• Histórias Estranhas
  • A Quarta Dimensão
  • Adolpho Werneck - Vida e Obra
  • Arquivos de Guerra

21 de novembro de 2016

CHRISTABEL - Samuel Taylor Coleridge

 A meio caminho da cama ela se levantou então,
E sobre os cotovelos se reclinou ela
Para olhar para Geraldine, a donzela.


"The Blue Fairy Book", ilustração de H. J. Ford e Lancelot Speed para "Christabel"

CHRISTABEL de Samuel Taylor Coleridge (1772-1834)
Traduzido por Eduardo Capistrano
(preservando a mesma estrutura de rima)

PARTE I

É o meio da noite, pelo relógio do castelo adiante,
E as corujas despertaram o galo cantante;
Tu--whit!----Tu--whoo!
E escute, de novo! o galo cantante,
Quão preguiçosamente ele cantou.
O rico Barão, Sir Leoline,
Tinha uma cadela banguela mastim;
Sob a rocha, de seu canil repousante
Ao relógio fazia resposta uivante,
Quatro para os quartos, e doze para a hora;
Todo tempo e sempre, faça sol ou chuva lá fora,
Dezesseis uivos curtos, não altos demais;
Dizem que vê minha senhora em vestes fantasmais.

É a noite fria e escura?
A noite é fria, mas não escura.
A fina nuvem cinzenta está alta ao léu,
Ela cobre mas não esconde o céu.
A lua está atrás, e está plena;
E mesmo assim parece sem graça e pequena.
A noite é fria, cinzenta é a nuvem:
É um mês e Maio é o mês que vem,
E a Primavera lento curso para estes lados tem.

Christabel, a amável dama,
A quem seu pai tanto ama,
O que faz ela na mata tão tarde, longe
Do portão do castelo a um furlong?
Pela noite anterior seu sonho foi preenchido
Por seu próprio cavaleiro prometido;
E ela na mata à meia-noite irá rezar
Pelo bem-estar de seu amante que longe está.

Ela furtou-se em frente, ela nada falou,
Apenas suspiros suaves e baixos soltou,
E nada era verde sobre o carvalho além
Do musgo e do mais raro visco também:
Ela se ajoelha sob o carvalho imenso,
E então rezou em silêncio.

A dama, súbito, tinha se levantado,
Christabel, a amável senhorita!
Algo gemeu perto, muito chegado,
Mas o que era não podia ser por ela descrita. --
O que fosse parecia estar do outro lado,
Do imenso, velho carvalho entroncado.

A noite é gelada; nua é a floresta;
É o vento que geme deplorável?
No ar vento suficiente não resta
Para o anelado cacho soprar
Da face da dama amável --
Não há vento suficiente para girar
A única folha vermelha, a última da dinastia,
Que dança tanto quanto dançar podia,
Tão leve pairando, e tão alta pairando,
No ramo mais ao topo o céu acima olhando.

Coração palpitante de Christabel, calma!
Jesu, Maria, protejam sua alma!
Os braços sob seu manto cruzou,
E para o outro lado do carvalho se furtou.
O que ela vê lá?

Lá ela vê uma brilhante donzela,
Vestida de branco sedoso estava ela,
Que sombriamente à luz da lua brilhou:
O pescoço que aquele robe branco debilitou,
Seu pescoço majestoso, e braços estavam despidos;
Seus pés com veias azuis de sandálias desprovidos,
E loucamente cintilavam aqui e lá
As gemas emaranhadas no cabelo dela.
Eu acho, ver tal coisa era estarrecente
Uma dama como ela vestida tão ricamente --
Bela excessivamente!

Salve-me agora, mãe Maria!
(Disse Christabel), E quem tu serias?

A estranha dama uma resposta encontrou,
E com voz débil e doce falou: --
Tenha piedade de minha sofrida tristeza,
Eu mal posso falar pela fraqueza:
Estique à frente tua mão, e não te assustes!
Disse Christabel, Como tu aqui chegaste?
E a dama, cuja voz débil e doce falou,
Assim seguiu com resposta que encontrou: --

Meu senhor é de uma nobre linha,
E meu nome é Geraldine:
Fui na manhã de ontem por cinco guerreiros cercada,
Eu, eu mesma, uma donzela desamparada:
Com força e pavor meus gritos eles sufocaram,
E em um branco palafrém me amarraram.
O palafrém era como o vento veloz,
E eles cavagaram com fúria logo após.
Seus corcéis brancos, eles apressados esporaram:
E uma vez a sombra da noite nossos cavalos cruzaram.
Tão certo quanto o Paraíso deverá me resgatar,
Que homens são eles, não tenho o que pensar;
Nem sei eu quanto tempo fazia
(Pois é certo que em um transe eu jazia)
Desde que um, o mais alto dos cinco,
Tirou-me das costas do palafrém,
Uma mulher cansada, viva por pouco.
Seus camaradas falaram algumas palavras murmuradas:
E embaixo deste carvalho deixou-me colocada;
Ele jurou que com pressa iriam retornar;
Aonde eles foram eu não posso dizer --
Alguns minutos atrás, eu pensei escutar,
Sons como os de um sino de castelo a bater.
Estique à frente tua mão (assim terminou ela),
E ajude a fugir uma miserável donzela.

Então Christabel esticou a mão dela adiante,
E confortou a bela Geraldine:
Oh bem, brilhante dama! seja você a comandante
Do serviço de Sir Leoline;
E alegremente nossa robusta cavalaria
Irá ele encaminhar e amigos com que dar
Para você guarda segura e livre, e guia
Até os salões de seu nobre pai, seu lar.

Ela levantou: e adiante passos elas deram
Que tentavam ser rápidos, mas não eram.
A dama abençoou suas estrelas graciosas,
E assim falando a doce Christabel, continuou ela:
Toda a nossa morada está ociosa,
O salão tão silencioso quanto a cela;
Sir Leoline está com a saúde curta,
E pode não bem acordado estar,
Mas nós nos moveremos como quem furta,
E sua cortesia eu preciso implorar,
De esta noite, seu leito comigo compartilhar.

Elas cruzaram o fosso, e Christabel
Pegou a chave bem encaixável:
Uma pequena porta ela abriu ligeira,
No meio do portão ela inteira.
O portão que era de ferro do lado de dentro e fora,
Onde uma tropa em formação marchou embora.
A dama afundou, provavelmente pela dor,
E Christabel com força e vigor
A levantou, um peso com exaustão,
Sobre o limiar do portão:
Então a dama de pé tentou se pôr,
E se moveu, como se ela não estivesse em dor.

Então livres de perigo, do medo livradas,
Elas cruzaram o pátio: estavam muito animadas.
E Christabel gritou devotamente
Para a dama que estava dela rente,
Louvemos nós a Virgem toda divina
Que resgatou a ti de teu sofrimento!
Ai, ai! disse Geraldine,
Eu não posso falar por exaurimento.
Então livres de perigo, do medo livradas,
Elas cruzaram o pátio: estavam muito animadas.

A mastim velha, fora de seu canil
Deitada dorme pesado, à luz da lua, no frio.
A velha mastim não veio a acordar,
Apesar de um gemido bravo ela dar!
E o que à cadela mastim afligiria?
Nunca até agora ela um grito deu
Perante o olho de Christabel.
Talvez seja um filhote de coruja que pia:
Pois o que à cadela mastim afligiria?

Elas passaram o salão, que ecoa ainda,
Passe tão levemente quanto você pretenda!
As brasas estavam quietas, as brasas estavam morrendo,
Em meio às suas próprias cinzas brancas jazendo;
Mas lá veio, quando passou a dama
Uma língua de luz, um ataque de chama;
E Christabel viu da dama o olhar,
E depois daquilo nada mais pôde enxergar,
Salvo o relevo do escudo de Sir Leoline nobre,
Que pairava na parede em um velho nicho lúgubre.
Disse Christabel: Ó, caminhe suavemente,
Para meu pai é raro dormir tranquilamente.

A doce Christabel seus pés revelando,
E o ar ouvinte invejando
Seu rumo de escada a escada vão furtando,
Agora em claridade, e agora em escuridão,
E agora eles passam pelo quarto do Barão,
Tão quieto como a morte, com respiração contida!
E agora a porta do quarto dela alcançaram;
E agora Geraldine comprime
Os cálamos que o chão do quarto forram.

A céu aberto a lua está tênue a brilhar,
E não entra aqui um só raio de luar.
Mas elas podem ver sem a lua luminosa
A sala entalhada de maneira tão curiosa,
Com figuras estranhas e doces entalhada,
Todas feitas pelo entalhador, por sua mente,
Para o quarto de uma dama presenteada:
A lâmpada com dupla e prateada corrente
Aos pés de um anjo está amarrada.

A lâmpada prateada tem fogo morto e sombrio;
Mas Christabel irá aparar seu pavio.
Ela aparou a lâmpada, e fez ela brilhante,
E balançando para cá e para lá a deixou,
Enquanto Geraldine, em tristeza angustiante,
Sobre o chão abaixo afundou.

Ó Geraldine, dama exaurida,
Eu imploro a você, beba esta cordial bebida!
Ele é um vinho de virtuosos poderes;
Minha mãe o fez de flores silvestres.

