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31 de agosto de 2010

Original enviado

Enviei o original à Editora Rocco na última quinta-feira, dia 26 de agosto, conforme havia mencionado nesta postagem

O prazo para análise conforme as Normas da Editora é de 60 dias, com os 45 primeiros dias de exclusividade. 

O Diário de Publicação fica em suspenso até haver uma resposta, mas continuarei postando artigos sobre o Tempo e amostras dos contos do livro (logo estarão os 15 no blog).

Requerido pela editora, colocarei em postagem própria na quinta-feira a Sinopse que fiz do livro, além do Sumário ao qual tentei dar um toque temporal.

30 de agosto de 2010

"O Tempo Não Tem Margem" de Marc Chagall

O nome real do pintor russo Marc Chagall (1887-1985),  Moishe Zakharovich Shagalov, revela sua descendência judaica. Nasceu na cidade de Liozna, atual Bielorússia, vizinha de Vitebsk, esta chamada "de Toledo Russa" por sua atividade cultural e que foi totalmente destruída na Segunda Guerra Mundial. Liozna e Vitebsk eram parte da Zona de Assentamento, a região do Império Russo onde judeus podiam fixar residência permanente. Ainda assim, os judeus sofriam diversas restrições, o que fez com que suprissem diversas necessidades por conta própria.

Um dos nove filhos de um peixeiro, obteve educação em uma escola judaica e só foi admitido no colégio porque sua mãe pagou ao diretor. Apreciando os desenhos de um colega, perguntou-lhe onde havia aprendido e teve como resposta que ele copiava ilustrações de livros. Ele fez exatamente isso e descobriu grande satisfação. Depois foi admitido de graça sob a tutelagem de Yehuda Pen (1854-1937) mas retratos não eram suficientes para ele, mudando-se em 1906 para a capital cultural do Império, São Petersburgo, onde aprendeu com León Samoilovitch Bakst (1866-1924). Em 1910 foi para Paris sem saber francês, tendo aulas na academia La Palette. Em 1914 planejou retornar para Vitebsk apenas para casar com suanoiva, mas a Primeira Guerra Mundial o forçou a permanecer até 1922, através da Revolução Russa de 1917. Ele foi constituído "Comissário de Artes Visuais" pelo novo regime, fundando um Colégio de Artes em Vitebsk e apresentando sua arte em São Petersburgo e Moscou. Em 1923 retornou para a França até 1941. Com sua arte tendo sido -- por razões evidentes -- atacada pelos nazistas, teve que escapar da França de Vichy com a ajuda do governo dos EUA, estabelecendo-se em Nova Iorque até 1948. Então voltou para a Europa, vizinho de Matisse e Picasso na Riviera Francesa, até sua morte.


O quadro "O Tempo Não Tem Margens" (Le temps n'a point de rives, 1930-1939, 100 x 81,2 cm) é indicado como sendo precursor de elementos surrealistas (apesar de não querer se enquadrar em escolas, Chagall sintetizou o cubismo, simbolismo e fauvismo, sendo indicado como um expressionista e "um precursor do modernismo"). A página de leilões Christie's indica sua atual localização como o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, mas na página deste só pude encontrar um rascunho da obra (1928, 21 x 14 cm). O comentário da Christie's sobre o quadro diz que ele
"... é obra tanto lírica quanto filosófica, imbuída com a caprichosa visão do mundo que é própria de Chagall. O peixe alado que se arremessa pelo ar sobre uma ampla paisagem fluvial é por si só uma criatura mágica, mas com a adição do relógio, relaciona-se intimamente com o mundo pessoal interno de Chagall e sua visão interior. Muitos anos depois, retornando em 1914 para a casa dos pais em Vitebsk depois de forjar sua carreira primeiro na Rússia e depois em Paris, Chagall pintou o relógio na casa deles, e é o mesmo relógio que reapareceria intermitentemente em pinturas posteriores. Uma vez redescoberto, e de fato reencarnado, como parte de seu mundo infantil, foi também transfigurado no relógio quintessencial na mente do artista. A despeito de sua aparência distinta, este relógio é um marcador de tempo genérico, uma referência ao externo e imutável compasso do próprio tempo."
Acompanhado do peixe, que representa poderes remotos da consciência de sair de seu mundo (como o peixe voa em elemento que não é o seu próprio), o relógio sem ponteiros representa o tempo do qual, como o título indica, a alma libertou-se. O tempo não tem mais importância.

O título da obra vem do poema "O Lago" (Le Lac), pela qual ficou famoso o poeta e político francês Alphonse de Lamartine (1790-1869), cuja estrofe versa (tradução minha): "Amemo-nos então, amemo-nos então, a hora fugitiva | Nos apressa, alegremo-nos! | O homem não tem porto, o tempo não tem margem; | Ele flui, e nós passamos!"

28 de agosto de 2010

O conto "Futuro Seguro"


     Um alarme repetitivo soava. “Pram. Pram. Pram.”
     No espaço diminuto, semelhante a um caixão, um monitor banhava de luz vermelha o rosto de um homem adormecido. Ele acordou, e apertou com o indicador o relógio despertador vermelho que tremia na tela. O relógio parou de tremer tornando-se verde, e uma voz feminina agradável informou:
     — Atenção, senhor... Hiato, restam... dez... minutos das suas... cinco... horas de repouso. O senhor gostaria de...
     O homem interrompeu a frase inserindo um cartão em uma fissura ao lado do monitor.
     — Digite o tempo desejado — disse a voz.
     Ele digitou trinta minutos, cada pressão na tela fazendo um som característico.
     — Trinta... minutos. Desculpe, crédito insuficiente. Digite...
     Ele digitou quinze minutos.
     — Quinze... minutos. Desculpe...
     Digitou cinco minutos, irritado.
     — Cinco... minutos. O valor mínimo para repousar neste hotel é de cinco minutos e seu cartão não possui crédito suficiente...
     — Tá, tá... — tentou ignorar o homem.
     — O senhor gostaria de informações a respeito de albergues gratuitos?
     — Não... — bocejou ele.
     — De acordo com o registro de suas operações financeiras, o senhor realizou suas últimas três refeições em um restaurante McDonald’s e, portanto, tem direito à nossa promoção “Manhã De Bem Com A Vida”. Gostaria de mais informações?
     — Depois... — disse ele, cobrindo os ouvidos com os braços.
     — O senhor tem duas mensagens, totalizando sete minutos. Mensagens não ouvidas até o fim deste serviço estão sujeitas a exclusão automática. Deseja ouvi-las agora?
     — Grave no cartão.
     — Cartão cheio.
     — Como cheio? — ele suspirou. — Abra o explorador.
     — Desculpe, crédito insuficiente.
     — Mostre as mensagens.
     — Mensagem um. — A tela exibiu um rapaz, sentado a uma mesa. Usava calça cinza, suspensório bege, camisa branca e gravata vermelha. O cabelo curto, castanho-claro, estava desarrumado. Seu rosto estava pintado de branco e em um dos ouvidos tinha um fone. — Hiato, a chefe quer teu couro. Você pegou a gravata ampliadora de paladar dela. O marido dela ligou pra saber como estava a comida e ela disse que estava sem sal. Já sabe o que deu, né? Ela separou um caso “daqueles” pra você. Até.


"Futuro Seguro" é o décimo conto do livro, e o segundo futurista. A estória acompanha um investigador de uma pequena empresa de seguros, em um futuro distópico com corporações nascidas de fusões disfuncionais, sem limites para suas atividades comerciais. A narrativa traz mistério e ação em uma atmosfera cyberpunk bem-humorada, denunciando algumas direções inusitadas que a tecnologia e a liberalidade econômica pode dar à cultura de consumo e à sociedade.

Distopia é o oposto de uma utopia, em que um certo fator ou conjunto de fatores é apontado como tendo consequências prejudiciais no futuro, originando situações negativas na natureza e na sociedade. Enquanto uma utopia explora as mais otimistas consequências de realizações do presente, uma distopia avança o tempo para mostrar a degeneração e decadência, evidente ou implícita, do mundo.

No conto, a distopia é fundada em uma extrapolação do que seria um futuro regido por princípios do Neoliberalismo. Esta escola de pensamento econômico advoga que ideais de que a iniciativa privada deveria ditar os rumos políticos do Estado. Em tese, o controle sobre as atividades das empresas não viria mais de um poder público soberano, mas da concorrência com outras e da constante necessidade de oferecer um melhor produto ao consumidor para mantê-lo.

