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27 de julho de 2010

Recriando estórias frustrantes

Ao experimentar uma estória através de qualquer mídia -- assistindo a um filme ou peça, lendo um texto, ouvindo uma música, interagindo com um jogo -- as pessoas manifestam suas críticas de diversas maneiras. Eu, como sei que várias pessoas devem fazer, sempre gostei de recriar elementos das estórias que não me agradam, para tentar "consertá-las". Acabei descobrindo que é um exercício criativo excelente.

Para começar, é preciso uma estória. Note que a obra não precisa nem mesmo ser boa. De fato, ela pode ser péssima, com a recriação podendo ser feita com filmes da pior categoria, textos sofríveis ou jogos quase sem história. O que precisa haver é uma estória "sucateável", cuja premissa e desenvolvimento geral contenha elementos suficientes para serem resgatados. Assim, por pior que seja o resultado final, é necessário que a pessoa esteja no mínimo atenta à estória. 

Desligue quando o zoom out subaquático acabar.
Percebi que estórias medianas ou acima da média não se dispõem tanto a esse exercício como as que estão abaixo da média. Creio que se apreciamos uma obra, estamos dispostos a relevar pequenas omissões ou deslizes e suprimimos nosso senso crítico para aproveitar melhor os pontos positivos. Quando a julgamos ruim, entretanto, o descrédito, rejeição e mesmo indignação atiça o espírito.

Com a estória terminada, nosso juízo sobre sua qualidade depende de pontos específicos -- elementos individuais como personagens, cenários, figurino, diálogos, cenas -- e o quadro geral, que permitirá uma impressão final considerando o enredo como um todo e a coerência entre os elementos. Muitas vezes particularidades ótimas se sobrepõem a um panorama sofrível, ou o conjunto é muito melhor que a soma das partes. Mas a frustração que move esse impulso de recriação é com pontos incômodos ou com uma soma desajeitada.
Proteção de um APU de Matrix Revolutions contra robôs com tentáculos: zero.
Perceber os problemas já é por si só um exercício de análise, mas também é necessário examiná-los para determinar o que os torna problemáticos. Uma vez detectados, precisamos pensar se classificamos o elemento como problema por alguma questão pessoal, interna -- baseadas no gosto, estilo, expectativa do recriador -- ou questão da obra, externa -- baseadas em inadequação estética ou lógica ou em erro. Note que isso serve apenas para ajudar a resolver o problema; assim como uma pessoa pode rejeitar uma obra por questões pessoais, não acho que uma recriação pelos mesmos motivos deva ser contida.

A verdadeira etapa criativa inicia-se em seguida. Sabendo o que causa o problema, o recriador pode repensar o que o incomoda. Não basta apenas tirar o problema, repará-lo e colocá-lo de volta. O desafio está não só em tornar o elemento melhor, mas também fazer a estória suportar a alteração. Se uma ideia parecer boa demais para a estória, mas uma ou outra coisa entra em conflito com ela, é interessante repensar essas outras coisas também.

Objeto perfeito para o exercício.
Eu me proponho a tentar primeiro as menores alterações possíveis, visando manter o quanto for possível da integridade original da obra. Só imagino alterações substanciais se não há alternativa. Mas é elegante quando uma estória aparentemente defeituosa, frustrante por algum motivo, resolve-se com a inclusão de uma fala, uma cena, às vezes um olhar de um personagem, uma vírgula em um texto. Às vezes bastaria uma insinuação, para abrir uma possibilidade que dissolve toda nossa frustração.

Em suma, considero esse exercício de repensar estórias extremamente valioso para não só apurar nosso senso crítico e analítico e adequação estética e estilística mas, sobretudo, nossa capacidade criativa. Pelo menos, é também divertido e otimista, procurando graça até nas piores estórias.

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