E irá sua mãe ter piedade de mim,
Que sou uma donzela tão perdida?
Christabel respondeu -- Pobre de mim!
Ela morreu na hora em que eu era nascida.
Eu escutei o frade de cabelos cinzas contar
Como em seu leito de morte ela veio a dizer,
Que o sino do castelo ela iria escutar
No dia de meu casamento doze vezes bater.
Ó mãe querida! que tu estivesses aqui!
Queria, disse Geraldine, que fosse assim!

Mas logo disse ela, com voz alterada --
'Fora, mãe peregrina! Enfraqueça e definha!
Tenho poder para tua fuga ser ordenada.'
Ai! o que aflige a pobre Geraldine?
Porque com olho perturbado está ela a fitar?
Pode ela os mortos sem corpo espiar?
E porque ela grita com voz esvaziada,
'Fora, mulher, fora! esta hora é minha --
Ainda que dela tu sejas o espírito guarda,
Fora, mulher, fora! a mim foi dada.'

Então Christabel ao lado da dama se pôs ajoelhada,
E aos céus elevou os olhos tão azuis dela --
Ai! disse ela, esta atroz cavalgada --
Cara dama! foste desorientada por ela!
A dama enxugou seu rosto úmido e gelado,
E debilmente disse, 'agora está terminado!'

De novo o vinho de flor silvestre ela havia tomado:
Seus belos grandes olhos de novo cintilam brilhantes,
E do chão sobre o qual havia ela afundado,
Ergueu-se ereta a dama elegante:
Ela estava belíssima, isso se via,
Uma dama de um país distante parecia.

E a dama elegante falou então --
'Todos aqueles que no céu superior têm lar,
Amam você, Christabel sagrada!
E você os ama, e com eles em consideração
E pelo bem com que fui agraciada,
Mesmo eu em meu grau irei tentar,
Bela dama, fazer que sejas bem compensada.
Mas agora dispa-se; pois devo orar
Antes de na cama eu me deitar.'

Proferiu Christabel, Assim deixe ser!
E como a dama pediu, ela se pôs a fazer.
Seus membros delicados ela desnudou,
E em sua amabilidade se deitou.

Mas através do cérebro dela de mal e bem
Tantos pensamentos cá e lá se movem,
Que suas pálpebras se fecharem era vão;
A meio caminho da cama ela se levantou então,
E sobre os cotovelos se reclinou ela
Para olhar para Geraldine, a donzela.

Sob a lâmpada a dama foi se curvando,
E com vagar os olhos ao redor rolou;
Então com som alto seu fôlego inspirando,
Como alguém que tremia, ela desamarrou
O cinturão de seu peito abaixo:
O robe sedoso, e a veste de baixo,
Caíram aos pés dela, e todo à vista,
Observem! seu busto e meio flanco --
Uma visão para se sonhar, não para contar!
Ó guardem-na! a doce Christabel devem guardar!

Ainda Geraldine não se mexe e nem fala;
Ah! que olhar chocado era o dela!
Dentro de si, no fundo, ela no meio parece estar
De em ensaio doentio algum peso levantar,
E olha a donzela e procura esperar;
Então súbito, como desafiada por alguém,
Seu escárnio e orgulho por si mesma contém,
E ao lado da Donzela a se deitar vem! --
E nos seus braços a donzela foi colhida,
Ah lamentação!
E com voz baixa e expressão sofrida
Estas palavras falou então:
'No toque deste seio um feitiço eu vou pôr,
De teu falar, Christabel, ele é o senhor!
Tu conheces esta noite, e de amanhã terás conhecimento,
Esta marca de minha vergonha, este selo de meu tormento;
Mas vãmente tu lutas,
Pois isto é somente em
Teu poder de declarar,
Que nas lúgubres matas
Tu escutaste um gemido baixo,
E uma dama brilhante, bela demais, vieste a achar;
E trouxeste ela a teu lar contigo em amor e caridade,
Para guardá-la e do ar úmido a abrigar.'


A CONCLUSÃO DA PARTE I

Era uma visão amável de se olhar
A dama Christabel, quando foi estar
Diante do velho carvalho a rezar.
Entre as sombras afiadas
De musgosas galhadas desfolhadas,
Ajoelhando à luz da lua,
Para fazer suas preces delicadas;
Suas palmas esbeltas juntas pressionando,
Às vezes de seu peito um suspiro soltando;
Sua face resignada em gozo ou dor --
Sua face, oh chame-a de alva e não sem cor,
E os dois olhos azuis não claros mas brilhantes,
Cada um prestes a ficar lacrimejante.

Com olhos abertos (ah, minha dor!)
Adormecida, e sonhando com temor,
Com temor, eu sei, ainda está a sonhar
Sonhando aquilo sozinha, e isso está --
Ó mágoa e vergonha! Pode esta ser ela,
A dama, que ajoelhou ante a árvore velha?
E lá! a operadora desta mazela,
Que segura nos seus braços a donzela,
Parece dormitar quieta e mansa,
Como uma mãe com sua criança.

Uma estrela se pôs, uma estrela fez ascensão,
Ó Geraldine! desde que o abraço teu
Têm sido para a dama amável uma prisão
Ó Geraldine! uma hora foi tempo teu --
Tu tiveste feita tua vontade! Em laguna e regato,
Todos os pássaros da noite na hora ficaram pacatos.
Mas agora eles estão de novo jubilantes,
De penhasco e torre, tu--whoo! tu--whoo!
Tu--whoo! tu--whoo! da mata e montes!

E veja! a dama Christabel
Sai de seu transe em recuperação;
Seus membros relaxam, sua expressão
Fica triste e suave; as pálpebras finas e veludosas
Fecham sobre seus olhos; e lágrimas ela dosa --
Grandes lágrimas que deixam os cílios reluzentes!
E de vez em quando ela parece sorrir
Como crianças com uma luz de repente!

Sim, ela tem sorrido, e ela tem chorado,
Como uma ermitã ainda jovem,
Bonita em uma área selvagem,
Que, sempre rezando, até no sono tem rezado.
E, se ela se move inquietamente,
Talvez, seja o sangue livre tão somente
Que volta e deixa seus pés em formigação.
Sem dúvida, ela teve uma doce visão.
E se o espírito guardião dela quem ali estava,
E se ela soubesse ser sua mãe quem a cercava?
Mas isto ela sabe, em alegrias e tristezas,
Que se os homens chamarem santos vão ajudar:
Pois o céu azul sobre tudo está a se curvar!

1797.


PARTE II

O Barão disse, cada sino matinal
Dobra-nos de volta a um mundo fatal.
Tais palavras Sir Leoline disse em vez primeira,
Quando levantou e encontrou morta sua companheira:
Estas palavras Sir Leoline irá dizer,
Em muitas manhãs até o dia em que morrer!

E assim veio o costume e a lei que há agora
Que o sacristão ainda na aurora,
Que devidamente o sino pesado vai puxar,
Cinco e quarenta contas deve contar
Entre cada batida -- um dobre a alertar,
Que nem uma alma tem escolha a não ser ouvir
Da Nascente do Bratha até Wyndermere.

Disse Bracy o bardo, Então deixe que dobre!
E deixe o sonolento sacristão
Ainda contar como pode, com lentidão!
Não há falta em tal, eu creio,
Pode muito bem preencher o espaço no meio.
No Pico de Langdale e no Lar da Bruxa,
E Dungeon-ghyll tão vilmente locado,
Com sinos de ar e cordas de rocha
Três sacristões pecadores fantasmas estão trancados,
Todos, um depois do outro devolve
A nota de morte para seu irmão que ainda vive;
E às vezes também, pelo dobre ofendido,
Assim que o um! dois! três! dele está concluído,
Do conto doloroso o diabo vai rindo
Com um alegre repique de Borodale vindo.

O ar está parado! através de névoa e nuvem
Aquele alegre repique soando alto vem;
E Geraldine seu pavor espanta,
E levemente da cama se levanta;
Põe suas brancas e sedosas vestimentas,
E seu cabelo com amável dificuldade ornamenta,
E nada suspeitando do feitiço seu
Despertou a dama Christabel.
'Ainda dorme, doce dama Christabel?
Eu creio que você bem adormeceu.'

E Christabel acordou e espiou
A mesma que ao lado dela se deitou --
Ó melhor dizer, a mesma quem ela
Levantou debaixo da árvore velha!
Não, mais bela ainda! e mais bela de se olhar!
Pois bebido fundo ela muito bem pode ter
Todo o abençoamento do adormecer!
E enquanto ela falou, sua expressão, seu ar
Tão gentil agradecimento a declarar,
Que (assim parecia) suas vestes cintadas
Sob seus seios arfantes ficavam apertadas.
'Claro que eu pequei!' disse Christabel,
'Se tudo ficar bem, agora seja louvado o céu!'
E ainda que doce, em tom baixo e hesitante,
A ela cumprimentou a dama elegante
Com tal perplexidade de mente
Como deixa para trás sonhar muito vividamente.

Então ligeira ela levantou, e ligeira juntou
Seus braços de donzela, e depois que rezou
Para que Ele, que na cruz deu gemidos,
Poderia lavar embora seus pecados desconhecidos,
Ela de pronto levou a bela Geraldine
Para encontrar seu senhor, Sir Leoline.