O título é uma brincadeira entre a realidade desse futuro e a ocupação do protagonista, sendo também o nome de sua companhia: "Futuro Seguros".

24 de agosto de 2010

Registro recebido


O registro do livro junto à Biblioteca Nacional (a que me referi nesta postagem) chegou por correio ontem. Uma consulta ao acervo do Escritório de Direitos Autorais retorna com o seguinte resultado:

Título:.................................  A QUARTA DIMENSÃO
Personalidades:.............. EDUARDO CAPISTRANO DA SILVA - Autor(a)
Registro:............................ 503787, em 09/08/2010
Gênero:............................... Contos/Crônica
Obra Publicada:............... Não
Tipo de Apresentação:... Impressa/Computador, 97 página(s).

Após revisado, concluído e registrado, o próximo passo é decidir pela forma de publicação. Como discuti em postagens no início do blogue, publiquei meu primeiro livro, "Histórias Estranhas", junto a uma editora que imprime livros em pequenas tiragens sob demanda, possível graças à difusão de impressoras digitais. Não havia tentado, àquela epoca, enviar o texto para apreciação por editoras comerciais, por já ter visto a baixa receptividade por novos autores.

Recentemente, todavia, soube através do excelente blogue "Na Ponta dos Lápis" que a Editora Rocco tem um guia para novos autores que queiram enviar textos para aceitação. Decidi que este será meu primeiro passo, e conforme as Normas para Avaliação de Original que podem ser obtidas na página da editora, deverei providenciar os seguintes itens:
  • Arquivo do texto, formatado em fonte tamanho 12 e espaço duplo entre as linhas, gravado em CD;
  • Cópia do Certificado de Registro junto ao Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional;
  • Sinopse de pelo menos 20 linhas e sumário;
  • Razões para publicação do livro (opcional);
  • Ficha contendo nome, e-mail, telefone, endereço completo e um pequeno currículo com data de nascimento;
  • Cópia das Normas para Avaliação de Original assinada.
Itens que providenciarei nos próximos dias para enviar pelo correio, meio preferencial indicado nas Normas. Creio que na quinta-feira já postarei indicando o envio.

23 de agosto de 2010

O Teatro do Tempo de J. B. Priestley

O inglês John Boynton Priestley (1894-1984) foi romancista, ensaísta, dramaturgo e radialista. Sua prolífica carreira desenvolveu-se ao longo de 60 anos, com vários destaques. Ele é ocasionalmente chamado de o último "sábio" da literatura da Inglaterra -- a sociedade dedicada à sua memória o chama de "O Último Grande Homem das Letras Inglesas". Ainda assim estaria quase totalmente esquecido, não fosse pelo trabalho de sociedades de fãs e do sucesso de sua peça "An Inspector Calls" no National Theatre de Londres desde 1992, dirigida por Stephen Daldry (dos filmes Billy Elliot, As Horas e O Leitor), que ressuscitou o interesse pela sua obra, rendendo republicações e adaptações recentes.

Começou a escrever à noite, na época em que trabalhava para uma indústria de lã, entre 1910 e 1914. Ele serviu na Primeira Guerra Mundial e foi ferido em 1916 por um morteiro. Seu primeiro grande sucesso foi o premiado romance The Good Companions (1929), que permitiu estabelecer sua carreira literária. Em 1932 ele iniciou suas empreitadas dramáticas com a primeira das peças que ficaram conhecidas como suas "Peças do Tempo", de que tratarei depois. Em 1940/41, durante a Segunda Guerra Mundial, Priestley apresentava o Postscript, programa de rádio da BBC veiculado nas noites de domingo, muitas vezes com audiências superadas apenas pelas transmissões de Winston Churchill.

A obra de Priestley era reconhecidamente temperada com elementos socialistas, a ponto de seu nome constar da lista de pessoas que George Orwell não considerava aptas para ajudar o Departamento de Pesquisa de Informação contra a propaganda comunista da Rússia. Mesmo assim, após aquelas épocas conturbadas sua capacidade de tratar de temas científicos e metafísicos em sua obra foram louvadas, a ponto de lhe oferecerem o título de cavaleiro, que ele recusou.

Suas chamadas "Peças do Tempo" são chamadas assim por cada uma empregar uma teoria diferente sobre o Tempo em sua narrativa. Fazendo jus a seu apelido de "sábio", Priestley desenvolveu seu interesse pelo tema em um ensaio intitulado "Homem e Tempo" (Man and Time, 1964), em que discorre sobre diversas teorias que analisou e outras próprias, incluindo um estudo sobre sonhos precognitivos. Faço um resumo das peças a seguir (mais em The British Theatre Guide).
  • Curva Perigosa (Dangerous Corner, 1932). O título vem da ideia de que contar toda a verdade sobre algo é como fazer uma curva derrapando. Freda e Robert Caplan são os ricos anfitriões de uma festa. Quando uma caixa de música traz à tona o suicídio do irmão de Freda, supostamente depois de 500 libras de sua firma terem sumido, inicia-se uma série de ataques e confrontos que geram revelações e expõem os podres de todos os presentes, culminando em tragédia. Então a peça volta no tempo e continua com a caixinha de música sendo deixada de lado, evidenciando as consequências na simples escolha de comentar ou não um assunto delicado.
  • Tempo e os Conways (Time and the Conways, 1937). Os três atos da peça ilustram as teorias do irlandês John William Dunne (1875-1949), expressas principalmente em seu "Um Experimento com o Tempo" (An Experiment With Time, 1927), a única das teorias em que Priestley admitiu acreditar. A teoria é de que passado, presente e futuro ocorrem simultaneamente e que a consciência do homem é limitada na forma de percebê-la além do presente. A peça inicia-se no primeiro ato na noite do aniversário de uma das filhas da família Conway em 1919, com o segundo ato avançando no tempo para a mesma noite do ano de 1937 e o terceiro ato retornando para 1919. No otimista primeiro ato são mostradas as ambições e pretensões da família Conway, que no segundo são destruídas com a realidade dos fracassos e frustrações que tomaram suas vidas. No terceiro ato são reveladas alguns fatos e escolhas que anunciam esse futuro lastimável.
  • Estive Aqui Antes (I Have Been Here Before, 1937). Inspirada na teoria do filósofo russo Pyotr Demianovich Ouspensky (1878-1947), particularmente em "Um Novo Modelo do Universo" (A New Model of the Universe, 1931) de eterna recorrência, ou seja, de que eventos e fatos que ocorrem já ocorreram antes várias vezes e voltarão a ocorrer. O negociante workaholic Walter Ormund e sua esposa negligenciada Janet tem sorte de conseguir um quarto em uma pousada, encontrando Oliver Farrant, que se encanta por Janet. O refugiado alemão Dr. Gortler teve uma premonição sobre o triângulo amoroso, que os leva a acreditar que já passaram por aquilo antes e que podem, talvez, mudar as consequências.
  • Johnson Sobre o Jordão (Johnson Over Jordan, 1939). Robert Johnson é um negociante recentemente falecido no limbo. Repassa diversos acontecimentos de sua vida, para alcançar a Pousada do Fim do Mundo ele deve primeiro vencer a burocracia dos Escritórios Centrais da Corporação de Seguro Universal e Empréstimo e Financiamento Globais e as tentações do clube noturno Ponto Quente da Selva.
  • Um Inspetor Chama (An Inspector Calls, 1945). A peça mais bem-sucedida de Priestley, adaptada para o cinema (1954), televisão (1979, 1982), rádio e com a adaptação de Stephen Daldry ainda sendo encenada desde 1992. Em uma noite de 1912, o inspetor Goole questiona a família Birling sobre o suicídio de Eva Smith, uma mulher da ruas. O interrogatório revela que a família é responsável pela morte de Eva, expondo as várias ações -- e omissões -- com as quais a exploraram e abandonaram. O inspetor vai embora, a família investiga e descobre que não há inspetor Goole e nem ocorreu suicídio, e elucubra que talvez Eva nem exista, sendo uma colagem de várias mulheres que cada um prejudicou. Mas a peça termina com a notícia de que ocorreu um suicídio e que um inspetor será enviado à família para interrogatório.

20 de agosto de 2010

O ritmo das rochas


Os relógios atômicos hoje são os mais precisos dispositivos de medição de tempo. Antes deles, todavia, o método mais preciso que tínhamos para marcar o tempo era usando pedras.

