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28 de julho de 2010

O conto "Saudações do Futuro"

      Charles Wright havia se tornado um dos habitantes daquela remota instalação científica, sem coisa ou pessoa alguma num raio de quilômetros. Sua especialização era matemática; seu trabalho era supervisionar iterações dos sistemas e nutri-los, esporadicamente, com dados e números. Não era um trabalho excitante. Charles não via a hora de terminar seu tempo ali e voltar para casa.
     Haviam descrito o lugar como um “complexo” destinado à “coleta de dados por satélite”, e a descrição do trabalho havia sido enfeitada com várias outras palavras instigantes. Tudo besteira! De fora, o tal complexo parecia apenas uma mera base ou patamar para uma torre salpicada de antenas e receptores. O interior da construção de concreto, uma verdadeira casamata, era grosseiramente dividido em quatro ambientes, dos quais dois eram destinados aos computadores, receptores e outros sistemas e equipamentos. Dos dois aposentos restantes, um deles combinava as funções de cozinha, despensa e sala de jantar; o outro acumulava as funções de dormitório e local de lazer, para Charles e seus dois parceiros de martírio.
     Um deles era Roger Wilson, um técnico tímido e nervoso, propenso a episódios de irritação. Charles sabia que Roger lutava contra a imagem de obcecado por máquinas e que dedicava boa parte de seu tempo a atividades distantes de sua ocupação, como praticar seu oboé por horas a fio, ou rabiscar poesia em um caderno que parecia remontar aos seus tempos de escola. O som do instrumento e o precário domínio que Roger tinha dele levaram à decisão, por dois votos a um, de que ele conduzisse seus treinos a algumas dezenas de metros do complexo.
     O outro se chamava Elmer Finn, vigilante do complexo e seu habitante veterano. Elmer era responsável por abastecer o lugar com provisões e outras atividades essenciais, ainda que nada científicas, como o transporte e contato com povoações. Por isso, Elmer passava longos períodos de tempo fora. A presença de Elmer era uma constante lembrança para Charles de como ele, Roger e toda aquela ciência e tecnologia pareciam não pertencer àquele lugar.
     Charles, Roger e Elmer haviam estabelecido um convívio relativamente pacífico. De modo espontâneo, aqueles três homens tão diferentes haviam chegado a um acordo, não escrito nem falado, de se aterem apenas às próprias vidas e de conversarem apenas quando necessário. Charles sabia que muitas pessoas achariam solitária aquela vida em meio a relações tensas, mas sabia também que isso não era verdade. De sua parte, diria que apreciava não ter de atender às regras sociais e padrões de conduta que o forçariam, em situações normais, a cumprimentar aqueles próximos de si e tentar conhecê-los até os limites do apropriado, em uma insana busca de semelhança entre espíritos, fadada ao fracasso.



"Saudações do Futuro" é o sexto conto do livro. A estória é ambientada no presente, em uma instalação de captação de sinais para pesquisa científica, em local remoto, mas deixado sem detalhamento maior.

Acompanhando Charles Wright, um matemático descontente que lida com a interpretação dos sinais por computadores, a narrativa trata do cientista em seu isolamento, até a detecção de um estranho sinal que causa uma revolução em sua rotina. 

O cenário permite ao conto abordar o tema de realizações da vida, de expectativas relacionadas ao potencial real ou imaginário das pessoas e das oportunidades que desaparecem tão rápido como somem.

Este trabalho motivou a temática da coletânea, tendo sido premiado em 1º lugar no concurso de contos "Servir com Arte" de 2008, da Escola de Governo do Paraná.

27 de julho de 2010

Recriando estórias frustrantes

Ao experimentar uma estória através de qualquer mídia -- assistindo a um filme ou peça, lendo um texto, ouvindo uma música, interagindo com um jogo -- as pessoas manifestam suas críticas de diversas maneiras. Eu, como sei que várias pessoas devem fazer, sempre gostei de recriar elementos das estórias que não me agradam, para tentar "consertá-las". Acabei descobrindo que é um exercício criativo excelente.

Para começar, é preciso uma estória. Note que a obra não precisa nem mesmo ser boa. De fato, ela pode ser péssima, com a recriação podendo ser feita com filmes da pior categoria, textos sofríveis ou jogos quase sem história. O que precisa haver é uma estória "sucateável", cuja premissa e desenvolvimento geral contenha elementos suficientes para serem resgatados. Assim, por pior que seja o resultado final, é necessário que a pessoa esteja no mínimo atenta à estória. 

Desligue quando o zoom out subaquático acabar.
Percebi que estórias medianas ou acima da média não se dispõem tanto a esse exercício como as que estão abaixo da média. Creio que se apreciamos uma obra, estamos dispostos a relevar pequenas omissões ou deslizes e suprimimos nosso senso crítico para aproveitar melhor os pontos positivos. Quando a julgamos ruim, entretanto, o descrédito, rejeição e mesmo indignação atiça o espírito.

Com a estória terminada, nosso juízo sobre sua qualidade depende de pontos específicos -- elementos individuais como personagens, cenários, figurino, diálogos, cenas -- e o quadro geral, que permitirá uma impressão final considerando o enredo como um todo e a coerência entre os elementos. Muitas vezes particularidades ótimas se sobrepõem a um panorama sofrível, ou o conjunto é muito melhor que a soma das partes. Mas a frustração que move esse impulso de recriação é com pontos incômodos ou com uma soma desajeitada.
Proteção de um APU de Matrix Revolutions contra robôs com tentáculos: zero.
Perceber os problemas já é por si só um exercício de análise, mas também é necessário examiná-los para determinar o que os torna problemáticos. Uma vez detectados, precisamos pensar se classificamos o elemento como problema por alguma questão pessoal, interna -- baseadas no gosto, estilo, expectativa do recriador -- ou questão da obra, externa -- baseadas em inadequação estética ou lógica ou em erro. Note que isso serve apenas para ajudar a resolver o problema; assim como uma pessoa pode rejeitar uma obra por questões pessoais, não acho que uma recriação pelos mesmos motivos deva ser contida.