A donzela amável e a alta dama estão
Passando ambas para dentro do saguão,
E depois que pajem e criado passaram,
A sala de recepção do Barão adentraram.

O Barão levantou, e em meio ao aperto
De sua filha gentil contra seu peito,
Com jovial fascínio em seu olhar
A dama Geraldine vem a espiar,
E deu tais boas-vindas à visitante,
Quanto poderia caber a dama tão brilhante!

Mas quando escutou o que a dama tinha a contar,
E quando o nome de seu pai ela contou,
O que fez Sir Leoline tão pálido ficar,
O nome repetidas vezes murmurou,
De Tryermaine, o Lorde Roland de Vaux?
Ai! eles foram amigos na mocidade;
Mas línguas sussurrantes podem envenenar a verdade;
E a constância vive nos reinos superiores;
E a vida é espinhosa; e a juventude é vazia;
E enraivecer com alguém por quem temos amores
Trabalha no cérebro como a insânia.
E então veio a ocorrer, como eu adivinho,
Com Roland e Sir Leoline.
Cada um palavras de alto desdém proferia
E o melhor irmão de seu coração insultou:
Eles se separaram -- e nunca mais um o outro encontraria!
Mas nunca qualquer um outro encontrou
Para o coração vazio das dores livrar --
Eles ficaram impassíveis, as cicatrizes a restar,
Como grandes rochas que fossem estraçalhadas;
Um mar pavoroso flui entre eles agora; --
Mas nem calor, nem gelo, nem trovoada,
Devem completamente, creio, levar embora
As marcas daquilo que foi outrora.

Sir Leoline, em espaço de um momento,
Contemplou a face da donzela com detimento:
E o jovem Lorde de Tryermaine
De volta ao seu coração vem.

Ó então esqueceu sua idade o Barão,
Inchou muito com fúria seu nobre coração;
Ele jurou pelo flanco de Jesu ferido,
Que faria longe e amplamente ser proferido,
Com trombeta e heráldica de solenidade
Que eles, que assim à dama fizeram mal,
Eram reles como a avistada indignidade!
'E se eles ousarem negar fato tal,
Meu arauto irá uma semana indicar,
E os traidores renegados deixados a buscar
Meu pátio de torneio -- que lá e então
Eu possa suas almas répteis tirar
Dos corpos e formas de homens que usando estão!'
Ele disse: seu olho em relâmpago a girar!
Pois a dama foi cruelmente raptada; e ele reconheceu
Na bela dama a filha do amigo seu!

E agora pela face dele o pranto fluiu,
E com carinho em seus braços veio a tomar
A bela Geraldine, que o abraço retribuiu,
Prolongando-o com jubiloso olhar.
Que quando ela viu, uma visão se abateu
Sobre a alma de Christabel,
A visão do medo, o toque e a dor!
Ela encolheu e viu de novo, com tremor --
(Ah, pobre de mim! Era para ser,
Tu donzela gentil! tais vistas ver?)

De novo aquele idoso peito viu,
De novo aquele gelado peito sentiu,
E inspirou o fôlego dela com um sibilante ruído:
Ao que o Cavaleiro virou ao redor incendido,
E nada viu, além de sua própria doce donzela
Com os olhos para o alto, como se rezasse ela.

O toque, a imagem, se esvaneciam
E em seu lugar aquela visão que abençoava,
Com que após o repouso se confortava
Enquanto nos braços da dama ela jazia,
Um arrebatamento em seu peito colocava,
E nos lábios dela e sobre seu olhar
Espalhou sorrisos como luz!
                                              Com novo assombrar,
'O que aflige então minha amada criança?'
O Barão disse -- Sua filha mansa
Fez resposta, 'Tudo ficará bem um dia!'
Eu creio, ela não tinha poder e não contaria
Algo diferente: tão poderosa era a feitiçaria.

Ainda ele, que viu esta Geraldine,
Considerou ela certamente uma coisa divina:
Ela misturava tamanha mágoa com tamanha graça,
Como se ela temesse ter feito ofensa
À doce Christabel, aquela gentil donzela!
E com tons tão rebaixados rezava ela
Que ela pudesse ser enviada sem protelação
Para casa na mansão do seu pai.
                                                    'Não!
Não, por minha alma!' Leoline disse.
'Ho! a carga será tua, bardo Bracy!
Vás tu, com música alta e dulçorosa,
E tome dois corcéis com insígnias orgulhosas,
E leve o jovem que por tu és mais querido
Para carregar tua harpa, e tua canção aprender,
E traje vocês ambos em solene vestido,
E sobre as montanhas se ponham a correr,
Assim a gente peregrina, que mora por lá,
Na estrada do vale não os deterá.

'E quando a cheia do Irthing terminou de cruzar,
Meu bardo alegre! ele se apressa, se apressa
Morro Knorren acima, através do Bosque de Halegarth,
E logo veio aquele bom castelo a alcançar
Que resiste e ameaça as desolações da Escócia.

'Bardo Bracy! bardo Bracy! veloz é sua cavalaria,
Você deve cavalgar até o saguão, sua música tão macia,
Mais alta que os pés ecoantes das suas montarias!
E alta e alta para Lorde Roland faz chamada,
Tua filha no salão de Langdale está guardada!
Tua bela filha segura e livre está --
Sir Leoline assim vem por mim te saudar!
Ele pede a ti que venhas sem protelação
Com toda a tua numerosa guarnição
E leve tua filha amável para o lar adiante:
E ele no caminho contigo fará reunião
Com toda a sua numerosa guarnição
Branca com a espuma de seus palafréns arfantes:
E, por minha honra! Sou quem anuncia,
Que eu me arrependo do dia
Quando eu falei palavras de feroz desdém
Para Roland de Vaux de Tryermaine! --
-- Pois desde que aquela má hora voou,
Mais de um sol de verão brilhou;
E ainda nunca encontrei eu um amigo também
Como Roland de Vaux de Tryermaine.'

A dama caiu, e agarrou seus joelhos,
A face dela para cima, os olhos dela transbordando;
E Bracy replicou, com voz hesitante,
O gracioso Clamor dele a todos alcançando! --
'Tu senhor de Christabel, o que estás a falar,
É mais doce do que minha harpa pode contar;
Ainda possa eu uma dádiva de ti merecer,
Este dia minha jornada não deveria ser,
Um sonho tão estranho eu vim a ter,
Que eu jurei com música alta
Limpar aquela mata do que for amaldiçoado,
Em meu repouso por uma visão fui alertado!
Pois em meu sono aquela pomba eu vi,
Aquele pássaro gentil, amado por ti,
E ao qual o nome de tua própria filha deu --
Sir Leoline! A mesma vi eu
Batendo asas, e soltando temível lamentação,
Entre as ervas verdes na floresta em isolação.
Que quando eu vi e quando ouvi,
Eu imaginei o que poderia o pássaro afligir;
Pois coisa alguma próxima podia ser enxergada,
Além da grama e ervas verdes pela velha árvore encimadas.

' E em meu sonho me pareceu que rumava
Procurar o que poderia lá ser encontrado;
E o que o apuro do doce pássaro significava,
Que assim batia asas no chão deitado.
Eu fui e espiei, e poderia descrever
Não haver causa para chorar para alguém o socorrer;
Mas ainda pelo que sua cara dama quereria
Eu me abaixei, para a pomba pegar, me parecia,
Quando lá! uma cobra verde brilhante eu via
Enrolada ao redor de suas asas e pescoço.
Verde como as ervas em que deitada estava,
Perto da cabeça da pomba ela a sua rastejava;
E com a pomba ela se debate e revira,
Estirando seu pescoço como ela o próprio estira!
Era a hora da meia-noite, quando vim a despertar,
O relógio estava na torre a ecoar;
Mas apesar que meu sono embora tivesse ido,
Este sonho ele não passaria --
Em meu olho ele parecia ainda tão vívido!
E desde então eu jurei neste mesmo dia
Com música forte e canção santificada
Através da floresta nua perambular,
Atrás de algo profano que vaga lá.'

Assim Bracy disse: o Barão, entrementes,
Meio ouvindo o escutou sorridente;
Então para Lady Geraldine dirigiu-se,
Os olhos dele amorosos e se maravilhando;
E em tons finos e corteses disse,
'Doce donzela, bela pomba de Lorde Roland,
Com braços mais fortes que harpa ou canção,
Teu senhor e eu iremos a cobra esmagar!'
Ele beijou a fronte dela enquanto estava a falar,
E Geraldine à guisa de donzela
Lançando abaixo os grandes olhos brilhantes dela,
Com face ruborizante e cortesia fina
Ela virou-se para longe de Sir Leoline;
Suavemente o seu treino reuniu,
Que sobre seu braço direito de novo caiu;
E cruzou seus braços pelo seu peito ao meio,
E aninhou sua cabeça sobre seu seio,
E para Christabel relanceou uma olhada
Jesu, Maria, deixem-na bem guardada!

Um pequeno olho de cobra pisca tênue e timidamente;
E os olhos da dama em sua cabeça menores ficaram,
Cada um encolheu até um olho de serpente,
E com algo de malícia, e mais de pavor que ganharam,
Para Christabel ela olhou de relance! --
Um momento -- e as visões escaparam!
Mas Christabel em atônito transe
No chão instável titubeante
Estremeceu alto, com um som sibilante;
E Geraldine virou-se novamente,
E como uma coisa, que buscava se aliviar,
Cheia de maravilha e cheia de pesar,
Ela rolou seus grandes olhos brilhantes e divinos
Selvagemente sobre Sir Leoline.

