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28 de julho de 2010

O conto "Saudações do Futuro"

      Charles Wright havia se tornado um dos habitantes daquela remota instalação científica, sem coisa ou pessoa alguma num raio de quilômetros. Sua especialização era matemática; seu trabalho era supervisionar iterações dos sistemas e nutri-los, esporadicamente, com dados e números. Não era um trabalho excitante. Charles não via a hora de terminar seu tempo ali e voltar para casa.
     Haviam descrito o lugar como um “complexo” destinado à “coleta de dados por satélite”, e a descrição do trabalho havia sido enfeitada com várias outras palavras instigantes. Tudo besteira! De fora, o tal complexo parecia apenas uma mera base ou patamar para uma torre salpicada de antenas e receptores. O interior da construção de concreto, uma verdadeira casamata, era grosseiramente dividido em quatro ambientes, dos quais dois eram destinados aos computadores, receptores e outros sistemas e equipamentos. Dos dois aposentos restantes, um deles combinava as funções de cozinha, despensa e sala de jantar; o outro acumulava as funções de dormitório e local de lazer, para Charles e seus dois parceiros de martírio.
     Um deles era Roger Wilson, um técnico tímido e nervoso, propenso a episódios de irritação. Charles sabia que Roger lutava contra a imagem de obcecado por máquinas e que dedicava boa parte de seu tempo a atividades distantes de sua ocupação, como praticar seu oboé por horas a fio, ou rabiscar poesia em um caderno que parecia remontar aos seus tempos de escola. O som do instrumento e o precário domínio que Roger tinha dele levaram à decisão, por dois votos a um, de que ele conduzisse seus treinos a algumas dezenas de metros do complexo.
     O outro se chamava Elmer Finn, vigilante do complexo e seu habitante veterano. Elmer era responsável por abastecer o lugar com provisões e outras atividades essenciais, ainda que nada científicas, como o transporte e contato com povoações. Por isso, Elmer passava longos períodos de tempo fora. A presença de Elmer era uma constante lembrança para Charles de como ele, Roger e toda aquela ciência e tecnologia pareciam não pertencer àquele lugar.
     Charles, Roger e Elmer haviam estabelecido um convívio relativamente pacífico. De modo espontâneo, aqueles três homens tão diferentes haviam chegado a um acordo, não escrito nem falado, de se aterem apenas às próprias vidas e de conversarem apenas quando necessário. Charles sabia que muitas pessoas achariam solitária aquela vida em meio a relações tensas, mas sabia também que isso não era verdade. De sua parte, diria que apreciava não ter de atender às regras sociais e padrões de conduta que o forçariam, em situações normais, a cumprimentar aqueles próximos de si e tentar conhecê-los até os limites do apropriado, em uma insana busca de semelhança entre espíritos, fadada ao fracasso.



"Saudações do Futuro" é o sexto conto do livro. A estória é ambientada no presente, em uma instalação de captação de sinais para pesquisa científica, em local remoto, mas deixado sem detalhamento maior.

Acompanhando Charles Wright, um matemático descontente que lida com a interpretação dos sinais por computadores, a narrativa trata do cientista em seu isolamento, até a detecção de um estranho sinal que causa uma revolução em sua rotina. 

O cenário permite ao conto abordar o tema de realizações da vida, de expectativas relacionadas ao potencial real ou imaginário das pessoas e das oportunidades que desaparecem tão rápido como somem.

Este trabalho motivou a temática da coletânea, tendo sido premiado em 1º lugar no concurso de contos "Servir com Arte" de 2008, da Escola de Governo do Paraná.

27 de julho de 2010

Recriando estórias frustrantes

Ao experimentar uma estória através de qualquer mídia -- assistindo a um filme ou peça, lendo um texto, ouvindo uma música, interagindo com um jogo -- as pessoas manifestam suas críticas de diversas maneiras. Eu, como sei que várias pessoas devem fazer, sempre gostei de recriar elementos das estórias que não me agradam, para tentar "consertá-las". Acabei descobrindo que é um exercício criativo excelente.

Para começar, é preciso uma estória. Note que a obra não precisa nem mesmo ser boa. De fato, ela pode ser péssima, com a recriação podendo ser feita com filmes da pior categoria, textos sofríveis ou jogos quase sem história. O que precisa haver é uma estória "sucateável", cuja premissa e desenvolvimento geral contenha elementos suficientes para serem resgatados. Assim, por pior que seja o resultado final, é necessário que a pessoa esteja no mínimo atenta à estória. 

Desligue quando o zoom out subaquático acabar.
Percebi que estórias medianas ou acima da média não se dispõem tanto a esse exercício como as que estão abaixo da média. Creio que se apreciamos uma obra, estamos dispostos a relevar pequenas omissões ou deslizes e suprimimos nosso senso crítico para aproveitar melhor os pontos positivos. Quando a julgamos ruim, entretanto, o descrédito, rejeição e mesmo indignação atiça o espírito.

Com a estória terminada, nosso juízo sobre sua qualidade depende de pontos específicos -- elementos individuais como personagens, cenários, figurino, diálogos, cenas -- e o quadro geral, que permitirá uma impressão final considerando o enredo como um todo e a coerência entre os elementos. Muitas vezes particularidades ótimas se sobrepõem a um panorama sofrível, ou o conjunto é muito melhor que a soma das partes. Mas a frustração que move esse impulso de recriação é com pontos incômodos ou com uma soma desajeitada.
Proteção de um APU de Matrix Revolutions contra robôs com tentáculos: zero.
Perceber os problemas já é por si só um exercício de análise, mas também é necessário examiná-los para determinar o que os torna problemáticos. Uma vez detectados, precisamos pensar se classificamos o elemento como problema por alguma questão pessoal, interna -- baseadas no gosto, estilo, expectativa do recriador -- ou questão da obra, externa -- baseadas em inadequação estética ou lógica ou em erro. Note que isso serve apenas para ajudar a resolver o problema; assim como uma pessoa pode rejeitar uma obra por questões pessoais, não acho que uma recriação pelos mesmos motivos deva ser contida.

A verdadeira etapa criativa inicia-se em seguida. Sabendo o que causa o problema, o recriador pode repensar o que o incomoda. Não basta apenas tirar o problema, repará-lo e colocá-lo de volta. O desafio está não só em tornar o elemento melhor, mas também fazer a estória suportar a alteração. Se uma ideia parecer boa demais para a estória, mas uma ou outra coisa entra em conflito com ela, é interessante repensar essas outras coisas também.

Objeto perfeito para o exercício.
Eu me proponho a tentar primeiro as menores alterações possíveis, visando manter o quanto for possível da integridade original da obra. Só imagino alterações substanciais se não há alternativa. Mas é elegante quando uma estória aparentemente defeituosa, frustrante por algum motivo, resolve-se com a inclusão de uma fala, uma cena, às vezes um olhar de um personagem, uma vírgula em um texto. Às vezes bastaria uma insinuação, para abrir uma possibilidade que dissolve toda nossa frustração.

Em suma, considero esse exercício de repensar estórias extremamente valioso para não só apurar nosso senso crítico e analítico e adequação estética e estilística mas, sobretudo, nossa capacidade criativa. Pelo menos, é também divertido e otimista, procurando graça até nas piores estórias.

26 de julho de 2010

Discos sobre o Tempo (1)

Esta é uma lista de álbuns selecionados com temas ou peculiaridades relacionadas ao tempo.


Time Out - The Dave Brubeck Quartet (1959). O título e tema deste disco é o uso de marcas de tempo ou variações no compasso não convencionais para o jazz da época. Como é típico para obras visionárias, sofreu com críticas negativas apenas para ser considerado uma obra-pimia do jazz, um dos mais conhecidos e vendidos discos do gênero de todos os tempos. Blue Rondo à la Turk que me perdoe, mas a escolha da faixa é fácil. Faixa em destaque: 3 - Take Five.


Days of Future Passed - The Moody Blues (1967). O segundo álbum da banda é o primeiro de uma série de álbuns conceituais, que marcariam a mudança do tom R&B da banda para o que a tornaria uma das precursoras do rock progressivo. As músicas acompanham a vida de um homem comum ao longo de um dia inteiro, gravadas lado a lado com a London Festival Orchestra. Faixa em destaque: 5 - Tuesday Afternoon.


I Robot - Alan Parsons Project (1977). Segundo álbum da dupla Parsons/Woolfson, inspirado na obra quase homônima de Isaac Asimov (1920-1992). Seria diretamente baseado nos textos se não fossem questões de direitos, fazendo a abordagem de robôs do álbum ser mais genérica. Faixa destaque: 2 - I Wouldn't Want to be Like You.


Time - Electric Light Orchestra (1981). Em seu décimo álbum -- depois da trilha sonora para o filme Xanadu (1980) -- a banda afasta-se da influência da música disco para um som mais progressivo e new wave -- reminiscente do sexto (New World Record) e sétimo (Out of the Blue) álbum da banda. Apesar da influência do álbum, Jeff Lynne admitiria mais tarde que as músicas foram gravadas para atender a obrigações contratuais. Faixa em destaque: 12 - Hold on Tight.


Dave Clark's Time - Vários artistas (1986). Álbum conceito do musical Time, derivado de outro de 1970 intitulado The Time Lord pesadamente influenciado pela série de televisão Doctor Who. Pérola obscura do qual participaram, dentre outros, Burt Bacharach, Richard Carpenter, Julian Lennon, Freddie Mercury, Dusty Springfield e Dionne Warwick. Pré-filmado, Sir Lawrence Olivier tinha falas no musical e na música tema. Faixa em destaque: Theme from Time.


Somewhere in Time - Iron Maiden (1986). A arte de capa do sexto álbum havia sido feita originalmente para uma biografia da banda, e faz referência a músicas e álbuns que o precederam. Foi o primeiro álbum em que usaram sintetizadores, razão pela qual Bruce Dickinson disse depois não gostar dele. Faixa em destaque: 1 - Caught Somewhere in Time.


About Time - Pennywise (1995). O terceiro álbum da banda punk californiana trata do controle que temos que ter sobre o tempo, para que ele não nos controle. Último álbum gravado com o baixista Jason Thirsk antes de seu suicídio, e primeiro álbum da banda a emplacar nas paradas musicais dos EUA e Europa. Faixa de destaque: 12 - Killing Time.


The Time Machine - Alan Parsons (1999). Terceiro álbum solo de Alan Parsons, explorando temas de viagem no tempo, controle do tempo e memórias, rejeitados pelo parceiro Eric Woolfson durante a elaboração do álbum I, Robot, quando na banda Alan Parsons Project. Curiosamente, ele é creditado como produtor do disco, deixando os méritos instrumentais e de letra para os vários músicos envolvidos. Faixa em destaque: 3 - Out of the Blue.

24 de julho de 2010

Frases latinas sobre o Tempo

"TEMPUS EDAX RERUM"

Mais do que ad infinitum, ex tempore e in memoriam, segue uma lista de expressões latinas referentes ao tempo, com uma breve explicação de sua curiosidade.

a Deucalione. "Desde Deucalião", significando "há muito tempo atrás". Na mitologia grega, Zeus enfurece-se com os Pelasgos  e resolve destruir a humanidade com um dilúvio. Avisado pelo pai Prometeu, Deucalião e sua esposa Pirra constróem uma arca e sobrevivem. Fazendo oferendas no Oráculo de Têmis, são instruídos a "jogar os ossos de sua mãe por cima dos ombros" para fazer a humanidade ressurgir. Como a mãe de tudo é a Terra, o casal joga pedras: as de Deucalião tornam-se homens e as de Pirra, mulheres. Deucalião é figura equivalente ao Noé bíblico, como os mesopotâmicos Ziudsura, Atrahasis e Utnapishtim antes deles.
ab urbe condita ou anno urbis conditae. "Desde a cidade fundada" ou "Ano de fundação da cidade", para marcar datas em relação à fundação de Roma em 753 AEC.
ad kalendas graecas. "Nas calendas gregas". A calenda era o primeiro dia do mês para os romanos, e é a origem da palavra "calendário". Mas os gregos não tinham calendas, assim o termo equivale a dizer "No dia de São Nunca".
ad multos annos! "Por muitos anos!", como desejo de longa vida.
ad perpetuam rei memoriam. "Pela perpétua memória da coisa". Empregado em bulas papais contendo doutrina, inscrições comemorativas e em procedimentos probatórios jurídicos para indicar informações que devem ser lembrados ou guardados para o futuro.
amor fati. "Amor ao destino". Frase cunhada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e explicada por ele em sua obra Ecce Homo (1888): "Minha fórmula para a grandeza num ser humano é amor fati: que queira nada diferente, no futuro, no passado, em toda a eternidade. Não apenas suportar o que é inevitável, muito menos ocultá-lo -- todo idealismo é falsidade na face do que é inevitável -- mas amá-lo". Opõe-se à noção da frase memento mori.
annus mirabilis. "Ano maravilhoso". Empregado em referência ao ano de 1666, em que o cientista inglês Isaac Newton (1643-1727) fez descobertas influentes sobre temas diversos como gravitação, ótica, cálculo e movimento. Desde então é reutilizado em alusão a descobertas proporcionais, como as de 1905 pelo cientista alemão Albert Einstein (1879-1955).
annus terribilis. "Ano terrível". O ano de 1348, em que a Peste Negra começou na Europa.
ars longa, vita brevis. "A arte é longa, a vida breve". Usada fora de contexto para exaltar a expressão artística, a frase na verdade inicia um aforisma de Hipócrates: Ars longa, vita brevis, occasio praeceps, experimentum periculosum, iudicium difficile. "A arte é longa, a vida breve, a oportunidade fugidia, o experimento perigoso, o juízo difícil", referindo-se à arte da qual é considerada o pai, a medicina, para cujo entendimento a vida parece breve.
carpe diem. A famosa frase traduz-se literalmente para "colha o dia", como se colhem flores. 
A exortação para aproveitar o presente é do poeta romano Horácio (65-8 AEC), constando no livro primeiro de suas Odes, destinado a uma mulher que preocupa-se com o futuro. Minha tradução do trecho inteiro é: 

Não pergunte, saber é proibido, qual o meu, qual o seu
fim dado pelos deuses, Leuconoe, nem os (adivinhos) Babilônios
provoque por números. É melhor, o que quer que tenha sido, suporte.
Se (forem) muitos invernos ou se te conceder Júpiter o último,
que agora choca-se debilitado contra as rochas do mar
Tirreno: torne-se sábio, beba vinho e em um espaço breve
contenha uma longa espera. Enquanto falamos, fugidia a vida
é: colha o dia com a mínima crença no seguinte.

contemptus saeculi. "Desprezo pelos séculos", significando "rejeição ao secular" em alusão à vida monástica. A palavra "secular", tendo "temporal" como equivalente, refere-se ao que diz respeito ao nosso século ou tempo, oposto à religião fundada em tradições passadas e elucubrações sobre o pós-vida.
cras amet qui nunquam amavit quique amavit, cras amet. "Amanhã ame quem nunca amou; quem amou, ame amanhã". De Pervigilium Veneris, "Vigília de Vênus", um poema de autoria incerta que descreve o despertar da natureza através da deusa romana do amor e da beleza.
damnatio memoriae. "Danação da memória", pena romana imposta a traidores e outros criminosos que consistia na eliminação de todos os registros da existência da pessoa.
dies irae. "Dia da ira". Na escatologia cristã, refere-se ao Dia do Juízo Final, em que Deus manifestará sua ira. É também o nome de um hino atribuído a Tomás de Celano (1200-1260/70), que tornou-se a Sequência da Missa dos Mortos, ou Réquiem, da Igreja Católica.
disce quasi semper victurus vive quasi cras moriturus. "Aprenda como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã". Atribuída a São Edmundo Rich (1175-1240).
esto perpetua. "Seja perpétua". Em seu leito de morte, o canonista e historiador veneziano Fra Paolo Sarpi (1552-1623) ditou três cartas e disse a frase como suas últimas palavras, dirigida à cidade que amou e à qual dedicou a vida.
gutta cavat lapidem. "Gotas cavam pedra". A origem de nossa expressão "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura" está no quarto livro da Epistulae ex Ponto (do poeta romano Ovídio (43 AEC-17/18 EC).
haec olim meminisse iuvabit. "Isto um dia será lembrado com prazer", equivalendo ao nosso "um dia vamos olhar para trás e rir disso tudo". A frase é da Eneida do poeta romano Virgílio (70-19 AEC).
historia vitae magistra. "A História é mestra da vida". Frase do político romano Cícero (106-43 AEC).
horas non numero nisi serenas. "Horas não conto, a não ser que sejam ensolaradas". Inscrição de relógios de sol.
Idus Martiae. "Idos de Março". O "ido" no calendário romano era o dia da lua cheia, no meio do mês. No ido de março de 44 AEC, o imperador Júlio César foi morto a facadas por notória conspiração de que participou seu protegido Brutus, alvo da expressão et tu, Brutus, "e você, Brutus". A expressão Idus Martiae, assim, é usada para evocar desgraça iminente.
laudator temporis acti. "Louvador do tempo passado". Diz-se daqueles que se apegam aos valores de épocas passadas. Frase de Horácio, em sua Ars Poetica.
memento mori. "Lembre-se da morte", tema comum da arte cristã e ditado da Ordem dos Trapistas, destinado a evocar a certeza da mortalidade.
mors certa, hora incerta. "A morte é certa, mas sua hora incerta".
o tempora, o mores! "Ó tempos, ó modos!", já lamentava Cícero em sua época.
omnes vulnerant, postuma necat ou omnes feriunt, ultima necat. "Todas ferem, a última mata". Inscrição de relógios.
quo usque tandem? "Até quando?", pergunta de Cícero em Ad Catilinam, dirigida ao conspirador Lúcio Catilina que visava derrubar a República romana.
stat sua cuique dies. "A cada um seu dia", ou seja, "o momento chega para todos". A frase de oportunismo e fatalismo é da Eneida de Virgílio.
tempora mutantur et nos mutamur in illis. "O tempo muda e nós mudamos com ele". Frase que remonta até o filósofo grego Heráclito de Éfeso (535-475 AEC).
tempus edax rerum. "Tempo devorador das coisas". De Ovídio.
tempus fugit e tempus volat hora fugit. "O tempo foge" e "O tempo voa, a hora foge". Inscrições típicas de relógios.
tempus rerum imperator. "Tempo imperador das coisas".
terminat hora diem; terminat auctor opus. "A hora termina o dia; o autor termina a obra". Frase final da peça "Doutor Fausto" (1604), do escritor inglês Christopher Marlowe (1564-1593).
velocius quam asparagi coquantur. "Mais rápido que aspargos cozinhando". Atribuído ao imperador romano Augusto (63 AEC-14 EC).

22 de julho de 2010

O conto "Entre Segundos"

 
     Meus olhos cheios de lágrimas estão fixos na figura decrépita na cama. No rosto do velho, um sorriso. Um sorriso imóvel. Como todo o resto. Mesmo assim, eu não queria deixá-lo ir.
     Quando era menino, em uma noite de brincadeira particularmente divertida, ficou tarde e meu pai me chamou para ir dormir. Naturalmente, eu não quis. Não houve argumento que o convencesse, todavia, e logo eu estava na cama, de braços cruzados, com ele colocando as cobertas em cima de mim. “Não é justo”, resmunguei, fazendo bico, “quando a gente está no melhor da brincadeira, é hora de dormir. O tempo acaba tão rápido”. Meu pai parou, hesitou e balançou a cabeça, dizendo apenas que “você tem que se organizar, só isso”.
     Reclamei, então: “Ah. Queria mais tempo pra brincar”. Meu pai ergueu as sobrancelhas, olhou sobre os ombros para ter certeza que minha mãe não estivesse por perto e, chegando bem pertinho, me cochichou: “Se não contar para a sua mãe, eu te ensino como”. Claro que eu concordei — os olhos brilhando com a promessa.
     “Você tem que ficar sem se mexer, respirar bem fundo e prender a respiração, apertar os olhos bem forte, cruzar o máximo de dedos que você puder e se encolher o máximo que conseguir. Então o tempo vai parar, enquanto você ficar assim. E se você praticar bastante, não vai precisar fazer mais nada disso.”
     Ele me deu um beijo na testa, apagou a luz e foi dormir. Eu comecei a praticar naquela mesma noite. Olhei a hora no meu rádio-relógio e fiz tudo o que meu pai me disse. Logo descobri que não conseguia segurar o fôlego nem por um minuto sequer. O tempo realmente parecia não passar naquela posição desconfortável, mas eu precisava saber.
     No dia seguinte, durante o almoço, perguntei para meu pai como faria para saber se o tempo realmente estava parado. Mais tarde naquele dia, ele me mostrou como eu fazia para ligar a função de cronômetro do rádio-relógio. Naquela noite, antes de dormir, eu acionei o relógio e assumi a desengonçada posição para parar o tempo. Fechei os olhos com o relógio marcando sete segundos.
     Contei em silêncio o tempo em que conseguia prender a respiração. Encolhido daquele jeito, não aguentava mais do que trinta segundos. Soltando o ar dos pulmões, abri os olhos para saber se o cronômetro havia corrido durante aquele tempo. Já suspeitava que meu pai estava me enganando, como fazem os adultos para burlar a manha infantil com alguma estória que estimulasse a imaginação.


"Entre Segundos" é o quinto conto do livro e o segundo a se passar em épocas modernas. A estória se passa no presente, sem local definido.

É um dos dois contos escritos visando o tema do tempo com o fim de integrar a coletânea (o outro sendo "Ouroboros"), os demais tendo sido escritos antes do tema ser estabelecido. Sua conexão com o tema do Tempo é dupla: o protagonista deseja a capacidade de parar o tempo e ela lhe é ensinada pelo pai, em um contato entre gerações que é fundamental para a estória.

O conto não apenas é meu tratamento do desejo de colocar-se alheio ao tempo -- tão antigo, decerto, como o próprio conceito de tempo -- mas também de tecer pensamentos sobre capacidades sobrehumanas que eventualmente a humanidade desejou ter. Já havia feito tentativas nesse sentido com do conto "Mammon", de meu primeiro livro, em que o protagonista desenvolve uma capacidade também muito desejada pela maioria das pessoas.

O título não é apenas uma alusão ao que o protagonista almeja fazer, mas também a algo que ele aprende e que é o desfecho da narrativa.