A verdadeira etapa criativa inicia-se em seguida. Sabendo o que causa o problema, o recriador pode repensar o que o incomoda. Não basta apenas tirar o problema, repará-lo e colocá-lo de volta. O desafio está não só em tornar o elemento melhor, mas também fazer a estória suportar a alteração. Se uma ideia parecer boa demais para a estória, mas uma ou outra coisa entra em conflito com ela, é interessante repensar essas outras coisas também.

Objeto perfeito para o exercício.
Eu me proponho a tentar primeiro as menores alterações possíveis, visando manter o quanto for possível da integridade original da obra. Só imagino alterações substanciais se não há alternativa. Mas é elegante quando uma estória aparentemente defeituosa, frustrante por algum motivo, resolve-se com a inclusão de uma fala, uma cena, às vezes um olhar de um personagem, uma vírgula em um texto. Às vezes bastaria uma insinuação, para abrir uma possibilidade que dissolve toda nossa frustração.

Em suma, considero esse exercício de repensar estórias extremamente valioso para não só apurar nosso senso crítico e analítico e adequação estética e estilística mas, sobretudo, nossa capacidade criativa. Pelo menos, é também divertido e otimista, procurando graça até nas piores estórias.

26 de julho de 2010

Discos sobre o Tempo (1)

Esta é uma lista de álbuns selecionados com temas ou peculiaridades relacionadas ao tempo.


Time Out - The Dave Brubeck Quartet (1959). O título e tema deste disco é o uso de marcas de tempo ou variações no compasso não convencionais para o jazz da época. Como é típico para obras visionárias, sofreu com críticas negativas apenas para ser considerado uma obra-pimia do jazz, um dos mais conhecidos e vendidos discos do gênero de todos os tempos. Blue Rondo à la Turk que me perdoe, mas a escolha da faixa é fácil. Faixa em destaque: 3 - Take Five.


Days of Future Passed - The Moody Blues (1967). O segundo álbum da banda é o primeiro de uma série de álbuns conceituais, que marcariam a mudança do tom R&B da banda para o que a tornaria uma das precursoras do rock progressivo. As músicas acompanham a vida de um homem comum ao longo de um dia inteiro, gravadas lado a lado com a London Festival Orchestra. Faixa em destaque: 5 - Tuesday Afternoon.


I Robot - Alan Parsons Project (1977). Segundo álbum da dupla Parsons/Woolfson, inspirado na obra quase homônima de Isaac Asimov (1920-1992). Seria diretamente baseado nos textos se não fossem questões de direitos, fazendo a abordagem de robôs do álbum ser mais genérica. Faixa destaque: 2 - I Wouldn't Want to be Like You.


Time - Electric Light Orchestra (1981). Em seu décimo álbum -- depois da trilha sonora para o filme Xanadu (1980) -- a banda afasta-se da influência da música disco para um som mais progressivo e new wave -- reminiscente do sexto (New World Record) e sétimo (Out of the Blue) álbum da banda. Apesar da influência do álbum, Jeff Lynne admitiria mais tarde que as músicas foram gravadas para atender a obrigações contratuais. Faixa em destaque: 12 - Hold on Tight.


Dave Clark's Time - Vários artistas (1986). Álbum conceito do musical Time, derivado de outro de 1970 intitulado The Time Lord pesadamente influenciado pela série de televisão Doctor Who. Pérola obscura do qual participaram, dentre outros, Burt Bacharach, Richard Carpenter, Julian Lennon, Freddie Mercury, Dusty Springfield e Dionne Warwick. Pré-filmado, Sir Lawrence Olivier tinha falas no musical e na música tema. Faixa em destaque: Theme from Time.


Somewhere in Time - Iron Maiden (1986). A arte de capa do sexto álbum havia sido feita originalmente para uma biografia da banda, e faz referência a músicas e álbuns que o precederam. Foi o primeiro álbum em que usaram sintetizadores, razão pela qual Bruce Dickinson disse depois não gostar dele. Faixa em destaque: 1 - Caught Somewhere in Time.


About Time - Pennywise (1995). O terceiro álbum da banda punk californiana trata do controle que temos que ter sobre o tempo, para que ele não nos controle. Último álbum gravado com o baixista Jason Thirsk antes de seu suicídio, e primeiro álbum da banda a emplacar nas paradas musicais dos EUA e Europa. Faixa de destaque: 12 - Killing Time.


The Time Machine - Alan Parsons (1999). Terceiro álbum solo de Alan Parsons, explorando temas de viagem no tempo, controle do tempo e memórias, rejeitados pelo parceiro Eric Woolfson durante a elaboração do álbum I, Robot, quando na banda Alan Parsons Project. Curiosamente, ele é creditado como produtor do disco, deixando os méritos instrumentais e de letra para os vários músicos envolvidos. Faixa em destaque: 3 - Out of the Blue.