A donzela, ai! seus pensamentos perdidos estão,
Ela nada vê -- nada além de uma visão!
A donzela, desprovida de malícia e pecado,
Eu não sei como, de maneira reticente,
Tão profundamente havia ela se intoxicado
Naquele olhar, naqueles encolhidos olhos de serpente,
Que todas as feições dela estavam resignadas
A esta imagem na mente dela isolada:
E passivamente se pôs a imitar
O ódio tênue e traiçoeiro daquele olhar!
E em transe atônito, assim ela ficou,
Ainda imaginando aquele olhar que relanceou
Com forçada e inconsciente simpatia
Diante da vista do pai dela plenamente --
Tanto quanto tal olhar poderia
Ser em olhos tão azuis e inocentes!

E a donzela, quando o transe terminou
Pausou por um momento, e interiormente rezou:
Então caindo aos pés do Barão,
'Pela alma da minha mãe, faço rogação
Que tu mandes embora esta mulher!'
Ela disse: e mais ela não podia dizer:
Pois ela não podia contar o que sabia,
Sobrepujada pela poderosa magia.

Porque está tua face tão lívida e sem temperança,
Sir Leoline? Tua única criança
Jaz a teus pés, o júbilo teu, o orgulho teu,
Tão bela, tão inocente, tão mansa;
A mesma, por quem tua senhora morreu!
Ó pelas angústias de sua mãe querida
Pense tu nenhum mal de tua criança!
Por ela, e ti, e por nenhuma outra vida,
Ela rezou no momento antes que morreu:
Rezou que o bebê por quem ela morreu,
Provaria-se o júbilo e orgulho do caro lorde seu!
Ela desviou suas angústias mortais ao rezar,
Sir Leoline! E a ela
Tua única criança, mal iria tu causar,
Criança tua e dela?

Dentro do coração e cérebro do Barão
Se pensamentos, como estes, estavam a os habitar,
Eles apenas inchavam sua raiva e consternação,
E apenas operavam confusão lá.
Seu coração pela dor e raiva estava rachado,
Suas faces palpitavam, seus olhos em maníaco estado,
Assim em sua velha idade desonrado;
Por sua única criança desonrado,
E todo o seu hospitaleiro acolhimento
Para a filha de seu amigo maltratada
Por mais do que uma mulher em impulso ciumento
Trazida assim a uma conclusão desgraçada --
Ele rolou seu olho com zelo rigoroso
Sobre o bardo menestrel garboso,
E disse em tonalidades abruptas, austeras --
'Ora, Bracy! ainda tu aqui esperas?
Eu lhe peço que vá!' O bardo acatou;
E de sua própria doce donzela se afastou,
O cavaleiro idoso, Sir Leoline,
Conduzindo adiante a dama Geraldine!

1800.


A CONCLUSÃO DA PARTE II

Um elfo ágil, uma pequena criança,
Que para si mesma canta e dança,
Uma coisa feérica com faces redondas e rubras,
Que sempre acha, e nunca procura,
Para a vista faz tamanha visão
Que enche os olhos do pai com iluminação;
E prazeres fluem para dentro tão espessos e ligeiros
Sobre seu coração, que ele por derradeiro
Precisa expressar o excesso de seu amor
Com palavras de não pretendido amargor.
Talvez é bonito forçar juntamente
Um pensamento de outro tão diferente
Murmurar e zombar de um encanto quebrado,
Se não causa mal, divertir-se com o errado.
Talvez é bonito e também tem suavidade
A cada palavra louca dentro sentir provocado
Um doce recuo de amor e piedade.
E daí, se em um mundo de pecado
(Ó mágoa e vergonha fosse isso verdadeiro!)
Tal frivolidade de cérebro e coração
Vem raramente exceto pela raiva e consternação,
Então fala como já lhe é costumeiro.

1801.

8 de novembro de 2016

WidBook e Orelha de Livro


Publiquei meu primeiro livro, Histórias Estranhas, no site de leitura WidBook.

Lembrando que ele já está no Wattpad !

E logo aparecerá no Womou.

Fiquei contente com o resultado no Wattpad e provavelmente incluirei meus outros livros nessas plataformas.



Incluí também meus livros na página Orelha de Livro.

24 de outubro de 2016

ALASTOR de Percy Shelley

"Alastor" - Jessie M. King

ALASTOR: OU, O ESPÍRITO DA SOLIDÃO
de Percy Bysshe Shelley (1792-1822)
Traduzido por Eduardo Capistrano

Terra, Oceano, Ar, amada irmandade!
Se nossa grande Mãe imbuiu minha alma
Com algo de piedade natural para sentir
Seu amor, e para recompensar a dádiva com o meu;
Se a manhã orvalhosa, e o meio-dia odoroso, e o entardecer,
Com o pôr-do-sol e seus deslumbrantes ministros,
E a quietude formigante da solene meia-noite;
Se os suspiros ocos do outono na madeira seca,
E o inverno vestindo com neve pura e coroas
De gelo estrelado a grama cinza e os ramos nus;
Se os ofegos voluptuosos da primavera quando ela expira
Seus primeiros beijos doces, foram caros para mim;
Se nenhum pássaro brilhante, inseto ou besta gentil
Eu conscientemente tenha ferido, mas ainda amado
E querido estes meus parentes; então perdoe
Esta gabação, amados irmãos, e retirem
Nenhuma porção de seu habitual favor agora!

Mãe deste mundo insondável!
Favoreça minha canção solene, pois eu tenho amado
A ti sempre, e a ti apenas; Eu tenho observado
Tua sombra, e a escuridão de teus passos,
E meu coração sempre fita a profundeza
Dos teus mistérios profundos. Eu fiz meu leito
Em carneiras e em caixões, onde a morte negra
Mantém registro dos troféus ganhos de ti,
Esperando deter estes questionamentos obstinados
De ti e dos teus, em forçando algum fantasma solitário,
Teu mensageiro, a produzir o conto
Do que nós somos. Nas horas sozinhas e silenciosas,
Quando a noite faz um som estranho de sua própria quietude,
Como um alquimista inspirado e desesperado
Apostando sua própria vida em alguma esperança escura,
Eu misturei conversa sofrível e olhares inquisidores
Com meu mais inocente amor, até que lágrimas estranhas,
Unindo-se com aqueles beijos sem fôlego, fizeram
Mágica tal qual compele a noite encantada
A desistir de tua carga:... e, apesar de nunca ainda
Tu ter desvelado teu santuário mais íntimo,
O bastante de sonho incomunicável,
E de fantasmagorias do crepúsculo, e de profundos pensamentos de meio-dia,
Tem brilhado dentro de mim, para serenamente agora
E imóvel, como uma lira há muito tempo esquecida
Suspensa no domo solitário
De algum templo misterioso e deserto,
Eu aguardar teu fôlego, Grande Pai, que meu esforço
Possa modular-se com murmúrios do ar,
E movimentos das florestas e do mar,
E a voz dos seres vivos, e tramados hinos
De noite e dia, e o coração profundo do homem.

Houve um Poeta cuja tumba prematura
Nenhuma mão humana com reverência pia erigiu,
Mas os torvelinhos encantados dos ventos outonais
Construíram sobre seus ossos mofando uma pirâmide
De folhas mofando na aridez selvagem: —
Um jovem amável, — nenhuma donzela lamentosa adornou
Com flores chorosas, ou guirlanda votiva de cipreste,
O solitário leito de seu sono perpétuo: —
Gentil, e bravo, e generoso, — nenhum bardo desolado
Exalava sobre seu destino negro um suspiro melodioso:
Ele viveu, ele morreu, ele cantou em solidão.
Estranhos choraram para ouvir suas notas apaixonadas,
E virgens, como desconhecidas passadas por ele, haviam depositado
E se desgastado pelo amor terno de seus olhos selvagens.
O fogo daquelas orbes suaves havia cessado de queimar,
E o Silêncio, enamorado demais daquela voz,
Tranca a música muda dela em sua cela austera.

Por visão solene, e brilhante sonho prateado
Sua infância foi nutrida. Cada vista
E som da terra vasta e ar ambiente,
Enviaram a seu coração seus impulsos mais seletos.
As fontes da filosofia divina
Não fugiam de seus lábios sedentos, e tudo de grande,
Ou bom, ou amável, que o passado sagrado
Em verdade ou fábula consagra, ele sentiu
E conheceu. Quando a primeira juventude havia passado, ele deixou
Sua fria lareira e lar alienado
Para buscar verdades estranhas e terras não descobertas.
Mais de uma vastidão ampla e selva emaranhada
Havia atraído seus passos destemidos; e ele havia comprado
Com seus doces voz e olhos, de homens selvagens,
Seu descanso e comida. Os passos mais secretos da Natureza
Ele como sombra dela perseguiu, onde quer que
O vulcão vermelho se fecha sobre
Seus campos de neve e pináculos de gelo
Com fumaça flamejante, ou onde lagos de betume
Em vazias ilhotas negras e pontudas continuamente batem
Com vagaroso ímpeto, ou onde as cavernas secretas,
Acidentadas e escuras, serpenteando entre as nascentes
De fogo e veneno, inacessíveis
À avareza e orgulho, seus domos estrelados
De diamante e de ouro expandem sobre
Câmaras inúmeras e imensuráveis,
Frequentes com coluna de cristal, e capelas claras
De pérola, e tronos radiantes de crisólita.
Nem havia aquela cena de majestade mais ampla
Que gemas ou ouro, o variante teto dos céus
E a terra verde perdido em seu coração suas pretensões
Ao amor e fascínio; ele deteria-se longamente
Em vales solitários, fazendo da mata seu lar,
Até que as pombas e esquilos fossem partilhar
De sua mão inócua sua comida sem sangue,
Atraídos pela gentil maneira de sua aparência,
E o antílope selvagem, que pula sempre que
A folha seca estala na freada, suspende
Seus passos tímidos, para admirar uma forma
Mais graciosa que sua própria.

                                          Sua passada vagante,
Obediente a altos pensamentos, havia visitado
As ruínas medonhas dos dias de outrora:
Atenas, e Tiro, e Balbec, e o deserto
Onde esteve Jerusalém, as torres caídas
De Babilônia, as pirâmides eternas,
Mênfis e Tebes, e qualquer coisa de estranho,
Esculturado em obelisco de alabastro,
Ou tumba de jaspe, ou esfinge mutilada,
Que a escura Etiópia em suas colinas desertas
Esconde. Dentre os templos arruinados lá,
Colunas estupendas, e imagens selvagens
De mais do que o homem, onde demônios de mármore observam
O mistério brônzeo do Zodíaco, e homens mortos
Pendem seus pensamentos mudos nas paredes mudas ao redor,
Ele detinha-se, debruçando sobre memoriais
Da juventude do mundo: através do longo dia ardente
Contemplava aquelas formas sem fala; nem, quando a lua
Enchia as câmaras misteriosas com sombras flutuantes
Suspendia ele aquela tarefa, mas continuava a contemplar
E contemplar, até que o sentido em sua mente vacante
Lampejava como inspiração forte, e ele via
Os segredos eletrizantes do nascimento do tempo.

Enquanto isso uma donzela Árabe trazia sua comida,
Sua porção diária, da tenda do pai dela,
E estendia esteira dela para seu leito, e furtava-se
De deveres e repouso para atender aos passos dele,
Enamorada, mas não ousando por temor profundo
Falar seu amor: — e observava seu sono noturno,
Ela mesma insone, para admirar os lábios dele
Abertos na dormência, quando a respiração regular
De sonhos inocentes surgiu; então, quando a manhã vermelha
Tornou mais pálida a pálida lua, a seu lar frio
Cambaleava, e lívida, e ofegante, ela retornava.

O Poeta, vagueando adiante, através da Arábia,
E Pérsia, e o árido deserto Carmaniano,
E por cima das montanhas aéreas que derramam
Indo e Oxo de suas cavernas geladas,
Em júbilo e exultação deteve seu curso;
Até que no vale da Caxemira, bem para dentro
De sua mais solitária fenda, onde plantas odorosas enovelam
Sob as rochas ocas um caramanchão natural,
Ao lado de um regato cintilante ele esticou
Seus membros lânguidos. Uma visão em seu sono
Lá veio, um sonho de esperanças que nunca ainda
Haviam corado sua face. Ele sonhou que uma dama velada
Sentou perto dele, falando em solenes tons baixos.
A voz dela era como a voz de sua própria alma
Ouvida na quietude do pensamento; sua música longa,
Como trançados rumores de riachos e brisas, seguraram
Seu senso mais íntimo suspenso em sua teia
De textura multicores e matizes mutáveis.
Conhecimento e verdade e virtude eram o tema dela,
E esperanças altivas de liberdade divina,
Pensamentos dos mais queridos para ele, e poesia,
Ela mesma uma poeta. Logo o temperamento solene
De sua mente pura acendeu através do corpo dela
Um fogo permeante; um número selvagem então
Ela iniciou, com a voz sufocada em soluços trêmulos
Subjugados pelo próprio pathosdela; suas mãos delicadas
Estavam por si mesmas, varrendo de alguma harpa estranha
Estranha sinfonia, e nas veias bifurcantes delas
O sangue eloquente contava um conto inefável.
O bater do coração dela era ouvido para preencher
As pausas de sua música, e sua respiração
Tumultuosamente harmonizava com aqueles ataques
De canção intermitente. Súbito ela levantou,
Como se seu coração impacientemente aceitasse
Seu fardo rompente: ao som ele virou-se,
E viu pela luz quente da própria vida deles
Seus braços radiantes debaixo do véu sinuoso
De vento tecido, os braços dela esticados agora expostos,
Suas mechas escuras flutuando na respiração da noite,
Seus radiosos olhos curvos, seus lábios entreabertos
Esticados, e pálidos, e palpitando ansiosamente.
O coração forte dele afundou e adoeceu com excesso
De amor. Ele ergueu seus membros estremecidos e conteve
Sua resfolegante respiração, e abriu seus braços para encontrar
O peito ofegante dela: ... ela recuou por um momento,
Então, cedendo ao júbilo irresistível,
Com gesto frenético e um grito curto e sem fôlego
Embalou o corpo dele nos seus braços evanescentes.
Agora o negrume velava os olhos tontos dele, e a noite
Envolvia e engolia a visão; o sono,
Como uma escura inundação suspensa em seu curso,
Revertia seu impulso no cérebro vacante dele.

Desperto pelo choque ele pulou de seu transe —
A luz fria e gelada da manhã, a lua azul
Baixa no oeste, as colinas claras e vistosas,
O vale distinto e as matas vacantes,
Espalhavam-se ao redor de onde ele estava. Para onde haviam fugido
As matizes de paraíso que cobriam seu caramanchão
Da noite anterior? Os sons que acalentaram seu sono,
O mistério e a majestade da Terra,
O júbilo, a exultação? Seus olhos lívidos
Fitam a cena vazia tão vagamente
Como a lua do oceano se parece com a lua no céu.
O espírito do doce amor humano havia enviado
Uma visão para o sono daquele que rejeitara
Seus mais seletos presentes. Ele ansiosamente persegue
Além dos reinos do sonho aquele espectro fugaz;
Ele salta sobre as barreiras. Ai! Ai!
Foram os membros, e a respiração, e o ser enovelados
Tão traiçoeiramente? Perdida, perdida, para sempre perdida
No amplo deserto sem caminhos do sono turvo,
Aquela bela forma! O portão negro da morte
Conduz a teu misterioso paraíso,
Ó Sono? O arco brilhante de nuvens iridescentes
E montanhas pendentes vistas no lago calmo,
Levam apenas a uma profundeza aquosa e negra,
Enquanto a abóbada azul da morte, com execráveis vapores suspensos,
Onde cada sombra que a sepultura imunda exala
Oculta seu olho morto do dia detestado,
Conduz, Ó Sono, aos teus reinos deleitosos?
Esta dúvida com maré súbita fluiu para o coração dele;
A esperança não saciada que ela despertou, picou
Seu cérebro mesmo como o desespero.

                                                      Enquanto a luz do dia segurava
O céu, o Poeta manteve conferência muda
Com sua alma imóvel. À noite a paixão veio,
Como o diabo feroz de um sonho destemperado,
E o abalou de seu descanso, e o levou adiante
Para dentro da escuridão. — Como uma águia, colhida
Nas voltas da serpente verde, sente seu peito
Queimar com o veneno, e precipita-se
Através de noite e dia, tempestade, e calmaria, e nuvem,
Frenética com angústia estonteante, seu voo cego
Sobre os vastos ares inóspitos: assim movido
Pela sombra brilhante daquele sonho amável,
Sob o clarão frio da noite desolada,
Através de pântanos emaranhados e profundas fendas íngremes,
Sobressaltando com o passo descuidado a cobra à luz da lua,
Ele fugiu. A manhã vermelha alvorou sobre sua fuga,
Vertendo a zombaria de seus matizes vitais
Sobre a sua face de morte. Ele continuou a vagar
Até que a vasta Aornos vista da encosta de Petra
Pairasse sobre o horizonte baixo como uma nuvem;
Através de Bactro, e onde as tumbas desoladas
De reis Partas dispersavam para todo vento
Sua poeira dissipante, loucamente ele continuou a vagar,
Dia após dia um árduo desperdício de horas,
Portando dentro de sua vida a triste preocupação
Que sempre nutria-se de sua chama decadente.
E agora seus membros estavam magros; seu cabelo desgrenhado,
Seco pelo outono de estranho sofrimento
Cantava lamentos no vento; sua mão lânguida
Pendia como osso morto dentro de sua pele murcha;
Vida, e o lustro que a consumiu, ardeu
Como em uma fornalha queimando em segredo
Para seus olhos negros apenas. Os aldeões,
Que assistiam com caridade humana
Suas necessidades humanas, observaram com maravilhado fascínio
Seu visitante fugitivo. O montanhista,
Encontrando em algum precipício desorientante
Aquela forma espectral, concluiu que o Espírito do vento
Com olhos de relâmpago, e fôlego ansioso, e pés
Não perturbando a neve acumulada, havia pausado
Em sua carreira: a criança iria esconder
Seu semblante transtornado no robe da mãe
Em terror pela intensidade daqueles olhos maníacos,
Para lembrar da luz estranha deles em mais de um sonho
Tempos depois; mas donzelas joviais, ensinadas
Pela natureza, compreenderiam metade da desventura
Que o consumiu, chamariam-no de nomes falsos
Irmão e amigo, apertariam sua mão pálida
Na despedida, e assistiriam, turvo através das lágrimas, o caminho
Da partida dele da porta de seu pai.

Longamente sobre a solitária margem Corasmiana
Ele pausou, um deserto vasto e melancólico
De pântanos pútridos. Um impulso forte incitou
Seus passos à beira-mar. Um cisne estava lá,
Ao lado de um vagaroso córrego entre as taboas.
Ele levantou-se quando se aproximou, e, com asas fortes
Escalando o céu ascendente, dobrou seu curso brilhante
Alto sobre o oceano imensurável.
Os olhos dele perseguiram seu voo: — 'Tu tens um lar,
Belo pássaro; tu viajas para teu lar,
Onde tua doce companheira vai enrolar o pescoço emplumado dela
Com o teu, e bem-acolher teu retorno com olhos
Brilhantes no lustro de seu próprio júbilo carinhoso.
E o que sou eu para precisar ficar aqui,
Com voz muito mais doce que tuas notas moribundas,
Espírito mais vasto que o teu, figura mais alinhada
À beleza, desperdiçando estes poderes insuperáveis
No ar surdo, para a terra cega, e o céu
Que não ecoa meus pensamentos?' Um sorriso soturno
De esperança desesperada enrugou seus lábios trêmulos.
Pois o sono, ele sabia, mantinha muito incansavelmente
Sua carga preciosa, e a morte silenciosa expunha,
Infiel talvez como o sono, um chamariz sombrio,
Com sorriso duvidoso zombando de seus próprios encantos estranhos.

Sobressaltado pelos seus próprios pensamentos ele olhou ao redor.
Não havia demônio belo próximo dele, nem uma visão
Ou som de fascínio que não em sua própria mente profunda.
Uma pequena chalupa flutuando perto da costa
Capturou a peregrinação impaciente de seu olhar.
Ela havia sido há muito abandonada, pois seus lados
Abriam-se muito com mais de uma rachadura, e suas juntas frágeis
Balançavam com as ondulações da maré.
Um impulso incansável o impeliu a embarcar
E encontrar a Morte solitária no lúgubre páramo do oceano;
Pois bem ele sabia que a poderosa Sombra ama
As cavernas gosmentas das profundezas populosas.

O dia era belo e ensolarado; mar e céu
Bebiam sua radiância inspiradora, e o vento
Varria fortemente da costa, escurecendo as ondas.
Seguindo sua alma ansiosa, o peregrino
Saltou no barco, ele espalhou seu manto içado
No mastro nu, e tomou seu assento solitário,
E sentiu o barco acelerar sobre o mar tranquilo
Como uma nuvem rasgada antes do furacão.

Como alguém que em uma visão prateada flutua
Obediente ao varrer de ventos odorosos
Sobre nuvens resplandescentes, assim rapidamente
Ao longo das águas escuras e agitadas escapou
O barco esforçado. — Um redemoinho o arrebatou,
Com lufadas ferozes e força precipitante,
Através das cristas brancas do mar irritado.
As ondas subiram. Mais alto e mais alto ainda
Seus pescoços ferozes contorciam sob o flagelo da tempestade
Como serpentes lutando na garra de um abutre.
Calmo e regozijando na guerra temível
De onda ruindo sobre onda, e golpe sobre golpe
Descendo, e inundação negra em turbilhão movido
Em escuro curso obliterante, ele sentou:
Como se seus gênios fossem os ministros
Apontados para conduzi-lo para a luz
Daqueles olhos adorados, o Poeta sentou,
Segurando o timão firme. A noite veio,
Os raios do entardecer pairavam seus matizes iridescentes
Altos em meio aos domos mutáveis de camadas de vapor
Que cobriam seu caminho sobre a profundeza vasta;
Crepúsculo, ascendendo vagarosamente do leste,
Emaranhou em guirlandas mais vespertinas suas mechas trançadas
Sobre a fronte clara e os olhos radiantes do dia;
Noite se seguiu, vestida de estrelas. Por todo lado
Mais horrivelmente a multidão de correntes
Da vastidão montanhosa do oceano à guerra mútua
Acorreram em escuro tumulto trovejante, como que para zombar
O céu calmo e constelado. O pequeno barco
Ainda fugia diante da tormenta; ainda fugia, como a espuma
Caindo da catarata íngreme de um vento invernal;
Agora pausando na beira de uma onda fendida;
Agora deixando muito para trás a massa explosiva
Que caiu, convulsionando o oceano: seguramente fugiu —
Como se aquela forma humana frágil e gasta,
Tivesse sido um deus elemental.

                                            À meia-noite
A lua subiu; e lá! as colinas etéreas
Do Cáucaso, cujos picos gelados cintilavam
Entre as estrelas como a luz do sol, e ao redor
De cuja base cavernosa os turbilhões e as ondas
Explosivas e revoltosas irresistivelmente
Enfureciam-se e ressoavam para sempre. — Quem deve salvar? —
O barco continuou fugindo, — a torrente fervente pressionava, —
As escarpas fecharam ao redor com braços negros e afiados,
A montanha estilhaçada sobrepairou o mar,
E mais rápido ainda, além de toda a velocidade humana,
Suspenso no varrer da onda suave,
O pequeno barco foi conduzido. A caverna lá
Bocejava, e em meio a suas profundezas inclinadas e sinuosas
Engolfava o mar apressado. O barco continuou a fugir
Com velocidade sem relaxar. — 'Visão e Amor!'
O Poeta gritou alto, 'Eu tenho observado
O caminho de tua partida. Sono e morte
Deverão não nos dividir longamente.'

                                                   O barco perseguiu
As curvas da caverna. A luz do dia brilhou
Com demora sobre o fluxo soturno do rio;
Agora, onde a guerra mais feroz entre as ondas
Está calma, na corrente insondável
O barco moveu-se lentamente. Onde a montanha, partida,
Expunha aquelas profundezas negras para o céu azul,
Antes ainda que o volume enorme da inundação caísse
Mesmo para a base do Cáucaso, com som
Que abalou as rochas perpétuas, a massa
Preencheu com um turbilhão todo aquele abismo amplo:
Escada sobre escada as águas revoltosas subiram,
Circulando imensuravelmente rápido, e lavaram
Com espalhar alternante as raízes contorcidas
De árvores poderosas, que esticavam seus braços gigantes
Na escuridão sobre ela. No meio foi deixada,
Refletindo, ainda que distorcendo cada nuvem,
Uma poça de calmaria traiçoeira e tremenda.
Colhido pelo balanço da corrente ascendente,
Com ligeireza estonteante, ao redor, e ao redor, e ao redor,
Crista após crista o esforçado barco subiu,
Até estar na borda da curva mais extrema,
Onde, através de uma abertura do banco rochoso,
As águas transbordam, e um ponto liso
De silêncio vítreo em meio àquelas ondas em batalha
Resta, o barco pausou estremecendo. — Deve ele afundar
Abismo abaixo? Deve a ressaca intensa
Daquele golfo irresistível colhê-lo em seu colo?
Agora deve ele cair? — Uma corrente vagante de vento,
Soprada do oeste, havia capturado a vela expandida,
E, lá! com movimento gentil, entre os bancos
De encostas musgosas, e em uma corrente plácida,
Para baixo de um bosque enredado ele navega, e, ouça!
A torrente lúrida mistura seu rugido distante,
Com a brisa murmurando nas matas musicais.
Onde as fechadas árvores recuam, e deixam
Um pequeno espaço de faixa verde, a enseada
É fechada por bancos se encontrando, cujas flores amarelas
Para sempre olham em seus próprios olhos caídos,
Refletidos na calma cristalina. A onda
Do movimento do barco frustrou sua tarefa pensiva,
Que nada além do pássaro vagante, ou vento ousado,
Ou caniços cadentes, ou sua própria decadência
Havia alguma vez perturbado antes. O Poeta ansiava
Adornar com suas matizes brilhantes seu cabelo murcho,
Mas em seu coração sua solidão retornou,
E ele se conteve. Não havia o forte impulso oculto
Naquelas bochechas ruborizadas, olhos curvos, e silhueta sombria
Ainda realizado seu ministério: ele pairava
Sobre sua vida, como o relâmpago em uma nuvem
Radia, flutuando antes de esvanecer, antes que as inundações
Da noite se fechem sobre ela.

                                         O sol do meio-dia
Agora brilhava sobre a floresta, uma massa vasta
De sombra misturando-se, cuja magnificência marrom
Um vale estreito acolhe em seu seio. Lá, cavernas enormes,
Escavadas na base escura de suas rochas aéreas,
Zombando seus gemidos, respondiam e rugiam para sempre.
Os ramos encontrando-se e as folhas envolvidas
Tramavam crepúsculo sobre o caminho do Poeta, enquanto levado
Por amor, ou sonho, ou deus, ou a mais poderosa Morte,
Ele buscava no antro mais querido da Natureza algum banco,
O berço dela, e o sepulcro dele. Mais escuras
E escuras as sombras se acumulavam. O carvalho,
Expandindo seus braços imensos e nodosos,
Abraça a praia clara. As pirâmides
Dos altos cedros sobrepondo-se em arcos enquadram
Domos dos mais solenes dentro delas, e muito abaixo,
Como nuvens suspensas em um céu esmeralda,
O freixo e a acácia flutuando pendem
Trêmulos e pálidos. Como serpentes incansáveis, vestidas
Em arco-íris e em fogo, os parasitas,
Estrelados com dez mil botões de flor, fluem ao redor
Dos troncos cinzentos, e, como os olhos de crianças brincalhonas,
Com modos gentis, e os mais inocentes truques,
Cingem seus raios ao redor dos corações daqueles que amam,
Estes emaranham suas gavinhas com os galhos casados
Unindo sua íntima união; as folhas tramadas
Fazem uma rede da luz azul escura do dia,
E a claridade do meio-dia noturno, mutável
Como formas nas nuvens estranhas. Relvas musgosas suaves
Sob estas copas estendiam suas áreas,
Fragrantes com ervas perfumadas, e como olhos, floradas
Diminutas mas belas. Um vale dos mais escuros
Envia de suas matas de rosa-mosqueta, enovelada com jasmim,
Um odor dissolvedor da alma para convidar
Para algum mistério mais amável. Através da fenda,
Silêncio e Crepúsculo aqui, irmãs gêmeas, mantém
Sua vígilia do meio-dia, e navegam entre as sombras,
Como formas vaporosas à meia vista; além, um poço,
Escuro, cintilante, e da mais translúcida onda,
Refletia todos os galhos tramados acima,
E cada folha pendente, e cada mancha
De céu azul, dardejando entre os vãos deles;
Nada mais no espelho líquido lava
Seu retrato, além de alguma estrela inconstante
Em meio a uma grade folhada piscando clara,
Ou pássaro pintado, dormindo debaixo da lua,
Ou inseto maravilhoso flutuando sem se mover,
Inconsciente para o dia, antes ainda que suas asas
Tivessem espalhado suas glórias ao olhar do meio-dia.

Mais perto o Poeta veio. Seus olhos fitaram
Sua própria luz fraca através das linhas refletidas
De seu cabelo fino, distinta na profundeza escura
Daquela fonte plácida; como o coração humano,
Olhando em sonhos para a sepultura lúgubre,
Vê sua própria aparência traiçoeira lá. Ele escutou
O movimento das folhas, a grama que saltava
Assustada e relanceava e tremia até por sentir
Uma presença não costumeira, e o som
Daquele córrego doce que das nascentes secretas
Daquela fonte negra emergia. Um Espírito pareceu
Estar de pé a seu lado — vestido não em robes brilhantes
De prata sombria ou luz entesourante,
Emprestados do que quer que o mundo visível fornece
De graça, ou majestade, ou mistério; —
Mas, matas ondulantes, e poço silencioso,
E riacho saltador, e lugubridade da noite
Agora aprofundando as sombras escuras, para assumir voz,
Entrou em comunhão com ele, como se ambos
Fossem tudo o que existisse, — apenas... quando sua atenção
Foi levantada pela pensatividade intensa, ... dois olhos,
Dois olhos estrelados, penderam na treva do pensamento,
E pareceram com seus sorrisos serenos e azuis
Chamá-lo.

               Obediente à luz
Que brilhava dentro de sua alma, ele foi, perseguindo
As curvas do vale. — O riacho,
Ousado e selvagem, através de mais de uma ravina verde
Debaixo da floresta fluía. Às vezes ele caía
Entre o musgo com harmonia vazia
Escura e profunda. Agora nas pedras polidas
Ele dançava; como risadas de criança enquanto seguia:
Então, através da planície em tranquilos vagueios rastejou,
Refletindo cada erva e botão pendente
Que sobrepairava sua quietude. — 'Ó corrente!
Cuja fonte é inacessivelmente profunda,
Aonde tuas águas misteriosas tendem?
Tu espelha minha vida. Tua quietude escurecida,
Tuas ondas deslumbrantes, teus golfos altos e ocos,
Tua fonte inescrutável, e curso invisível
Têm cada uma seu modelo em mim; e o céu amplo.
E o oceano desmedido pode declarar tão logo
Que caverna lodosa ou que nuvem peregrina
Contém tuas águas, enquanto o universo
Conta onde estes pensamentos vivos residem, quando esticados
Sobre tuas flores meus membros exangues irão se perder
No vento que passa!'

                             Ao lado das margens gramadas
Do riacho pequeno ele seguiu; ele imprimiu
No musgo verde seu passo trêmulo, que capturou
Forte estremecimento de seus membros ardentes. Como alguém
Excitado por alguma loucura jubilante do leito
Da febre, ele se moveu, ainda, não como ele,
Esquecido sobre a sepultura, aonde, quando a chama
De sua exultação frágil for gasta,
Ele deve descer. Com passos rápidos ele seguiu
Para baixo da sombra das árvores, ao lado do fluxo
Do selvagem riacho tagarelante; e agora
As copas solenes da floresta estavam mudadas
Para o céu uniforme e iluminado da tarde.
Rochas cizentas espiavam do musgo esparso, e resistiam
Ao córrego lutador; agulhas altas de capim
Jogaram suas sombras finas para baixo da encosta grosseira,
E nada além de raízes retorcidas de pinhos anciões
Sem galhos e estourados, apertavam com raízes agarrantes
O solo relutante. Uma mudança gradual ocorria aqui,
Mas lúrida. Pois, enquanto os anos rápidos correm embora,
O cenho liso se enruga, e o cabelo fica fino
E branco, e onde olhos orvalhosos radiantes
Haviam brilhado, cintilam orbes pétreas: — então de seus passos
Flores brilhantes se afastavam, e a bela sombra
Dos bosques verdes, com todos os seus ventos odorosos
E movimentos musicais. Calmo, ele ainda perseguia
O riacho, que com um volume maior agora
Rolava através do vale labiríntico; e lá
Esfregou um caminho através de suas curvas descendentes
Com sua velocidade invernal. Em todo lado agora erguiam-se
Rochas, que, em formas inimagináveis,
Levantavam seus pináculos negros e estéreis
Na luz da noite, e seu precipício
Obscurecendo a ravina, desvelada acima,
No meio de pedras tombando, golfos negros e cavernas bocejantes,
Cujas curvas deram dez mil línguas variadas
Para a corrente ruidosa. Lá! onde o passo expande
Suas mandíbulas pétreas, a montanha abrupta quebra,
E parece, com suas escarpas acumuladas,
Sobrepairar o mundo: para longe expande
Sob estrelas fracas e lua descendente
Mares ilhados, montanhas azuis, rios poderosos,
Trechos turvos e vastos, vestidos no escuro lustroso
Da noite de cor plúmbea, e colinas fogosas
Misturando suas chamas com o crepúsculo, na beira
Do horizonte remoto. A cena próxima,
Em simplicidade nua e severa,
Fez contraste com o universo. Um pinho,
Enraizado como rocha, esticava através da vacância
Seus galhos balançantes, a cada golpe inconstante
Cedendo uma só resposta, a cada pausa
Em cadência da mais familiar, com o uivo
O trovão e o chiado de riachos sem lar
Misturando sua canção solene, enquanto o rio largo
Espumando e apressando sobre seu caminho árduo,
Caía naquele vazio imensurável
Espalhando suas águas pelos ventos passantes.

Entretanto o precipício cinzento e o pinho solene
E a torrente não eram tudo; — um recanto silencioso
Estava lá. Mesmo à beira daquela montanha vasta,
Mantida de pé por raízes nodosas e rochas caídas,
Ele supervisionava em sua serenidade
A terra escura, e a abóbada curva de estrelas.
Era um ponto tranquilo, que parecia sorrir
Mesmo no colo do horror. Hera segurava
As pedras fissuradas com seus braços emaranhantes,
E abrigavam com folhas para sempre verdes,
E escuras bagas, o espaço liso e plano
De seu chão inviolado, e aqui
Os filhos do redemoinho outonal carregavam,
Em esporte ousado, aquelas folhas brilhantes, cuja decadência,
Vermelha, amarela ou eterealmente pálida,
Rivaliza com o orgulho do verão. É o antro
De todo vento gentil, cujo fôlego pode ensinar
As selvas a amar a tranquilidade. Um passo,
Um só passo humano, havia alguma vez quebrado
A quietude de sua solidão: — uma voz
Sozinha inspirou seus ecos; — mesmo esta voz
Que para cá veio, flutuando entre os ventos,
E levou as mais amáveis dentre as formas humanas
A fazer de seus antros selvagens o repositório
De toda a graça e beleza que dotavam
Seus movimentos, desistir de sua majestade,
Espalhar sua música na tormenta insensível,
E para as folhas úmidas e mofo azul da caverna,
Amas de flores iridescentes e do musgo espalhado,
Cometer as cores daquela face variante,
Aquele seio níveo, aqueles olhos escuros e entrefechados.

A lua cornuda e tênue pairou baixa, e derramou
Um mar de lustro na beira do horizonte
Que transbordava suas montanhas. Névoa amarela
Preencheu a atmosfera ilimitada, e bebeu
Luz fraca da lua até a saciedade; nem uma estrela
Brilhava, nem um som era ouvido; os próprios ventos,
Companheiros severos do perigo, naquele precipício
Dormiam, seguros em seu abraço. — Ó, tormenta de morte!
Cuja velocidade cega divide a noite taciturna:
E tu, Esqueleto colossal, que, ainda
Guiando sua carreira irresistível
Em tua onipotência devastadora,
És rei deste mundo frágil, desde o campo vermelho
Da carnificina, desde o hospital fétido,
O leito sagrado do patriota, a cama nívea
Da inocência, o cadafalso e o trono,
Uma voz poderosa invoca a ti. Ruína convoca
Seu irmão Morte. Uma presa rara e real
Ele havia preparado, perambulando ao redor do mundo;
Engordado com a qual tu poderá repousar, e homens
Irem às suas covas como flores ou vermes rastejantes,
Nem nunca mais oferecerem em tua capela escura
O tributo despercebido de um coração partido.

Quando no limiar do nicho verde
As pegadas do peregrino caíram, ele sabia que a morte
Estava sobre ele. Mas um pouco, antes que ela fugisse,
Ele desistiu de sua alma superior e sagrada
Para imagens do passado majestoso,
Que pausava dentro de seu ser passivo agora,
Como ventos que carregam música doce, quando eles respiram
Através de alguma escura câmara gradeada. Ele colocou
Sua mão pálida e magra sobre o tronco áspero
Do velho pinho. Sobre uma pedra com heras
Reclinou sua cabeça lânguida, seus membros descansaram,
Difusos e imóveis, na borda lisa
Daquele mais profundo abismo; — e assim ele deitou,
Rendendo-se aos impulsos finais
Dos poderes flutuantes da vida. Esperança e desespero,
Os torturadores, dormiam; nenhuma dor ou medo mortais
Estragavam seu repouso; os influxos da sensação,
E seu próprio ser imperturbado pela dor,
Mas mais débil e mais débil, calmamente nutriam
A corrente do pensamento, até que ele deitava respirando lá
Em paz, e sorrindo sutilmente: — sua última visão
Foi a grande lua, que sobre a linha ocidental
Do mundo amplo seu chifre poderoso suspendeu,
Com cujos raios dúnicos enredados em trevas parecia
Se misturar. Agora sobre as colinas afiadas
Ela descansa; e ainda enquanto a figura dividida
Do vasto meteoro afundava, o sangue do Poeta,
Que ainda batia em simpatia mística
Com a ressaca da natureza, ficou mais débil ainda:
E quando dois pontos de luz minguantes sozinhos
Cintilaram através da escuridão, o arfar alternante
De sua respiração tênue escassamente perturbou
A noite estagnada: — até que o raio mais diminuto
Foi apagado, o pulso ainda deteve-se em seu coração.
Ele pausou — ele palpitou. Mas quando os céus permaneceram
Absolutamente negros, as sombras enevoadas envolveram
Uma imagem, silenciosa, fria, e imóvel,
Como sua própria terra sem voz e ar vacante.
Mesmo como um vapor nutrido com raios dourados
Que distribuía a luz do sol, antes do oeste
O eclipsar, era agora aquela figura maravilhosa —
Nenhuma sensação, nenhum movimento, nenhuma divindade —
Um alaúde frágil, em cujas cordas harmoniosas
O fôlego dos céus vagueava — uma corrente brilhante
Uma vez alimentada com ondas de muitas vozes — um sonho
De juventude, que a noite e o tempo haviam apagado para sempre,
Inerte, escuro, e seco, e não lembrado agora.

Oh, pois a alquimia maravilhosa de Medéia,
Que onde quer que caísse fazia a terra cintilar
Com flores brilhantes, e os galhos invernais exalarem
De botões vernais fragrância fresca! Ó, que Deus,
Profuso de venenos, iria conceder o cálice
Que apenas um homem vivo drenou, que agora,
Vaso da cólera imortal, um escravo que sente
Nenhum privilégio orgulhoso na maldição perniciosa
Que carrega, sobre o mundo vagueia para sempre,
Sozinho como a morte encarnada! Ó, que o sonho
Do mágico sombrio em sua caverna idealizada,
Rastelando as cinzas de um crucíbulo
Por vida e poder, mesmo quando sua mão débil
Treme em sua última decadência, fosse a lei verdadeira
Deste mundo tão amável! Mas tu é fugido,
Como alguma exalação frágil; que a aurora
Veste em seus raios dourados, — ah! tu fugiste!
O bravo, o gentil e o belo,
O filho da graça e do gênio. Coisas sem coração
São feitas e ditas no mundo, e muitos vermes
E bestas e homens continuam vivendo, e a Terra poderosa
Do mar e montanha, cidade e selva,
Em baixas vésperas ou oração jubilosa,
Levanta ainda sua voz solene: — mas tu é fugido —
Tu não pode mais conhecer ou amar as formas
Desta cena fantasmal, que têm para ti
Sido ministros dos mais puros, que são, aliás!
Agora tu não és. Sobre aqueles lábios pálidos
Tão doces mesmo em seu silêncio, naqueles olhos
Que espelham o sono na morte, sobre aquela forma
Ainda segura contra o ultraje do verme, deixe nenhuma lágrima
Ser derramada — nem mesmo em pensamento. Nem, quando aquelas matizes
Se forem, e aqueles mais divinos lineamentos,
Usados pelo vento insensível, devem viver sozinhos
Nas pausas frágeis deste esforço simples,
Não deixe o alto verso, lamentando a memória
Daquilo que não mais é, ou o pesar da pintura
Ou escultura, pronunciar em imagética débil
Seus próprios poderes frios. Arte e eloquência,
E todos os espetáculos do mundo são frágeis e vãos
Para chorar uma perda que torna suas luzes em sombra.
É uma angústia "muito profunda para lágrimas," quando tudo
É arrancado de uma vez, quando algum Espírito sobrepassante,
Cuja luz adornou o mundo ao seu redor, deixa
Àqueles que ficaram para trás, não soluços ou gemidos,
O tumulto apaixonado da esperança perdurante;
Mas desespero pálido e tranquilidade fria,
O panorama vasto da Natureza, a teia de coisas humanas,
Nascimento e a cova, que não são como eram.

30 de novembro de 2015

Annabel Lee


Inspirado por esta linda adaptação de Julian Peters (confira também esta de Greg Hinkle) do poema Annabel Lee, do imortal mestre Edgar Allan Poe , fiz minha própria tradução:

ANNABEL LEE
de Edgar Allan Poe
Traduzido por Eduardo Capistrano

Foi há muitos e muitos anos,
Em um reino à beira-mar, ali,
Viva uma donzela que você conheceria
Pelo nome de Annabel Lee; -
E esta donzela lá vivia sem nada pensar além
De amar-me e ser amada por mim.

Eu era uma criança e ela era uma criança,
Neste reino à beira-mar, aqui:
Mas nós amamos com um amor que era mais que amor -
Eu e minha Annabel Lee -
Com um amor por que os serafins alados no Céu
Cobiçavam dela e de mim.

E essa foi a razão porque, tempos atrás,
Nesse reino à beira-mar, aqui,
Um vento soprado de uma nuvem, gelando
Minha bela Annabel Lee;
De modo que seus nobres parentes vieram
E levaram-na para longe de mim,
Para trancá-la em um sepulcro,
Neste reino à beira-mar, aqui.

Os anjos, nem à metade tão felizes no Céu,
Seguiram invejando a ela e a mim -
Sim! - Foi esta a razão (como todos os homens sabem,
Neste reino à beira-mar, aqui)
Que o vento veio de uma nuvem à noite,
Gelando e matando minha Annabel Lee.

Mas nosso amor era de longe mais forte que o amor
Daqueles mais velhos que nós, aqui -
De muitos mais sábios que nós, aqui -
E nem os anjos no Céu superior,
Nem os demônios no mar submergidos,
Poderiam algum dia minha alma cortar
Da alma da bela Annabel Lee: -

Pois a lua nunca raia, sem que sonhos me traga
Da bela Annabel Lee;
E as estrelas nunca nascem antes, que eu sinta os olhos brilhantes
Da bela Annabel Lee: -
E então, pela maré da noite toda, ao lado repouso
De minha querida - minha querida - minha vida e minha esposa,
Em seu sepulcro à beira-mar, ali -
Em sua tumba à beira do sonoro mar, ali.

10 de agosto de 2015

Lama: "Intruso" e "Mãe da Lua"

A última rodada da Revista Lama foi de minicontos, que coubessem na linha do tempo do Facebook, para acompanhar as ilustrações. Eu e vários -- bravos -- escritores aceitamos a tarefa subestimada de contar estórias com caracteres limitados, com o tema "Sótão".

Colaborei com dois contos: "Intruso", ilustrado por Isabele Linhares ...


... e "Mãe da Lua", ilustrado por Daniel Gonçalves.


Além disso, fiz uma página aqui no blog só de links para colaborações com a Lama. Clique aqui para vê-la, fiz um botão para ela, ali na barra da direita: