título, mesmo que associados às obras de Nourse e Burroughs.



Curiosidade bônus! Em 1983, Kent Smith, iniciou um filme originalmente inspirado em um poema seu e em L'Étranger (O Estrangeiro) de Albert Camus. Mas na pós-produção, Smith abandonou o filme e Tom Huckabee assumiu como diretor, optando por basear o filme em Blade Runner (a movie), o tratamento da obra de Nourse escrito por Burroughs. Mesmo com pouca conexão com as obras, o título do filme não poderia ser Blade Runner pelos direitos estarem com Ridley Scott. O filme recebeu o título Taking Tiger Mountain.


Veja mais detalhes em https://www.vulture.com/2017/10/why-is-blade-runner-the-title-of-blade-runner.html.

19 de junho de 2020

Slaves to the Senses


Está disponível "Slaves to the Senses", tradução para inglês do meu quarto livro, "Escravos dos Sentidos"!
Já está nas seguintes livrarias (links serão incluídos para outras plataformas assim que disponíveis): 


O livro foi publicado através da plataforma Babelcube.

13 de janeiro de 2020

The Fourth Dimension

https://edcapistrano.blogspot.com/p/the-fourth-dimension.html

Feliz 2020 para todos! Está disponível "The Fourth Dimension", tradução para inglês do meu segundo livro, "A Quarta Dimensão"!

Já está nas seguintes livrarias (links serão incluídos para outras plataformas assim que disponíveis):


O livro foi publicado através da plataforma Babelcube.

7 de outubro de 2019

Um Sonho em um Sonho Inserido

https://en.wikipedia.org/wiki/Sleep_and_his_Half-brother_Death
Sonho e seu meio-irmão Morte, John William Waterhouse, (1874)
UM SONHO EM UM SONHO INSERIDO
de Edgar Allan Poe (1809-1849)
Traduzido por Eduardo Capistrano
(preservando a estrutura de rima)

Texto original de A DREAM WITHIN A DREAM obtido em The Edgar Allan Poe Society of Baltimore.


Sobre a fronte este beijo venha a tomar!
E, de você agora a me separar,
Este tanto permita-me confessar —
Não está errado, quem está convencido
Que meus dias um sonho têm sido;
Ainda que a esperança tenha embora voado
Em uma noite, ou em um dia passado,
Em uma visão, ou em nenhuma vivida,
É ela portanto menos perdida?
Tudo o que vemos ou que temos transparecido
É apenas um sonho em um sonho inserido.

Em meio ao rugido fico em pé
De uma costa atormentada pela maré,
E seguro em minha mão apertada
Grãos da areia dourada —
Quão poucas! mas como vão penetrando
Pelos meus dedos para o fundo derramando
E eu chorando — eu chorando!
Ó Deus! Não posso manter
Eles e mais apertado os conter?
Ó Deus! Não posso eu salvar
Um da onda impiedosa a quebrar?
É tudo o que vemos ou que temos transparecido
Apenas um sonho em um sonho inserido?