24 de julho de 2010

Frases latinas sobre o Tempo

Mais do que ad infinitum, ex tempore e in memoriam, segue uma lista de expressões latinas referentes ao tempo, com uma breve explicação de sua curiosidade.

a Deucalione. "Desde Deucalião", significando "há muito tempo atrás". Na mitologia grega, Zeus enfurece-se com os Pelasgos  e resolve destruir a humanidade com um dilúvio. Avisado pelo pai Prometeu, Deucalião e sua esposa Pirra constróem uma arca e sobrevivem. Fazendo oferendas no Oráculo de Têmis, são instruídos a "jogar os ossos de sua mãe por cima dos ombros" para fazer a humanidade ressurgir. Como a mãe de tudo é a Terra, o casal joga pedras: as de Deucalião tornam-se homens e as de Pirra, mulheres. Deucalião é figura equivalente ao Noé bíblico, como os mesopotâmicos Ziudsura, Atrahasis e Utnapishtim antes deles.
ab urbe condita ou anno urbis conditae. "Desde a cidade fundada" ou "Ano de fundação da cidade", para marcar datas em relação à fundação de Roma em 753 AEC.
ad kalendas graecas. "Nas calendas gregas". A calenda era o primeiro dia do mês para os romanos, e é a origem da palavra "calendário". Mas os gregos não tinham calendas, assim o termo equivale a dizer "No dia de São Nunca".
ad multos annos! "Por muitos anos!", como desejo de longa vida.
ad perpetuam rei memoriam. "Pela perpétua memória da coisa". Empregado em bulas papais contendo doutrina, inscrições comemorativas e em procedimentos probatórios jurídicos para indicar informações que devem ser lembrados ou guardados para o futuro.
amor fati. "Amor ao destino". Frase cunhada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e explicada por ele em sua obra Ecce Homo (1888): "Minha fórmula para a grandeza num ser humano é amor fati: que queira nada diferente, no futuro, no passado, em toda a eternidade. Não apenas suportar o que é inevitável, muito menos ocultá-lo -- todo idealismo é falsidade na face do que é inevitável -- mas amá-lo". Opõe-se à noção da frase memento mori.
annus mirabilis. "Ano maravilhoso". Empregado em referência ao ano de 1666, em que o cientista inglês Isaac Newton (1643-1727) fez descobertas influentes sobre temas diversos como gravitação, ótica, cálculo e movimento. Desde então é reutilizado em alusão a descobertas proporcionais, como as de 1905 pelo cientista alemão Albert Einstein (1879-1955).
annus terribilis. "Ano terrível". O ano de 1348, em que a Peste Negra começou na Europa.
ars longa, vita brevis. "A arte é longa, a vida breve". Usada fora de contexto para exaltar a expressão artística, a frase na verdade inicia um aforisma de Hipócrates: Ars longa, vita brevis, occasio praeceps, experimentum periculosum, iudicium difficile. "A arte é longa, a vida breve, a oportunidade fugidia, o experimento perigoso, o juízo difícil", referindo-se à arte da qual é considerada o pai, a medicina, para cujo entendimento a vida parece breve.
carpe diem. A famosa frase traduz-se literalmente para "colha o dia", como se colhem flores. 
A exortação para aproveitar o presente é do poeta romano Horácio (65-8 AEC), constando no livro primeiro de suas Odes, destinado a uma mulher que preocupa-se com o futuro. Minha tradução do trecho inteiro é: 

Não pergunte, saber é proibido, qual o meu, qual o seu
fim dado pelos deuses, Leuconoe, nem os (adivinhos) Babilônios
provoque por números. É melhor, o que quer que tenha sido, suporte.
Se (forem) muitos invernos ou se te conceder Júpiter o último,
que agora choca-se debilitado contra as rochas do mar
Tirreno: torne-se sábio, beba vinho e em um espaço breve
contenha uma longa espera. Enquanto falamos, fugidia a vida
é: colha o dia com a mínima crença no seguinte.

contemptus saeculi. "Desprezo pelos séculos", significando "rejeição ao secular" em alusão à vida monástica. A palavra "secular", tendo "temporal" como equivalente, refere-se ao que diz respeito ao nosso século ou tempo, oposto à religião fundada em tradições passadas e elucubrações sobre o pós-vida.
cras amet qui nunquam amavit quique amavit, cras amet. "Amanhã ame quem nunca amou; quem amou, ame amanhã". De Pervigilium Veneris, "Vigília de Vênus", um poema de autoria incerta que descreve o despertar da natureza através da deusa romana do amor e da beleza.
damnatio memoriae. "Danação da memória", pena romana imposta a traidores e outros criminosos que consistia na eliminação de todos os registros da existência da pessoa.
dies irae. "Dia da ira". Na escatologia cristã, refere-se ao Dia do Juízo Final, em que Deus manifestará sua ira. É também o nome de um hino atribuído a Tomás de Celano (1200-1260/70), que tornou-se a Sequência da Missa dos Mortos, ou Réquiem, da Igreja Católica.
disce quasi semper victurus vive quasi cras moriturus. "Aprenda como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã". Atribuída a São Edmundo Rich (1175-1240).
esto perpetua. "Seja perpétua". Em seu leito de morte, o canonista e historiador veneziano Fra Paolo Sarpi (1552-1623) ditou três cartas e disse a frase como suas últimas palavras, dirigida à cidade que amou e à qual dedicou a vida.
gutta cavat lapidem. "Gotas cavam pedra". A origem de nossa expressão "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura" está no quarto livro da Epistulae ex Ponto (do poeta romano Ovídio (43 AEC-17/18 EC).
haec olim meminisse iuvabit. "Isto um dia será lembrado com prazer", equivalendo ao nosso "um dia vamos olhar para trás e rir disso tudo". A frase é da Eneida do poeta romano Virgílio (70-19 AEC).
historia vitae magistra. "A História é mestra da vida". Frase do político romano Cícero (106-43 AEC).
horas non numero nisi serenas. "Horas não conto, a não ser que sejam ensolaradas". Inscrição de relógios de sol.
Idus Martiae. "Idos de Março". O "ido" no calendário romano era o dia da lua cheia, no meio do mês. No ido de março de 44 AEC, o imperador Júlio César foi morto a facadas por notória conspiração de que participou seu protegido Brutus, alvo da expressão et tu, Brutus, "e você, Brutus". A expressão Idus Martiae, assim, é usada para evocar desgraça iminente.
laudator temporis acti. "Louvador do tempo passado". Diz-se daqueles que se apegam aos valores de épocas passadas. Frase de Horácio, em sua Ars Poetica.
memento mori. "Lembre-se da morte", tema comum da arte cristã e ditado da Ordem dos Trapistas, destinado a evocar a certeza da mortalidade.
mors certa, hora incerta. "A morte é certa, mas sua hora incerta".
o tempora, o mores! "Ó tempos, ó modos!", já lamentava Cícero em sua época.
omnes vulnerant, postuma necat ou omnes feriunt, ultima necat. "Todas ferem, a última mata". Inscrição de relógios.
quo usque tandem? "Até quando?", pergunta de Cícero em Ad Catilinam, dirigida ao conspirador Lúcio Catilina que visava derrubar a República romana.
stat sua cuique dies. "A cada um seu dia", ou seja, "o momento chega para todos". A frase de oportunismo e fatalismo é da Eneida de Virgílio.
tempora mutantur et nos mutamur in illis. "O tempo muda e nós mudamos com ele". Frase que remonta até o filósofo grego Heráclito de Éfeso (535-475 AEC).
tempus edax rerum. "Tempo devorador das coisas". De Ovídio.
tempus fugit e tempus volat hora fugit. "O tempo foge" e "O tempo voa, a hora foge". Inscrições típicas de relógios.
tempus rerum imperator. "Tempo imperador das coisas".
terminat hora diem; terminat auctor opus. "A hora termina o dia; o autor termina a obra". Frase final da peça "Doutor Fausto" (1604), do escritor inglês Christopher Marlowe (1564-1593).
velocius quam asparagi coquantur. "Mais rápido que aspargos cozinhando". Atribuído ao imperador romano Augusto (63 AEC-14 EC).

22 de julho de 2010

O conto "Entre Segundos"

 
     Meus olhos cheios de lágrimas estão fixos na figura decrépita na cama. No rosto do velho, um sorriso. Um sorriso imóvel. Como todo o resto. Mesmo assim, eu não queria deixá-lo ir.
     Quando era menino, em uma noite de brincadeira particularmente divertida, ficou tarde e meu pai me chamou para ir dormir. Naturalmente, eu não quis. Não houve argumento que o convencesse, todavia, e logo eu estava na cama, de braços cruzados, com ele colocando as cobertas em cima de mim. “Não é justo”, resmunguei, fazendo bico, “quando a gente está no melhor da brincadeira, é hora de dormir. O tempo acaba tão rápido”. Meu pai parou, hesitou e balançou a cabeça, dizendo apenas que “você tem que se organizar, só isso”.
     Reclamei, então: “Ah. Queria mais tempo pra brincar”. Meu pai ergueu as sobrancelhas, olhou sobre os ombros para ter certeza que minha mãe não estivesse por perto e, chegando bem pertinho, me cochichou: “Se não contar para a sua mãe, eu te ensino como”. Claro que eu concordei — os olhos brilhando com a promessa.
     “Você tem que ficar sem se mexer, respirar bem fundo e prender a respiração, apertar os olhos bem forte, cruzar o máximo de dedos que você puder e se encolher o máximo que conseguir. Então o tempo vai parar, enquanto você ficar assim. E se você praticar bastante, não vai precisar fazer mais nada disso.”
     Ele me deu um beijo na testa, apagou a luz e foi dormir. Eu comecei a praticar naquela mesma noite. Olhei a hora no meu rádio-relógio e fiz tudo o que meu pai me disse. Logo descobri que não conseguia segurar o fôlego nem por um minuto sequer. O tempo realmente parecia não passar naquela posição desconfortável, mas eu precisava saber.
     No dia seguinte, durante o almoço, perguntei para meu pai como faria para saber se o tempo realmente estava parado. Mais tarde naquele dia, ele me mostrou como eu fazia para ligar a função de cronômetro do rádio-relógio. Naquela noite, antes de dormir, eu acionei o relógio e assumi a desengonçada posição para parar o tempo. Fechei os olhos com o relógio marcando sete segundos.
     Contei em silêncio o tempo em que conseguia prender a respiração. Encolhido daquele jeito, não aguentava mais do que trinta segundos. Soltando o ar dos pulmões, abri os olhos para saber se o cronômetro havia corrido durante aquele tempo. Já suspeitava que meu pai estava me enganando, como fazem os adultos para burlar a manha infantil com alguma estória que estimulasse a imaginação.


"Entre Segundos" é o quinto conto do livro e o segundo a se passar em épocas modernas. A estória se passa no presente, sem local definido.

É um dos dois contos escritos visando o tema do tempo com o fim de integrar a coletânea (o outro sendo "Ouroboros"), os demais tendo sido escritos antes do tema ser estabelecido. Sua conexão com o tema do Tempo é dupla: o protagonista deseja a capacidade de parar o tempo e ela lhe é ensinada pelo pai, em um contato entre gerações que é fundamental para a estória.

O conto não apenas é meu tratamento do desejo de colocar-se alheio ao tempo -- tão antigo, decerto, como o próprio conceito de tempo -- mas também de tecer pensamentos sobre capacidades sobrehumanas que eventualmente a humanidade desejou ter. Já havia feito tentativas nesse sentido com do conto "Mammon", de meu primeiro livro, em que o protagonista desenvolve uma capacidade também muito desejada pela maioria das pessoas.

O título não é apenas uma alusão ao que o protagonista almeja fazer, mas também a algo que ele aprende e que é o desfecho da narrativa.

20 de julho de 2010

A Fonte do Tempo

A Fonte do Tempo (Fountain of Time) é uma obra do escultor, escritor e educador estadunidense Lorado Taft (1860-1936).

Tendo ganho em 1907 para sua obra "Fonte dos Grandes Lagos" uma comissão do Fundo Ferguson  -- um presente de 1 milhão de dólares de Benjamin Ferguson para "a memória de eventos da História Americana" --, em 1914 Taft ofereceu nova proposta ao Fundo para celebrar 100 anos do Tratado de Gante, que pôs fim à Guerra de 1812 entre Estados Unidos e Reino Unido. Após apreciação de um modelo inicial com 6 metros de comprimento, um quarto do tamanho pretendido, o projeto foi aprovado em maio de 1915. Taft concluiu a escultura em 1918, mas a instalação no lugar pretendido só pode ser feita em 1920 devido ao escultor ir para a França na Primeira Guerra Mundial servir em um um grupo de entretenedores e palestrantes.

Água começou a correr na fonte em 1920, mas ela só foi devidamente inaugurada e dedicada à cidade em 1922. O plano de Taft era acompanhar a obra com outra intitulada "Fonte da Criação", que nunca foi completada.


A escultura mostra uma personificação do tempo, o Pai Tempo, de manto e foice, observando uma massa de figuras que representam a humanidade em vários estágios de sua história, como crianças brincando, um casal se beijando, uma velha sendo amparada e um soldado a cavalo.

A escultura foi feita com mais de 200 toneladas de um agregado de cascalho semelhante a concreto despejados em molde. Não tendo juntas de expansão, a escultura sofreu com a dilatação do calor. Somado a limpezas abrasivas malfadadas, nos anos 80 a escultura exibia rachaduras e detalhes perdidos para o desgaste. Vários projetos de restauração foram feitos desde 1989, mas o mais expressivo terminou em 2001, com limpeza e reforço estrutural de toda a obra.

Suas dimensões aproximadas são 7 metros de largura, 7 de altura e 40 de comprimento. Está localizada no canto sudeste do Parque Washington em Chicago, Illinois. Visite as páginas do comitê de restauração e da Wikipédia para mais fotos. Abaixo, a fonte inteira vista de trás do Pai Tempo.

18 de julho de 2010

Nostalgia Curitibana

O jornalista Cid Deren Destefani publica no jornal Gazeta do Povo a coluna Nostalgia, aos domingos, desde 1989. A matéria "Cid Nostalgia", na edição publicada em 31 de maio de 2009, comemorava 20 anos da coluna com um histórico de sua carreira e um perfil. Ele próprio, por sua vez, caneteou em comemoração a matéria "20 anos".

Na coluna, Destefani publica fotos antigas de seu acervo que pode ultrapassar 500 mil negativos. O jornalista, assim,  efetivamente torna todo domingo o jornal em uma máquina do tempo.

Algumas fotos selecionadas:

Rua XV de Novembro em 1877:


A praça Tiradentes em 1934 (da página Bondes do Brasil)


A praça Santos Andrade em 1927:


O Zeppelin sobrevoa a Universidade Federal do Paraná:


Portal do Passeio Público em 1930:

15 de julho de 2010

O conto "Carolina de Óculos"


     A porta abriu. A mulher se surpreendeu com as diferenças do quarto. Quando o conheceu, quando morou naquela casa, aquele era um quarto de menina. Era algo além da cor suave das paredes e do rodapé branco salpicado de motivos celestes; além das cortinas delicadas, do armário branco como os rodapés e a escrivaninha ao lado da porta. Além das bonecas e bebês e brinquedos coloridos, além do estranho perfume que emanava de tudo. O que fazia aquele quarto ser de menina era um brilho, uma luminescência que parecia pairar em pleno ar, tomando conta do ambiente, ressaltando os contornos de tudo, banhando tudo em uma meia-luz que forçava aqueles que entrassem a imaginar coisas nas silhuetas criadas pela sombra das cortinas projetadas nas paredes, nos padrões invisíveis do chão acarpetado ou na dança graciosa dos ínfimos fiapos que, nadavam como salmões contra a correnteza dos raios de sol, pela manhã, quando as janelas eram abertas e as cobertas descobriam o sono infantil.
     Aquele brilho, aquela luminescência, era o que faltava. Para muitos, aquele ainda era um quarto de crianças. Mas seus atuais ocupantes não eram mais crianças, haviam passado daquela idade em que tudo é novo, belo e gracioso. Já haviam perdido aquela pureza que fazia a própria inocência ser inocente. E, antes de tudo, eram dois garotos. Ela nunca poderia comparar a infância de um garoto com o de uma menina. Nunca.
     Suspirou, com pesar. Sua mente divagou por alguns instantes; a lembrança da perda retornou. Os dois garotos saíram, a pedido da mãe deles, que os chamou sem perturbá-la com qualquer barulho. Ela virou-se e encontrou o rosto da mulher, sorridente, dando a entender que ela podia levar o tempo que quisesse. Ela agradeceu com um aceno de cabeça. A mãe dos garotos virou-se e saiu com eles para o quintal. O dia ensolarado convidava à brincadeira.
     A mulher ficou sozinha no quarto. Seus olhos estudaram o ambiente, um tanto ansiosos, um tanto frustrados por antecipação. Aqueles garotos deviam ter revirado cada centímetro daquele quarto, em busca de mistérios ocultos, passagens secretas, viagens espaciais e essas coisas que garotos fazem. Talvez até tivessem brincado de piratas ou de aventureiros buscando tesouros escondidos. Talvez encontraram o tesouro escondido que ela própria procurava.
     Com muito cuidado, afastou uma das camas, evitando fazer barulho. Junto da parede, atrás da cabeceira da cama, procurou um trecho do rodapé. Ele não era mais branco e nem tinha sinal de qualquer motivo celeste. Era azul. Simples e puramente azul. Buscou agarrá-lo, crendo que as emendas, antes evidentes, haviam sido cobertas pela nova tinta. Estava certa: com algum esforço, a nova camada de tinta rompeu-se e um segmento do rodapé saiu em suas mãos. Embaixo dele, o carpete estava solto. Nervosa e amaldiçoando-se por isso, ela hesitou, antes de enfiar as mãos embaixo do carpete, onde sabia haver um espaço vazio, em que estava seu tesouro.
     Tateou, tateou. Onde estaria?

 
 
"Carolina de Óculos" é o 4º conto do livro, e o primeiro a passar-se em épocas modernas.

A estória acompanha uma mulher que, através do "tesouro" que procura no início, vivencia aventuras de Carolina, uma menina de imaginação fértil que está procurando. A narrativa passa por vários episódios da vida de Carolina, fazendo dela a protagonista.

A ideia para o conto veio quando conversava com minha amiga Carolina, que me contou que logo usaria óculos. Lembrei-me de tudo o que eu próprio havia passado -- usei óculos dos 10 aos 27 anos -- e somei a isso a vontade que tinha de escrever uma estória infantil, alegre e leve, oposta à tenebrosidade do horror, à opulência da fantasia e à tecnicidade da ficção científica.

O contato entre a mulher e Carolina cria provoca o próprio leitor a perceber o quão crescido e distante está da criança que foi. Se esse contato entre gerações não parece ser motivo suficiente para o conto integrar esta coletânea sobre o Tempo, a razão real da busca da mulher por Carolina certamente colocará de lado qualquer dúvida.

Concluído o conto, dei ele de presente desde logo à amiga que me deu a ideia. Agora que é dela, tenho que pedir autorização pra publicar. Você deixa, né, Carol?

14 de julho de 2010

As Séries de Monet

O pintor francês Oscar Claude Monet (1840-1926) foi um dos fundadores do Impressionismo, a escola recebendo esse nome devido à sua obra Impression, soleil levant (1872). Filho de um merceeiro, Monet deixou de lado o negócio da família para em 1851 iniciar o estudo de artes em Le Havre, onde vendia desenhos a carvão por vinte francos. Em 1856 conheceu o pintor francês Eugène Boudin (1824-1898), com quem aprendeu pintura a óleo e as técnicas en plein air ("em pleno ar", a céu aberto), que se tornariam fundamentais em sua obra.

Adepto da pintura de paisagens, Monet não apenas fez variações de seus quadros mostrando condições climáticas diferentes, como registrou a passagem do tempo dentro de um dia ou ao longo das estações. A expressão mais manifesta disso em sua obra são suas séries, exibindo uma mesma paisagem, algumas inclusive do mesmo ponto de vista, ao longo do tempo. Dentre estas séries incluem-se:

 Meules ("Pilhas", 1890/91), mostrando montes de feno em um campo;








Esquerda: "Montes, meio-dia", 1890/91, óleo sobre tela, 65.6x100.6 cm, National Gallery of Australia. 
Direita: "Montes, entardecer, efeito de neve" 1890-91, óleo sobre tela, 65.3x100.4 cm, Art Institute of Chicago

La Cathédrale de Rouen ("A Catedral de Rouen", 1892/94), mostrando a fachada da Catedral;


Esquerda: "Catedral de Rouen, portal e torre São Romão, efeito da manhã, harmonia branca", 1892/93, óleo sobre tela, 106x73 cm, Musée d'Orsay
Direita: : "Catedral de Rouen, portal ao sol", 1892, óleo sobre tela, 100x65 cm, National Gallery of Art



Maisons du parlement ("Casas do Parlamento", 1900/04), mostrando o Palácio de Westminster, sede do Parlamento Britânico; e










Esquerda: "Casas do Parlamento, sol através da névoa", 1904, óleo sobre tela, 81x92 cm, Musée d'Orsay
Direita: "Casas do Parlamento, entardecer", 1902, óleo sobre tela, 81,6x93 cm, National Gallery  of London

Peupliers ("Álamos", 1891), mostrando álamos ao longo do rio Epte.

Esquerda: "Álamos ao sol", 1891, óleo sobre tela, 93x73,5 cm, National Museum of Western Art
Direita: "Álamos, outono", 1891, óleo sobre tela, 92x73 cm, coleção particular

12 de julho de 2010

Cara nova


Além das mudanças na aparência, as postagens não seguirão mais a proposta original de um tema para cada dia. Em vez disso, as postagens podem ter qualquer um dos temas, independente do dia. Os temas propostos foram mantidos mas tiveram pequena mudança de nome:
  • Diário de Publicação;
  • Amostra de Conto;
  • Processo Criativo;
  • Arte e Tempo; e
  • Curiosidades do Tempo.
A "cara nova" estende-se ao livro, também. Mantenho cada conto em um arquivo próprio, e tendo aplicado a revisão técnica sobre cada um deles, reconstruí o livro para enviar para registro. Na colocação dos contos em ordem, notei o gritante deslocamento de "Ouroboros" -- pelo ano em que se passa, devia ser o primeiro ou segundo conto -- mas resolvi colocá-lo em último, pelo tema que trata, evidente pelo seu título. Assim, a ordem final dos contos, que seguirei de agora em diante para as amostras, é:
  1. Espelhos da Alma
  2. Beijo de Ópio
  3. Primeiro-Tenente
  4. Carolina de Óculos
  5. Entre Segundos
  6. Saudações do Futuro
  7. Parafuso Frouxo
  8. Mulheres e Crianças Primeiro
  9. A Maçã Elétrica
  10. Futuro Seguro
  11. Na Linha de Montagem
  12. Controle Remoto
  13. Planeta Asfalto
  14. A Água de Croma
  15. Ouroboros

9 de julho de 2010

Relógios curiosos (1)


A Yanko Design tem muitos relógios divertidos, como o Zipper Bracelet, cujos números digitais surgem nos quatro fechos do zíper da pulseira...
 
... o Immovable de Stas Aki, em que os ponteiros ficam fixos e os números mudam...

... e o Aurora de Jihun Yeom, que tem um buraco no lugar da face e, no lugar dos ponteiros, dois fachos de laser de cores diferentes.

 Na página de design reddot encontram-se o Eclipse de Qian Yiran, um relógio de parede que só tem ponteiros, em cujas extremidades surgem os números referentes à hora e minutos...

 ... o Endlesstime de Alexey Bykov, que combina uma faixa Moebius com um relógio de pulso,  atualiza-se via satélite e é movido pela energia cinética do movimento...

... o HoursMinutesSecondsDay de Ioannis-Alexandros Stasinopoulos que mostra hora, minutos, segundos e o dia cada um em uma pulseira separada...

... o Lux=Time de Kim Young Bok, um abajur-ampulheta que mostra a passagem do tempo com luz no lugar de areia...

... e o Point of Time de Tao Di, que marca o horário através de uma barra vermelha para as horas e uma azul para os minutos, que correm perpendiculares.

Moonwatch do Emotion Lab exibe a fase lunar. A face muda para mostrar a hora com o apertar de um botão.

8 de julho de 2010

Registro junto à Biblioteca Nacional


O registro da obra a ser publicada não é necessariamente obrigatório, mas desejável e recomendável. A lei de direitos autorais brasileira, Lei nº 9610/98, prevê isso expressamente em seu Título II, Capítulo III, "Do Registro das Obras Intelectuais", transcrito abaixo.

Art. 18. A proteção aos direitos de que trata esta Lei independe de registro.
Art. 19. É facultado ao autor registrar a sua obra no órgão público definido no caput e no § 1º do art. 17 da Lei nº 5.988, de 14 de dezembro de 1973.
Art. 20. Para os serviços de registro previstos nesta Lei será cobrada retribuição, cujo valor e processo de recolhimento serão estabelecidos por ato do titular do órgão da administração pública federal a que estiver vinculado o registro das obras intelectuais.
Art. 21. Os serviços de registro de que trata esta Lei serão organizados conforme preceitua o § 2º do art. 17 da Lei nº 5.988, de 14 de dezembro de 1973.

O art. 17 é o único ainda vigente da Lei nº 5988/73, a lei de direitos autorais anterior. O artigo diz o seguinte:

Art. 17. Para segurança de seus direitos, o autor da obra intelectual poderá registrá-Ia, conforme sua natureza, na Biblioteca Nacional, na Escola de Música, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Instituto Nacional do Cinema, ou no Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia.
§ 1º. Se a obra for de natureza que comporte registro em mais de um desses órgãos, deverá ser registrada naquele com que tiver maior afinidade.
§ 2º. O Poder Executivo, mediante Decreto, poderá, a qualquer tempo, reorganizar os serviços de registro, conferindo a outros Órgãos as atribuições a que se refere este artigo.

O registro, assim, não pretende conceder os direitos autorais sobre a obra, mas prová-los em caso de disputa. 

Considerada a natureza literária de minha obra, o órgão responsável é a Fundação Biblioteca Nacional, localizada no Rio de Janeiro. A divisão responsável pelos registros dentro do órgão é o Escritório de Direitos Autorais, cuja seção própria na página esclarece diversas dúvidas referentes ao registro.
Existem Postos Estaduais do Escritório de Direitos Autorais, que orienta os requerentes em todos os passos e recebe os documentos, mediando o encaminhamento ao Rio de Janeiro. Em Curitiba, o Posto fica na Biblioteca Pública do Paraná.

Os passos para o registro que pretendo efetuar até semana que vem, em atendimento às Exigências, estão listados abaixo. São os passos para registro de obra não-publicada, feito por um autor, pessoalmente, como Pessoa Física.
  1. Imprimir uma cópia do texto definitivo COM PÁGINAS NUMERADAS e encaderná-lo;
  2. RUBRICAR TODAS AS PÁGINAS;
  3. Tirar cópias do RG, CPF e Comprovante de Residência ;
  4. Imprimir o Formulário de Requerimento para Registro ou Averbação e preenchê-lo devidamente em letra de forma, com o auxílio do Índice de Gêneros (em meu caso 8 - Conto/Crônica) e ASSINÁ-LO;
  5. Emitir Guia de Recolhimento da União - GRU (atalho para gerador na própria página da Biblioteca Nacional; outras opções constam da página) no valor descrito na Tabela de Preços (atualmente R$20) e efetuar o pagamento;
  6. Fazer um pacote contendo o texto, cópias do RG, CPF e comprovante de residência, o formulário preenchido e assinado e o comprovante original do pagamento da GRU;
  7. Entregar o pacote em um Posto Estadual ou enviar POR CORRESPONDÊNCIA REGISTRADA diretamente para: Escritório de Direitos Autorais - FBN, Rua da Imprensa, 16 - 12º andar, Castelo - Rio de Janeiro - RJ - CEP 20030-120.
Se tudo der certo, depois de algum tempo chegará pelo correio, no endereço informado no formulário, o Certificado de Registro referente à obra.

M. Belomlinski, em http://krivonos.us

7 de julho de 2010

O conto "Ouroboros"



     No nono dia de fevereiro do ano de mil quinhentos e sessenta e sete, comparece perante mim, João Manuel de Lima, O.P., um homem não identificado, de naturalidade e idade desconhecidas, encontrado nu nos arredores de ______, no vigésimo primeiro dia de setembro do ano passado, desde então abrigado secretamente neste monastério.
     Ao ser trazido para o monastério, acreditava-se que o indivíduo estivesse embriagado ou intoxicado de maneira semelhante, mal conseguindo ficar de pé. Ocorre que esta condição melhorou apenas um pouco depois de meses, exigindo assim que ele seja ouvido no estado em que se encontra.
     O homem balbucia coisas ininteligíveis constantemente; mesmo sentado balança o tronco e a cabeça como se lhe faltasse equilíbrio; não parece ter ciência do que ocorre ao seu redor e não tem noção precisa de onde está ou qual é o dia certo. Ele inclusive faz relatos ora como fatos que aconteceram, ora como fatos que, segundo ele, vão acontecer. Sua expressão é sonolenta e carece de emoções.
     O indivíduo fala e compreende rudimentos de português, motivo de meu chamamento à localidade, mas demonstra evidente dificuldade tanto em compreender os questionamentos quanto em oferecer respostas que eu possa decifrar a contento. Apesar das respostas parecerem diretas na leitura, elas levaram muito mais tempo para serem proferidas, decifradas, esclarecidas, escritas e confirmadas pelo declarante. A declaração, assim, foi colhida até os limites de minha capacidade e atesto que é a verdade, com o perdão de Deus.
     Antes dos primeiros questionamentos o homem parece expressar algo de entusiasmo assim que compreende o que lhe digo, ainda que em parte. Ele não pareceu compreender quando informei que colheria sua declaração, pois em seguida pediu que eu documentasse tudo.
     Questionado sobre seus pais, avôs, irmãos, cônjuge e filhos, quem são e onde moram, responde que não são vivos ou conhecidos. Questionado novamente, responde da mesma forma.
     Questionado sobre qual é seu nome, local de nascimento, idade e ocupação, não pude discernir o que responde, mas o faz de maneira zombeteira. Questionado novamente, determino apenas que responde “zero” quanto à idade. Faço constar que o homem parece ter em torno de quarenta anos.


"Ouroboros" é o décimo-quinto e último conto do livro. A estória é ambientada no ano de 1567, em lugar incerto da Europa, mas próximo de Portugal, de onde vem o narrador.

Naquela época, a tradicional religiosidade cristã da Europa estava abalada pelos movimentos de Reforma da Igreja Católica, chamados Protestantes, que davam seguimento ao trabalho dos alemães Martin Luther (1483-1546) e Martin Bucer (1491-1551); dos suíços Huldrych Zwingli (1484-1531) e Heinrich Bullinger (1504-1575); do italiano Pietro Martire Vermigli (1499-1562) e do inglês John Calvin (1509-1564), o primeiro fundador do Luteranismo e os demais influentes no surgimento do Calvinismo, Presbiterianismo e outras Igrejas Reformadas, além do Anglicanismo, que nascia na Inglaterra pela contestação à Igreja pelo Rei Henrique VIII (1491-1547).

Com seus fundamentos nas tradições contestadas, a Igreja Católica reagiu com o que ficou conhecido como Contra-Reforma, que se definiu com o Concílio Ecumênico realizado na cidade de Trento entre 1545 e 1563. O Concílio consolidou as visões católicas em resposta às contestações e definiu o protestantismo como heresia. Desde o século XII a Igreja combatia os cismáticos e apóstatas e os praticantes de heresias como o dualismo, gnosticismo, anabatismo, legalismo, antinomianismo e judaizantismo, perseguindo grupos que as praticavam, como os cátaros (ou albigensianos), valdenses, hussitas e lollardistas. O Concílio de Trento apenas reforçou esse combate e adicionou os protestantes à lista.

O ambiente moral, social e cultural propicia contraste chocante com épocas futuras, que é o tema do conto. O contato gera um jogo de percepção como o explorado por Edgar Allan Poe em "A Milésima Segunda Noite de Xerazade" (1850). Para tanto, fiz o narrador João Manuel de Lima escrever estas anotações em tom formal e legalista explicado pela sua finalidade, que é revelada apenas adiante. João transcreve os questionamentos que faz a um estranho homem de origem incerta -- que apenas diz vir "de longe"...

O título é o nome do símbolo da cobra devorando a própria cauda que figura no topo desta postagem, também escrito "oroboro" ou "uróboro". Simboliza ciclicalidade, continuidade, eterno retorno e autorreferência, mas também -- mais literalmente -- com a autodestruição. Foi utilizado por alquimistas e associado ao hermetismo e gnosticismo.