Os cientistas franceses René Just Haüy (1743-1822) e Antoine César Becquerel (1788-1878), estudiosos da piroeletricidade (acúmulo de eletricidade causada pela mudança de temperatura), já haviam prenunciado alguma relação entre eletricidade e pressão mecânica. Os irmãos franceses Paul-Jacques (1856-1941) e Pierre Curie (1859-1906, marido de Marie Curie) aliaram a isso seus conhecimentos de estruturas cristalinas e, em 1880, provaram que cristais submetidos a pressão acumulavam eletricidade, o que foi chamado de piezoeletricidade. Os cristais que demonstraram maior piezoletricidade foram o quartzo (ou dióxido de silício, SiO2) e o sal de Rochelle (ou tartarato de sódio e potássio).
Simplificadamente, o efeito piezoelétrico -- que gera piezoeletricidade -- ocorre porque um minério não deformado tem um sistema elétrico estável, com polarização equilibrada. Ao aplicar a pressão, o minério se deforma, sua estrutura se altera, o sistema elétrico se desestabiliza e ocorrem variações de polarização, gerando um potencial elétrico. Mantida determinada pressão, o sinal elétrico é emitido sempre com a mesma periodicidade, devido à ressonância do material deformado. Mais simples ainda: apertando o cristal, ele se estica e seus pedaços se afastam e se esfregam, gerando eletricidade, e se continuar apertando, essa eletricidade continua em intervalos regulares.
O fenômeno permaneceu por algum tempo sem aplicação. O efeito piezoelétrico reverso, que faz cristais mudarem de forma ao serem submetidos a eletricidade, deduzido por Gabriel Lippman (1845-1921), foi provado pelos Curie em 1881. Aplicações só foram possíveis após 1910, quando Woldemar Voigt (1850-1919) publicou em detalhes propriedades piezoelétricas de 20 classes minerais.

Depois da primeira aplicação em 1917 em um detector ultrassônico de submarinos, foi inventado o primeiro oscilador cristalino em 1918, usando sal de Rochelle, por Alexander M. Nicholson dos Laboratórios Bell. Contudo, foi o estadunidense Walter Guyton Cady (1874-1974) que inventou o primeiro oscilador de quartzo e publicou em 1922 um artigo sobre o uso de sinais piezoelétricos como padrão de frequência para calibração. Um oscilador é um material elástico cortado em tamanho e forma de modo a regular sua frequência de ressonância natural, montado e comprimido para receber uma carga elétrica, que o deforma. Ao cessar a carga, ele retorna à sua forma original, gerando uma carga elétrica em resposta. Osciladores tornaram-se partes indispensáveis para aparelhos de controle preciso de frequência, como os de transmissão de rádio.

Em 1923 tanto o inglês David William Dye (1887-1932) como Warren Marrison dos Laboratórios Bell empregaram osciladores de quartzo para gerar intervalos precisos de tempo. Em 1927 Marrison e J. W. Horton criaram o primeiro relógio de quartzo, a princípio limitado ao uso científico. A Segunda Guerra Mundial deu importância tática ao material, com os EUA importando lascas de quartzo do Brasil para sintetização hidrotérmica de cristais mais puros. 

Seiko Astron (1969)
A tecnologia de quartzo só tornou-se barata o suficiente para difusão nos anos 60. Em 1967 dois laboratórios (dentre eles o suíço Centre Electronique Horloger) elaboraram protótipos de relógios de quartzo de pulso, mas em 1969 a japonesa Seiko lançou o primeiro, o Astron. Isso iniciou a  dominância do Japão na indústria de relógios de quartzo, com os tradicionais relojoeiros europeus e russos continuando a produzir os menos precisos relógios mecânicos.

Relógios de pulso de quartzo são atualmente os melhores marcadores de tempo portáteis, não requerendo corda e sendo de fácil manutenção. Há modelos com células solares para alimentação por energia luminosa, e mais recentemente os que convertem energia cinética do movimento em energia elétrica para o aparelho.

19 de agosto de 2010

O conto "A Maçã Elétrica"


     Sua consciência raramente errava. Ele havia parado todos os seus projetos para tentar um encontro às escuras com uma garota que encontrou pela Internet. Marcaram no “Jumper”, um café com computadores para acessar a rede, pela ironia. E a voz na cabeça de Jair falava: “Não vai dar certo”.
     A voz queria lembrar da promessa que ele estava quebrando, uma das que havia feito para si mesmo. Não iria mais tentar esse tipo de coisa, não iria se desgastar com trivialidades. Mas desde que continuou usando as salas de bate-papo na Internet, já havia traçado toda a perdição daquela promessa.
     Batia os dedos na mesa; com sua paciência estertorando, acenou para um homem no balcão, apontando para o computador ao seu lado. Logo estava imerso na rede, tentando dissipar os pensamentos. Entregou-se à concentração de que tanto se orgulhava, aquela que permitia que transformasse onde quer que estivesse em seu lugar de trabalho. Teclava, incansável, buscando recuperar o tempo que cada vez mais parecia desperdiçado.
     Depois de meia hora, que passou sem Jair ver, um guardanapo foi jogado em seu braço. Parou de digitar e o abriu. Nele estava escrito: “Não vai dar certo. Desculpa.” Jair surpreendeu-se ao ver a voz de sua consciência escrita. Num desfecho tétrico, uma frase isolada: “Não escreva”.
     Jair ainda correu até a porta do café, olhando para os lados. A multidão sem rosto ocupava as calçadas.
     Subiu as escadas, destrancou a porta do apartamento e entrou. Perturbando a escuridão, apenas um monitor aceso, exibindo uma forma tridimensional em movimento. Acendeu a luz acionando um disjuntor e o caos de sua vida desvendou-se. Quatro móveis com computadores dissecados, mas vivos, fios cobrindo o chão, armários escancarados repletos de papel, apenas um canto de sua escrivaninha aparecendo embaixo das peças eletrônicas e da papelada.
     Soltou o corpo sobre uma cadeira e as lágrimas que contivera até então. Demorou uns cinco minutos, foi ao banheiro e voltou. Respirou várias vezes e começou a organizar seus papéis, como se fossem seus pensamentos.
     Sentou novamente e fitou o monitor de seu computador de trabalho. Sobre ele, uma câmera de vídeo coberta com um guardanapo. Teclou algumas coisas, fazendo a tela voltar à vida e, do outro lado do quarto, um computador começou a trabalhar. Quando parou, Jair removeu o guardanapo. Na tela de seu monitor, surgiu a janela de um processador de textos, contendo a mensagem:
     (Adão): Vejo os homens como árvores que andam.


"A Maçã Elétrica" é o nono conto do livro e o primeiro futurista. A estória se passa predominantemente no laboratório e oficina do protagonista Jair, que monta ambientes computadorizados para sustentar inteligências artificiais de sua própria criação. A época é um futuro próximo, sem quaisquer outros avanços extraordinários além da própria área de atuação de Jair.

A noção de inteligência artificial captura a imaginação da humanidade há séculos, tendo se consolidado em sua forma mais recente graças aos avanços na tecnologia de informação. Teoriza-se que seria possível a uma máquina replicar a inteligência humana ou mesmo superá-la, mas o tema atrai outras discussões, como o que constitui a racionalidade, determinantes emocionais e espirituais além dos limites criativos do homem e as possibilidades de relações com outras inteligências, inéditas, já que até hoje só pôde se relacionar com inteligências igualmente humanas.

Ao mesmo tempo em que a tecnologia permite ao homem novas inteligências com que se relacionar, torna mais precários seus relacionamentos com outros seres humanos, fenômeno que já ocorre em nossos dias graças à cultura da comunicação online. Das BBSs dos primórdios da Internet, ao e-mail, ao puro texto dos clientes de IRC, aos programas de mensagem, às redes sociais, aos jogos MMOG, aos mundos virtuais como Second Life, multiplicam as possibilidades de anonimidade e impessoalidade, em que as pessoas se resumem nos seus perfis, sendo tratados como mais um nome na lista de contatos, mais um número na contagem de "amigos".

O conto alia ambas as noções, para contar uma estória de desesperada sensibilidade, sendo manipulada por uma criatura incompreendida pelo próprio criador.

A inspiração do conto foi quando travei um contato duradouro com Maria, uma russa de São Petersburgo. Em determinado momento de nossas conversas pelo ICQ, me assombrou a noção de que eu a considerava como uma boa amiga, e ela bem poderia ser um programa avançado rodando em algum computador conectado à Internet.

O título original do conto era "Eva". A alteração para o atual ocorreu após a revisão final, visando não apenas aludir ao Pecado Original, como também às noções de afeição, artificialidade e tecnologia -- com confessa inspiração tanto em Philip K. Dick (Do Androids Dream of Electric Sheep?, a estória em que o filme Blade Runner é baseado, além de Electric Ant) como na banda imaginária Electric Apricot, do pseudodocumentário homônimo de Les Claypool (da banda Primus).

17 de agosto de 2010

"Histórias Estranhas" de Eduardo Capistrano

"Histórias Estranhas" é uma coletânea de 13 contos do gênero fantástico, incorporando elementos sobrenaturais para contar excêntricas narrativas de imaginação, ilusão e sonho.
  1. Horribile Dictu. A incursão de um investigador sobrenatural no horror de uma família destruída pela ânsia de poder de seu patriarca. 
  2. Umbilical. Um psiquiatra recebe um paciente obeso por conta de  um distúrbio alimentar pouco usual. 
  3. Paradiso. Estranhas fortunas recaem sobre um homem que tentou cometer suicídio. 
  4. O Ovo, Quebrado. A angústia de uma mulher presa num relacionamento infeliz opera uma profunda transformação. 
  5. A Mancha. Um lixeiro é acometido de uma doença de pele de natureza peculiar. 
  6. Raptor. Um homem raptado tenta refutar as insinuações de seu misterioso sequestrador. 
  7. Superprotetor. Uma criança solitária encontra um grande amigo para suas brincadeiras. 
  8. Apostasia. Uma mulher grávida desiludida com a religião como alegoria para a perda da fé. 
  9. Dia de Todos os Santos. Um psiquiatra retorna às ruínas do asilo onde foi enfermeiro e o encontra assombrado. 
  10. Wyrd. Um homem muda-se para uma rua repleta de ocorrências estranhas.
  11. Mammon. Um homem descobre-se capaz de produzir dinheiro do nada.
  12. Pinus. Um garoto torna-se amigo do monstro do velho armário de seu avô.
  13. Cavalos. Um velho adquire um cavalo de corrida para evitar que seja sacrificado.
O livro, de 210 páginas e formato 13,5 x 21 cm, foi editado em 2006 pela Câmara Brasileira dos Jovens Escritores, do Rio de Janeiro. Seu ISBN é 85-60489-15-0.

Os últimos exemplares da primeira edição estão à venda por R$25 através das Livrarias Curitiba.

16 de agosto de 2010

Mestres do Tempo: Edgar Rice Burroughs

O nome do escritor estadunidense Edgar Rice Burroughs (1875-1950) costuma ser lembrado apenas em associação com sua criação mais notória, Tarzan dos Macacos. Contudo, a sua produção -- uma exploração monumental de diversos gêneros -- tem o Filho das Selvas como uma mera fração.

Nascido em Chicago, filho de um veterano da Guerra Civil, concluindo em 1895 o preparatório em Michigan, não foi admitido na Academia Militar de West Point, mas ainda assim alistou-se na 7ª Cavalaria no estado de Arizona. Todavia, foi dispensado em 1897 por ter sido diagnosticado com uma condição cardíaca. Trabalhou em ranchos em Idaho, empregou-se na firma do pai e casou em 1900. Em 1904, saiu da firma do pai, eventualmente voltando para Chicago. Em 1911, como vendedor de apontador de lápis, começou a escrever para revistas de pulp fiction. Sua primeira estória "Sob as Luas de Marte" foi serializada e lhe rendeu bastante dinheiro. Antes que a série terminasse, havia concluído dois romances, incluindo "Tarzan dos Macacos".

Aconselhado para não permitir que Tarzan fosse adaptado para outras mídias -- tiras de quadrinhos, rádio, filmes -- porque iriam competir entre si, Burroughs ignorou os conselhos, provando que o público apreciava o herói na forma que viesse. No fim da década de 1910 ele adquiriu um rancho na Califórnia e o batizou de "Tarzana", que virou o nome da cidade que se formou ao redor no fim dos anos 20. Em 23 fundou uma impressora de livros própria.

Após dois divórcios, Burroughs tornou-se um dos mais antigos correspondentes de guerra, residente no Havaí quando ocorreu o ataque a Pearl Harbor em 1941. Depois retornou para a Califórnia, onde faleceu de um ataque do coração.

Prolífico autor de ficção científica e fantasia, discorrerei a seguir sobre as obras de Burroughs com elementos relacionados ao Tempo: históricas, futuristas ou com desenvolvimentos anacrônicos. Com elementos e estilo recorrentes, algumas de suas estórias são tão semelhantes ao seu ciclo de séries que me permitirei apenas mencioná-las: Beyond the Farthest Star, The Moon Maid, The Cave Girl, The Eternal Lover e Jungle Girl. Da mesma forma, The Mad King, pela semelhança aos romances de Zenda de Anthony Hope.
  • A série Barsoom. Inicia com "Uma Princesa de Marte" (A Princess of Mars, 1912), contendo 11 romances. Grande parte da saga aborda o terráqueo John Carter e sua descendência. Veterano confederado da Guerra Civil, Carter dedica-se à mineração e com um parceiro encontra veios ricos em minérios. São atacados por índios que matam seu parceiro. John esconde-se em uma caverna mas sufoca com a fumaça criada por uma velha índia. Ele desperta em Barsoom, ou Marte, onde os Marcianos Vermelhos travam uma guerra feroz contra os monstruosos Verdes. Entre várias mortes aparentes que lhe permitem viajar astralmente entre os planetas, Carter alia seus próprios conhecimentos militares aos Vermelhos, ganha a mão da princesa Dejah e torna-se Senhor da Guerra de Marte. Seu filho Carthoris herda seu heroísmo, enquanto sua filha Tara e neta Llana herdam a propensão da mãe a ser capturada por vilões.
  • A série Pellucidar. Inicia com "No Núcleo da Terra" (At the Earth's Core, 1914), contendo 7 romances. Explorando o tema de Terra Oca, a saga examina a terra de Pellucidar, na superfície interna do planeta, eternamente iluminada por um sol no núcleo. Suas terras emersas equivalem aos oceanos de nossa superfície externa, e seus oceanos, às nossas terras emersas. Pellucidar é povoada não só por dinossauros, como por raças humanas e inumanas em sociedades similares às pré-históricas. O protagonista principal é David Innes, acompanhado do amigo inventor Abner Perry. Perry cria uma perfuratriz experimental que ambos testam, mas a máquina não pode ser dirigida e escava até Pellucidar. Dominada pelos Mahars -- répteis voadores com poderes psíquicos -- Innes e Perry lideram uma revolta dos humanos para derrotar os Mahars e estabelecer um império humano. Em romances posteriores, Innes é raptado pelos Korsars, invasores descendentes de piratas, com sua libertação auxiliada por Tarzan.
  • "Além de Trinta" (Beyond Thirty, 1916). No ano de 2137, a Federação Panamericana decretou que é proibido comunicação ou viagem além das longitudes 175 e 30 -- que contém o continente americano. O Tenente Jefferson Turck da Marinha comanda o Coldwater, um "aerosubmarino" que patrulha a fronteira da longitude 30. Danificado por uma tempestade, a embarcação aproxima-se da Europa. Na Inglaterra, agora chamada Grubitten, descobrem que a humanidade degenerou para a barbárie, tendo que lutar contra leões selvagens para sobreviver. Lá ele salva uma moça chamada Victory, filha do rei de uma das tribos. Juntos, descobrem que a Europa foi conquistada pelo Império Abissínio vindo da África, que trava uma guerra contra os chineses que já haviam conquistado Moscou. Fugindo dos abissínios, aliam-se aos chineses, com quem relações são restauradas e a proibição de longitudes, eliminada.
  • A série Caspak. Uma trilogia composta de "A Terra que o Tempo Esqueceu", "O Povo Que o Tempo Esqueceu" e "Saído do Abismo do Tempo" (The Land That Time Forgot, The People That Time Forgot e Out of Time's Abyss, 1918). Na Primeira Guerra Mundial,  Bowen J. Tyler e Lys La Rue acabam num submarino alemão dominado pelos aliados, desencaminhado para as águas antárticas, onde encontram Caprona (ou Caspak, para os nativos), uma terra tropical aquecida por termas gigantes habitada por dinossauros, homens de Neanderthal e outras criaturas pré-históricas com metamorfoses evolutivas ao longo da vida. Bowen e Lys fundam o Forte Dinossauro. Tom Billings monta uma expedição para salvá-los, indo para lá num avião e encontrando um par próprio na nativa Ajor, diferente de seus pares por já ter nascido humana evoluída. Bradley, que partiu do Forte no primeiro livro, protagoniza o terceiro, confrontando os homens-aves Wieroo e retornando para os EUA para casar com sua própria nativa.
  • O Fora-da-lei de Torn (The Outlaw of Torn, 1927). A história de Norman de Torn, um fora-da-lei da Inglaterra do século XIII. Seu suposto pai, o francês De Vac, havia sido o esgrimista do rei, mas seu rancor pelo antigo empregador levou-o a treinar o filho como um espadachim soberbo com ódio pela Inglaterra. Com 19 anos, Norman lidera o maior bando de ladrões da Inglaterra, envolvendo-se na guerra entre o Rei Henrique III e Simon de Montfort. Envolve-se com a filha de Montfort e eventualmente confronta os dois inimigos. Traído por De Vac, Norman descobre que ele é filho perdido do Rei Henry, que o francês havia raptado para operar sua vingança.
  • A série Vênus. Inicia com "Piratas de Vênus" (Pirates of Venus, 1934), contendo 5 romances. Criado na Índia e adepto da telepatia, Carson Napier embarca em um foguete para Marte, masnão leva a gravidade da Lua em consideração e acaba em Vênus. Chamado de Amtor pelos nativos, o planeta aquático com poucas massas de terra com vegetação gigante parece perpetuamente envolto por espessa camada de nuvens, e é lar de várias raças humanas e inumanas. Carson torna-se um pirata duas vezes, lidera uma rebelião contra a raça dos Zanis e torna-se um príncipe, também cumprindo sua cota de princesas salvas.
  • A Ressurreição de Jimber-Jaw (The Ressurrection of Jimber-Jaw, 1937). Após um pouso forçado na Sibéria, um aviador e um criogeneticista encontram o corpo de um homem das cavernas, que eles revivem. O homem pré-histórico, Kolani, é forte e inteligente, aprendendo a falar inglês. Ele não compreende que se passaram dezenas de milhares de anos, acreditando que dormiu por apenas uma noite. Ele torna-se um lutador com o nome Jim Stone, e pensa ter encontrado sua companheira em uma atriz de cinema. Desgostoso com as maneiras das mulheres, que estão agindo como os homens, ele se congela novamente num frigorífico.
  • Eu Sou Um Bárbaro (I Am a Barbarian, 1967). A estória de Britannicus, escravo por 25 anos do imperador romano Calígula, como uma forma de abordar as noções de ciência, política e sociedade romanas.
Mais sobre Burroughs em sua página oficial, na Tarzan.org e na ERBlist.com.

