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2 de agosto de 2010

Em Busca do Tempo Perdido, de Proust

É comum que escritores notórios possuam uma obra -- às vezes a única que escreveram em certo gênero ou formato -- que os consagre e imortalize, a ponto do resto de sua produção e contribuição ser esquecida pelo público geral: Victor Hugo sumarizado por seu Les Miserables, Goethe pelo Fausto ou Werther. É mais raro, todavia, o autor possuir uma só obra tão monumental, tanto em porte como em lustro, que realmente obscureça suas outras. É o caso de À la recherche du temps perdu, do romancista francês Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (1871-1922).
A obra divide-se em sete volumes, publicados originalmente ao longo de 14 anos:
  1. Du côté de chez Swann (1913) - "No Caminho de Swann";
  2. À l'ombre des jeunes filles en fleurs (1919) - "À Sombra das Raparigas em Flor";
  3. Le Côté de Guermantes (1920/21) - "O Caminho de Guermantes";
  4.  Sodome et Gomorrhe (1921/22) - "Sodoma e Gomorra"; 
  5. La Prisonnière (1923) - "A Prisioneira"; 
  6. Albertine disparue [La Fugitive] (1925) - "A Fugitiva"; e
  7.  Le Temps retrouvé (1927) - "O Tempo Redescoberto".

A obra semi-autobiográfica chegou a ser considerada o "romance moderno definitivo", se algo assim poderia existir. O volume por si só torna proibitivo um resumo satisfatório da obra como um todo. De fato, sua leitura e compreensão constitui até hoje objeto de desafio para leitores de todo o mundo. Assim, ainda que discorra sobre sua conexão apenas com o tema do Tempo, não pretendo desprezar o tratamento único que Proust deu a outros variados tópicos, em especial arte e sexualidade, que são centrais para o romance.

O tema que poderia ser indicado como principal da obra -- um dos determinantes de seu título -- é a memória. Proust, se não introduz, adota a ponto de se apropriar o conceito de memória involuntária. A memória voluntária seria aquela na qual tentamos ativamente lembrar de algo, trazendo à tona fatos ou ocorrências passadas em um esforço consciente, originário da inteligência. A memória involuntária, por sua vez, traria à tona o passado sem esse esforço, como uma reação ou reflexo da mente a alguma experiência. O principal e mais citado exemplo é o "episódio da madeleine" no final de Combray I, a primeira das quatro partes do primeiro livro, em que o narrador mergulha um biscoito -- uma madeleine -- em chá quente e é atingido por "lufadas de memória", que o recordam de seu medo de despertar no meio da noite sem saber onde está. 

A memória involuntária ressurge como um veículo para o pensamento do narrador ao longo de toda a obra. No último livro, por exemplo, enquanto Marcel aguarda que uma peça musical termine, ele experimenta três memórias involuntárias em sequência: tropeçar em pedras o lembra de um caminho irregular semelhante em Veneza; uma colher retinindo o lembra de observar com apatia a paisagem quando retornava para Paris de trem; e limpar a boca com um guardanapo evoca seu primeiro dia em Balbec.


E também no último livro é que o "episódio das madeleine" adquire sua plena força, quando revisitado por Proust (que o estabeleceu simultaneamente ao primeiro, publicado 14 anos antes) para a resolução, em que percebe a necessidade de ter vivido as decepções com a humanidade e com a sociedade nos sete volumes, para poder perceber a força das memórias em seu pensamento e em sua capacidade criativa, permitindo-o através delas destacar-se do Tempo e resgatar um momento anterior através da obra escrita que conclamava ser escrita. A obra é, assim, o corolário do raciocínio desenvolvido pelos dois Marcels, de que a força criativa da Arte triunfa sobre o poder destrutivo do Tempo.

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