13 de agosto de 2010

Forjas, coturnos, trilhos e sacolas de compras

O que quatro dos mais bem-sucedidos shoppings de Curitiba tem em comum? A instalação em edifícios antigos da cidade, mantendo ao menos parcialmente as fachadas originais. Discuto abaixo cada um deles, aproveitando para fazer menção aos anos de fundação de outros centros de compra da cidade.


1983 - Mueller
Clamando o título de primeiro da cidade, perde para o Itália, fundado Centro Comercial Itália em 1982 (Aramis Millarch não me deixa mentir). A história do edifício que o abriga começa em 1878, com o suíço Gottlieb Mueller (?-1902), que estabeleceu uma ferraria na então Estrada do Assungui (atual Rua Mateus Leme), para dar assistência a veículos que faziam a conexão com os portos. O sucesso do empreendimento permitiu que comprasse os terrenos vizinhos ao longo dos anos até a "Mueller & Filhos" dominar uma quadra inteira. O falecimento de Gottlieb transmitiu o negócio aos filhos Rudolf, Oscar, João, Adolfo e Alfredo e ao genro Guilherme Lindroth, passando a chamar-se "Mueller & Irmãos". Sete anos depois, tornou-se "Mueller, Irmãos & Cia." com o ingresso de acionistas, adotando o nome de fantasia "Companhia Industrial Marumby". A ampla metalúrgica fundia e forjava ferro em produtos de ferro, de pregos a máquinas, com fundição e projetos próprios. A indústria permaneceu no edifício até sua venda em 1973/75 e mudança para a Cidade Industrial de Curitiba, até encerramento de atividades em 1987.

Os empresários Milton Gurtensten e Salomão Soifer viram em 1978 potencial para o primeiro shopping de porte da cidade, para concorrer com o Shopping Center Pinhais. Em 1981 foram iniciadas as obras. Em 31 de agosto de 1983, o Shopping Mueller foi inaugurado, com 65.818 m² e 173 lojas. Veja mais em História gravada a ferro e Memória da Indústria Paranaense.


1987 - Omar
Depois do Água Verde, inaugurado em 1984, veio o Shopping Omar, estabelecido na Casa Miró, na atual Rua Comendador Araújo, 268. Tendo esse nome por ter sido a residência do ervateiro Manuel Miró, em 19 de dezembro de 1912 a casa foi alugada e tornou-se a primeira sede da Universidade do Paraná, iniciando funcionamento em 1913 -- a primeira universidade do país, tornada Federal em 1951. Completada a construção de uma sede definitiva na Praça Santos Andrade em 1914, a Universidade mudou-se para lá. Nesse mesmo ano, foi estabelecida no edifício a Maternidade Paraná, primeira do estado e um hospital-escola de obstetrícia ligado à Universidade, dirigido por Victor Ferreira do Amaral e Silva (1862-1953). A Maternidade permaneceu ali até 1929/30, quando foi deslocada para sede própria na Avenida Iguaçu e rebatizada com o nome do diretor. 

Não encontrei destino da casa até a inauguração do Shopping em 2 de junho de 1987, que adentra pela Casa Miró e avança até conexão com a Avenida Vicente Machado, 285.


1996 - Curitiba
Após o Popular em 1992 e o PolloShop Alto da XV em 1995, veio o Curitiba, pouco antes do Crystal Plaza ainda em 1996. O edifício na atual Rua Brigadeiro Franco, 2300, diante da Praça Oswaldo Cruz, foi projetado pelo engenheiro Francisco Monteiro Tourinho (creio tratar-se de Francisco Antônio, 1837-1885) e sua construção foi concluída em 1886. A imponente fachada ocupada pelas Forças Federalistas destacava-se na pequena cidade. Nos anos 40 o campo diante da fachada foi escavado, exigindo a construção da ampla escadaria que existe até hoje. O edifício era sede do Comando da 5ª Região Militar do Exército Brasileiro, hospedando o 5º Batalhão Logístico e a 5ª Companhia de Material Bélico, mas foi vendido em 1989, com vistas a hospedar o Museu David Carneiro -- o que não ocorreu, com o Museu fechando em 1994 -- tendo a Irmauad construído e inaugurado em 25 de setembro de 1996 o Shopping Curitiba.

1997 - Estação
Inaugurado no mesmo ano que o do Jardim das Américas, o Shopping Estação ocupa construção sobre a antiga estação ferroviária central da cidade. Projetada por Michelangelo Cuniberti e inaugurada em 1885, a estação atendia a linha Curitiba-Paranaguá, servindo também a Ponta Grossa em 1891 e todo o Paraná em 1894 -- com o engenheiro Rudolf Lange adicionando-lhe mais um pavimento. Em 1909, finalmente conectou a cidade com São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1918 a administração passou a outro prédio, permitindo a construção de um salão nobre. O trem ainda era o modo preferido de acesso à cidade nos anos 20, mas nos anos 60 novas rodovias o colocaram de lado. Em 13 de novembro de 72 partiu da estação o último trem de carreira -- para Paranaguá -- com a inauguração da Rodoferroviária atual. 

O pátio foi desativado no início dos anos 90, e o Shopping inaugurado em 1997. A porção antiga do edifício abriga, além de loja, o Museu Ferroviário de Curitiba. Veja mais em Estações Ferroviárias do Brasil e Circulando por Curitiba.

12 de agosto de 2010

O conto "Mulheres e Crianças Primeiro"


      As moedas tilintaram na mão de P. Estavam quentes e sua palma, suada. Fazia calor naquele dia. O ônibus parou diante dele, as portas se abriram. P. entrou. Nunca chegaria a seu destino.
     Subiu os degraus, cumprimentou o motorista com um aceno de cabeça. O rugido da cidade abafou-se com a porta fechando. O tranco do ônibus voltando ao movimento o forçou a agarrar-se em uma das barras de alumínio. Parou diante da cobradora. Pagou a passagem e passou pela catraca. Avançou pelo interior do ônibus. O veículo estava quase vazio.
     Logo depois da catraca, na fileira de assentos atrás do motorista, uma senhora idosa estava sentada em um assento individual. Seus cabelos brancos e a pele pálida contrastavam com sua roupa, toda em tons de roxo. Através de um par de óculos imensos, preso ao pescoço por uma correntinha, seus olhos corriam pelas páginas de uma Bíblia, aberta sobre a imensa bolsa que tinha no colo. Suas mãos estavam apoiadas nas páginas, um dos dedos acompanhando a leitura. Tinha pelo menos sete anéis nas duas mãos.
     No assento duplo, atrás das primeiras portas de saída, havia um jovem casal de mãos dadas. O rapaz tinha pele morena, cabelo escuro curto e espetado com partes clareadas, e óculos escuros. A moça tinha pele clara de rubor fácil, evidente pelas maçãs do rosto avermelhadas, cabelos loiros alisados na altura dos ombros e olhos pintados. O rapaz olhava para fora do ônibus. A moça sorriu para P. quando este passou por ela, revelando um aparelho ortodôntico.
     No assento duplo virado para o fundo do ônibus, diante da segunda porta de saída, estava sentado um homem de terno. Havia uma valise aberta sobre um paletó no assento ao lado. Tinha cabelos ondulados escuros brilhando com gel, gravata afrouxada e camisa aberta no colarinho, com manchas de suor nas axilas. Era de estatura média, mas um tanto gordo, parecendo por isso ter porte maior. Lutava para abrir uma garrafa de água, quando precisou atender ao telefone celular.
     Nos fundos do ônibus, no lado correspondente ao motorista, uma mulher aborrecida, segurando uma sacola de plástico, cuidava, só com o olhar, de um menino que teimava em permanecer de pé com o ônibus em movimento. O menino devia ter seus oito anos e corria alegre de assento vazio em assento vazio, deslizando sobre cada um eles um carrinho de brinquedo, fazendo o som do motor com a boca.
     P. sentou-se nos fundos do ônibus, no lado oposto ao da mãe do menino. Cumprimentou-a com um sorriso. A mulher retornou apenas o olhar, sem sorrir.
     Voltou-se para a janela. Atravessavam uma região pouco populosa. Para o lado que olhava, via o asfalto, o meio-fio, a calçada, a passagem constante de postes de iluminação, os inúmeros fios escuros pendendo entre eles. Depois, um declive e um amplo campo gramado, que se estendia por centenas de metros até os limites de uma região arborizada, ao longe.
     Olhou para o outro lado. Lá estava a cidade. Era para onde ia. Para onde todos iam.
     Solavancos. Freios. P. viu a senhora de roxo erguer as mãos para o alto, e a moça loira erguer a cabeça exageradamente, como se estivesse sendo forçada. Ambas gritaram.
     O ônibus foi subitamente jogado para cima, parando com um grande choque. P. foi arremessado com violência contra o teto do ônibus.
     Escuridão.


"Mulheres e Crianças Primeiro" é o oitavo conto do livro, e o último a se passar no presente. A estória ocorre no interior de um ônibus.

Esta é uma das estórias que me vieram em sonho (outras incluem "Raptor", do meu primeiro livro, e "Vapor Sobre o Vermelho", que ficará para uma coletânea posterior). É raro eu sonhar, e mais raro ainda sonhar com estórias, mas ocasionalmente acontece de eu vivenciar uma estória completa. A sensação é curiosa. Quando não sou o protagonista, acompanho tão de perto que me sinto como tal. Além disso, eu experimento a estória como já tivesse passado por ela e estivesse apenas lembrando o que ocorreu, sem um ritmo ou ordem para os eventos.

Alguns sonhos me escapam tão rápido que se não alcançar papel a tempo, eu perco detalhes ou mesmo a ideia inteira. Outros ficam fixos como ideias conscientes. Esta estória se encaixa no último caso, não a anotei nem a escrevi de imediato, mas me recordava de toda a estória e eventualmente a escrevi.

É uma estória que emprega a mudança de paradigma, de forma brusca, para tratar de um tema clássico de ficção científica, aproximado do cotidiano e abordando a ilusória segurança das convenções que sustentam nossa civilização.

O título, cuja razão fica clara ao fim do conto, foi a última coisa a ser definida. Assim como o oportuno sonho com a estória, o título providencial veio da letra de Idioteque, do álbum Kid A (2000) da banda Radiohead.

10 de agosto de 2010

Um momento só (um poema)

roubaram um momento meu
que talvez nunca usaria
mas que talvez poderia
perder de um jeito só meu

roubaram um bom momento
talvez um mau momento
ou talvez um só momento
que teria ao lado seu

roubaram em um momento
um momento e só em outro
a perda percebi

roubaram-me um momento
foi só, mesmo, o momento
um momento, que perdi

9 de agosto de 2010

Escultura Temporal

O uso de tecnologias gráficas, especialmente em excesso, já foi apontada como prejudicial à qualidade artística do cinema e da fotografia, evidenciando um interesse comercial. Curiosamente, são as mesmas tecnologias que tem aproximado propagandas -- fundamentalmente comerciais -- a obras de arte. Qualifico as propagandas mencionadas aqui como arte não só como um elogio à técnica, mas também pelo verdadeiro fascínio que são capazes de inspirar.

Comerciais tem uma missão ingrata: tempo limitado para capturar a atenção, causar forte impressão e motivar à compra. Produtos e empresas aclamadas contam com indubitáveis privilégios, com gordos orçamentos para publicidade e o luxo de dispensar a motivação à compra, concentrando-se em criar algo que fique na memória do consumidor potencial -- atrelado, claro, ao nome do produto ou empresa.

Para uma lista de propagandas com elementos relacionados ao Tempo, inicio com a que inspirou o título e o tema da postagem, a Time Sculpture da Toshiba. Da agência Grey London, o comercial integra uma série que pretende quebrar recordes mundiais. Time Sculpture entrou no Guinness como "maior número de imagens móveis em uma cena composta". A música é Air War, da dupla Crystal Castles.

A Dove promoveu sua Campanha pela Real Beleza através de uma série composta por Daughters, Evolution, Onslaught e Amy, pela agência Ogilvy & Mather, dirigidos por Tim Piper. O conhecido Evolution acelera o tempo mostrando a criação da falsa beleza feminina para uma propaganda de cosméticos. Onslaught, acima, antecipa em segundos a carga de ilusões cosméticas que uma menina receberá adiante na vida.

A Philips criou uma série de propagandas para as televisões de LCD Cinema 21:9. Duas merecem menção. Parallel Lines, na data desta postagem ainda em exibição na página da série Cinema 21:9, traz cinco curtas de estilos drasticamente diferentes, contendo o mesmo diálogo. Produzidos em parceria com a Ridley Scott Associates, os filmes vão do thriller sobrenatural à ação cyberpunk.

O impressionante Carousel de abril de 2009, dirigido por Adam Berg e vencedor do Grand Prix no Festival de Publicidade de Cannes, traz dupla conexão com o Tempo. Em um instante parado no tempo, navega pelos diversos eventos de um confronto entre a polícia e uma gangue de palhaços. O título não deve-se apenas a isso, mas pelo retorno ao início, no final. Há também um "making of".

Não queria deixar de fora a técnica stop-motion, então escolhi The PEN Story, para a Linha Pen de câmeras fotográficas da Olympus. O filme exibe o registro da vida inteira de um homem, em fotografias dispostas em sequências alusivas a eventos importantes e hobbies.

7 de agosto de 2010

Tempo e Videogame (1)

Esta é uma lista de jogos de videogame que trazem elementos relacionados ao Tempo. Procurarei evitar títulos fundamentalmente educativos, como Where in Time is Carmen Sandiego, Mario's Time Machine ou Pepper's Adventure in Time.

Space Quest IV: Roger Wilco and the Time Rippers (Sierra, 1991). Integrante de uma das memoráveis séries de adventures da produtora (que inclui Leisure Suit Larry, Gabriel Knight e outras Quest, Police e King's), o jogo, com muito bom humor, faz o protagonista Roger Wilco viajar no tempo e visitar não apenas jogos -- e gráficos -- antigos da série, como hipotéticos títulos futuros.

Maniac Mansion: Day of the Tentacle (LucasArts, 1993). Talvez o melhor adventure de todos os tempos, a continuação do também excelente Maniac Mansion traz de volta o nerd (geek?) Bernard Bernouilli, ao lado da maluca Laverne e do gordo metaleiro Hoagie à residência do Dr. Fred Edison, para libertar seus amigos Green e Purple Tentacle. Ocorre que Purple Tentacle, com adições decisivas à sua anatomia causadas por exposição a dejetos tóxicos, estava preso porque queria dominar o mundo. Dr. Fred tenta enviá-los ao passado em uma máquina que inventou, mas algo dá errado...

Pac-in-Time (Namco, 1994). Pac Man é lançado no passado por um inimigo, a Ghost Witch, na época que era apenas um Pac Boy. Adaptação idêntica do jogo europeu Fury of the Furries, seu uso do personagem mais bem conhecido renovou o interesse nele, trazendo-o para um novo nicho no gênero plataforma.

Chrono Trigger (Square, 1995). O aclamado título da produtora integrou seu excelente acervo de RPGs para o Super NES, inaugurando mais uma série (ainda que curta) como Sword of Mana e Final Fantasy. Em um de seus típicos mundos tecno-fantásticos, a estória acompanha Crono, que utiliza os recursos de três sábios para viajar pelo tempo e recrutar guerreiros formidáveis de cada época para derrotar uma terrível ameaça.

The Legend of Zelda: Ocarina of Time (Nintendo, 1998). O quinto jogo de uma das mais bem-sucedidas séries de videogames, neste título o protagonista Link se vale da ocarina do título para dar pulos no tempo e vencer quebra-cabeças. A própria trama da estória inclui fundamentos temporais, na maioria das vezes indicada como o início da cronologia da série -- e também um divisor de águas de duas linhas temporais que só se fundem nos jogos gêmeos Oracle of Ages/Seasons.

Chrono Cross (Square, 1999). Um dos melhores RPGs lançados para o console, é uma "continuação temática", com total licença narrativa sobre todos os elementos, como ocorre com outras séries da Square. Enquanto Chrono Trigger lidava com viagens para o passado e futuro de um mundo, aqui o protagonista Serge visita mundos alternativos, criados por ramificações no Tempo.

The Longest Journey (Funcom, 1999). O adventure faz jus ao nome, com uma longa trama que mescla inteligentemente os gêneros de ficção-científica e fantasia. A protagonista April Ryan, residente de um mundo futurista tecnológico depois chamado de "Stark", descobre que pode visitar o mundo alternativo de "Arcadia", um mundo mágico que não avançou cientificamente. Ela se torna instrumental para deter que os mundos se reúnam e uma grande catástrofe ocorra.

The Legend of Zelda: Majora's Mask (Nintendo, 2000). O jogo imediatamente seguinte a Ocarina of Time na série. O vilão Skull Kid rouba a Ocarina do Tempo de Link e depois uma poderosa máscara de um vendedor misterioso, com a qual faz a lua cair sobre o mundo, a ser destruído em três dias. No fim dos três dias, Link consegue recuperar apenas a Ocarina, com a qual retorna para o início dos três dias. O jogo requer diversos retornos como esse, mas Link consegue manter máscaras e canções que obteve, para com os recursos acumulados tentar salvar o mundo e escapar da prisão temporal.

Braid (Jonathan Blow, 2008). O excelente jogo estilo plataforma é costumeiramente citado como exemplo para os videogames como mídia para contar estórias, do gênero que só eles podem contar. O personagem deve superar quebra-cabeças manipulando o tempo, de maneiras diferentes em cada fase: revertendo, gerando cópias temporais, atrelando o seu curso ao movimento para a esquerda ou direita ou criando uma área em que as coisas desaceleram. Ao resolver as fases, o personagem recupera memórias fragmentadas, que contam uma magnífica estória incerta, sobre relatividade no tempo e na psicologia humana.

Half-Minute Hero (Marvelous Entertainment, 2010). O jogo, que faz tributo a jogos antigos desde os gráficos pixelados, traz vilões que querem destruir o mundo com um feitiço em 30 segundos. O herói deve travar combates-relâmpago com monstros e subir de nível até ser capaz de lutar contra o vilão, com a ajuda da deusa do tempo, que cobra ouro para zerar o cronômetro enquanto preserva o nível e itens do herói. Alguns eventos nas fases requerem ações em momentos corretos ou voltas no tempo. O jogo inicial destrava outros modos, em que se joga como vilão ou princesa.

6 de agosto de 2010

O conto "Parafuso Frouxo"


      Túlio sentiu a ardência tomar conta dos dedos do pé, um fluxo de eletricidade subir pela perna e correr espinha acima. Recuou o passo sem conseguir conter um grito de dor. Quando o auge da dor se foi, tão rápido quanto aparecera, pode examinar o chão e determinar no que havia batido.
     Franziu a testa; não conseguiu definir, à primeira vista, o que era aquilo. A calçada estava partida e as placas irregulares de cimento, separadas por rachaduras inconstantes, pareciam cercar a coisa marrom. Túlio abaixou-se, massageou o pé por cima do couro do sapato e dessa posição tentou estudar melhor o objeto.
     Era a cabeça fendida de um parafuso, com parte da haste espiralada surgindo de uma placa de metal. Tudo estava tão enferrujado que o parafuso devia estar grudado no metal, mas alguma pancada — talvez a do próprio Túlio — o havia descolado, deixando visível uma fresta escura. O parafuso deveria estar sob a calçada, mas as placas do cimento, pisoteadas por incontáveis transeuntes, haviam afundado ao redor dele.
     Túlio não se deteve em demasia sobre mais um mistério urbano que parecia querer se revelar. Antes, garantiu que não havia se ferido seriamente e continuou seu caminho. Não pode deixar de se sentir um pouco tolo por ter tropeçado; mas já estava um tanto familiarizado com essa sensação em sua vida.
     Enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta surrada ao parar numa esquina movimentada. Como sempre fazia, olhou rapidamente para as outras pessoas que também aguardavam o momento de atravessar. Duas adolescentes vestindo uniformes conversavam em voz alta sobre meninos da escola. Um homem de aparência áspera e rude, vestindo calça e jaqueta jeans e uma camisa vermelha, procurou por algo nos bolsos, para em seguida acender um cigarro com os fósforos que encontrou. Uma senhora, de cabelos pintados de preto profundo, presos em um coque impecável, usava saia comprida carmesim, blusa de lã marrom muito puída e um xale de renda amarelado sobre os ombros. Ela notou Túlio observando e sorriu um sorriso solitário, cumprimentando-o com um aceno de cabeça e um piscar dos olhos. Um outro homem, muito pálido e de cabelos marrons, carregava uma bolsa bege que parecia pesada, vestia uniforme composto de sapatos, calças, camiseta e jaqueta também beges, com um cinto verde, uma cor perdida em um labirinto monocromático.
     Quando o sinal abriu, Túlio permaneceu parado. Assistiu aos outros pedestres atravessarem, as duas meninas na frente, apressadas. Sentiu o pé muito quente e latejante, mas a dor havia praticamente passado. Ele estava novamente sozinho com suas outras dores.
     Do outro lado da rua, enxergou as meninas alcançando um grupo de colegas na frente dos portões de uma escola. Atravessou a rua, seguindo adiante. Virou para trás e encontrou apenas o homem de terno, marchando timidamente atrás de si.
     Voltou-se para frente e tudo se foi, apenas mais um episódio concluído.

 

"Parafuso Frouxo" é o sétimo conto do livro, com a estória se passando no presente. O parafuso que faz o protagonista Túlio tropeçar logo no início alterna-se com ele no foco da narrativa. Brotando de uma calçada, a natureza do parafuso é incerta para todos, exceto talvez para Túlio, com quem mostrará ter uma estranha relação.

O conto, conforme se depreende do título, é antes uma exploração da irrealidade do que do concreto. Pode-se dizer mesmo que vai de encontro à realidade material, fundada em convicções e temores que se dissolvem quando um dos fundamentos da natureza humana se comprova: a mortalidade.

Túlio lança-se a uma busca por resoluções, listando os desfechos necessários e os perseguindo. A missão auto-imposta acaba por lhe apresentar a única solução real para sua vida e, se ampliado o escopo, para todas as vidas.

A inspiração do conto foi pessoal, quando dei uma topada com uma porca de uma placa de metal emergindo de uma calçada. No impulso original de escrever, mantive o elemento e dei o título de "A Porca". A ambiguidade infeliz forçou a mudança, levando o título para "Parafuso". Pretendia desde essa primeira mudança que queria fazer uma alusão maior ao tema do texto, usando a palavra, mas só decidi quando da inclusão do texto nesta coletânea.

3 de agosto de 2010

"Compensações" de Gustavo Vazquez Ramos

"Compensações", o primeiro livro de Gustavo Vazquez Ramos, é uma coletânea de quatro contos, que tive a oportunidade de acompanhar desde a elaboração dos textos individuais até a publicação. 

Considerados individualmente, cada texto aborda o tema da superação de situações e contratempos, ou a falha em superá-los, por enfoques únicos e próprios, assim como as inevitáveis consequências da superação ou falha. Reunidos, os textos criam um panorama da natureza humana, desde a ilusória fortaleza com que se opõe às frustrações cotidianas, até a inesperada continuidade, se não com o impulso de sua fragilidade, a despeito dela.

A descrição dos contos, conforme consta do livro:
Em "Da Capo", um violinista sofre um acidente que o faz perder parte de sua mão. Embora novas tecnologias ofereçam um caminho de volta, é preciso admitir o irreparável. No segundo conto, "Uma partida de xadrez", os esforços de um exímio enxadrista são retratados por meio de sua autoimposta missão de vencer um oponente desconhecido. "As estrelas de várias pontas", com influência lovecraftiana, relata os esforços de uma equipe de investigação para solucionar brutais assassinatos – inclusive a dificuldade entre diferenciar responsabilidades de obrigações e crenças de fatos. Por fim, em "Bruxelas", uma grande amizade parece incapaz de perder sua força mesmo com a distância que a separa, os insucessos do início da vida adulta, o tempo, a realidade ou econômicas viagens turísticas.
O livro foi publicado pela editora Novo Século e tem 160 páginas. Pode ser adquirido em livrarias ou direto com o autor, através de seu e-mail.

A biografia do autor, da orelha do livro:
Gustavo Vazquez Ramos nasceu em Brasília em 1980, e vive em Curitiba há muitos anos. Além de escritor, é músico. Formado em Filosofia, atualmente divide sua residência com um casal de felinos, cuja inspiração cedida sempre lhe foi fundamental. Embora use um Macintosh para escrever, prefere filmes em preto e branco e recorda-se com saudosismo da época dos telefones com disco.
Não deixe de visitar o blog de Gustavo Vazquez Ramos.

2 de agosto de 2010

Em Busca do Tempo Perdido, de Proust

É comum que escritores notórios possuam uma obra -- às vezes a única que escreveram em certo gênero ou formato -- que os consagre e imortalize, a ponto do resto de sua produção e contribuição ser esquecida pelo público geral: Victor Hugo sumarizado por seu Les Miserables, Goethe pelo Fausto ou Werther. É mais raro, todavia, o autor possuir uma só obra tão monumental, tanto em porte como em lustro, que realmente obscureça suas outras. É o caso de À la recherche du temps perdu, do romancista francês Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (1871-1922).
A obra divide-se em sete volumes, publicados originalmente ao longo de 14 anos:
  1. Du côté de chez Swann (1913) - "No Caminho de Swann";
  2. À l'ombre des jeunes filles en fleurs (1919) - "À Sombra das Raparigas em Flor";
  3. Le Côté de Guermantes (1920/21) - "O Caminho de Guermantes";
  4.  Sodome et Gomorrhe (1921/22) - "Sodoma e Gomorra"; 
  5. La Prisonnière (1923) - "A Prisioneira"; 
  6. Albertine disparue [La Fugitive] (1925) - "A Fugitiva"; e
  7.  Le Temps retrouvé (1927) - "O Tempo Redescoberto".

A obra semi-autobiográfica chegou a ser considerada o "romance moderno definitivo", se algo assim poderia existir. O volume por si só torna proibitivo um resumo satisfatório da obra como um todo. De fato, sua leitura e compreensão constitui até hoje objeto de desafio para leitores de todo o mundo. Assim, ainda que discorra sobre sua conexão apenas com o tema do Tempo, não pretendo desprezar o tratamento único que Proust deu a outros variados tópicos, em especial arte e sexualidade, que são centrais para o romance.

O tema que poderia ser indicado como principal da obra -- um dos determinantes de seu título -- é a memória. Proust, se não introduz, adota a ponto de se apropriar o conceito de memória involuntária. A memória voluntária seria aquela na qual tentamos ativamente lembrar de algo, trazendo à tona fatos ou ocorrências passadas em um esforço consciente, originário da inteligência. A memória involuntária, por sua vez, traria à tona o passado sem esse esforço, como uma reação ou reflexo da mente a alguma experiência. O principal e mais citado exemplo é o "episódio da madeleine" no final de Combray I, a primeira das quatro partes do primeiro livro, em que o narrador mergulha um biscoito -- uma madeleine -- em chá quente e é atingido por "lufadas de memória", que o recordam de seu medo de despertar no meio da noite sem saber onde está. 

A memória involuntária ressurge como um veículo para o pensamento do narrador ao longo de toda a obra. No último livro, por exemplo, enquanto Marcel aguarda que uma peça musical termine, ele experimenta três memórias involuntárias em sequência: tropeçar em pedras o lembra de um caminho irregular semelhante em Veneza; uma colher retinindo o lembra de observar com apatia a paisagem quando retornava para Paris de trem; e limpar a boca com um guardanapo evoca seu primeiro dia em Balbec.


E também no último livro é que o "episódio das madeleine" adquire sua plena força, quando revisitado por Proust (que o estabeleceu simultaneamente ao primeiro, publicado 14 anos antes) para a resolução, em que percebe a necessidade de ter vivido as decepções com a humanidade e com a sociedade nos sete volumes, para poder perceber a força das memórias em seu pensamento e em sua capacidade criativa, permitindo-o através delas destacar-se do Tempo e resgatar um momento anterior através da obra escrita que conclamava ser escrita. A obra é, assim, o corolário do raciocínio desenvolvido pelos dois Marcels, de que a força criativa da Arte triunfa sobre o poder destrutivo do Tempo.

1 de agosto de 2010

Capturando a Idade


Várias pessoas procuram registrar o avanço do tempo tirando fotos de si mesmas em intervalos regulares. Aqueles que perseveram por vários anos conseguem efetivamente um registro dos próprios envelhecimentos, por si só um feito notável mas também tendo valor médico e, nos casos mais antigos, até mesmo histórico.

O primeiro caso que merece menção é o argentino Diego Goldberg, que explica: "Em 17 de junho, a cada ano, a família passa por um ritual privado:  nos fotografamos para deter, por um momento esvanecente, a flecha do tempo que por ali passa". A foto do topo desta postagem é apenas o começo desta prática, os anos de 1976 a 1982, mas ela vem ocorrendo até hoje. Nesta página há todas as fotos, além de atalhos para outros trabalhos que se inspiraram neste.


Apesar de vários exemplos existirem, dois merecem destaque. A compilação de fotos diárias de Noah Kalina, de 2000 a 2006, foi o 28º dos 50 melhores vídeos do YouTube, segundo a revista Time. Mas o que incluí acima é do artista gráfico Dan Hanna. Seu projeto consiste em duas fotos por dia, girando o ângulo um pouco a cada dia. Ele tem feito isso desde 01/06/1991. O vídeo é uma animação das fotos até 17/09/2007, intitulado "Time of My Life".


Diversas técnicas e tecnologias recentes permitiem antecipar os efeitos da velhice sobre as pessoas. Médicos e artistas visuais se reúnem não apenas para aplicar rugas e manchas sobre a pele e tornar os cabelos cinzentos, mas projetar realisticamente a ação do tempo, com base no tipo físico, estilo de vida e antecedentes familiares da pessoa. Nesse sentido, este tutorial ensina os passos de retocamento fotográfico para o envelhecimento da atriz Katie Holmes. D'Lynn Waldron já teve suas fotos de progressão de idade publicadas na revista People e comissionadas para várias finalidades, e em sua página há diversas outros exemplos além destes: