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12 de agosto de 2010

O conto "Mulheres e Crianças Primeiro"


      As moedas tilintaram na mão de P. Estavam quentes e sua palma, suada. Fazia calor naquele dia. O ônibus parou diante dele, as portas se abriram. P. entrou. Nunca chegaria a seu destino.
     Subiu os degraus, cumprimentou o motorista com um aceno de cabeça. O rugido da cidade abafou-se com a porta fechando. O tranco do ônibus voltando ao movimento o forçou a agarrar-se em uma das barras de alumínio. Parou diante da cobradora. Pagou a passagem e passou pela catraca. Avançou pelo interior do ônibus. O veículo estava quase vazio.
     Logo depois da catraca, na fileira de assentos atrás do motorista, uma senhora idosa estava sentada em um assento individual. Seus cabelos brancos e a pele pálida contrastavam com sua roupa, toda em tons de roxo. Através de um par de óculos imensos, preso ao pescoço por uma correntinha, seus olhos corriam pelas páginas de uma Bíblia, aberta sobre a imensa bolsa que tinha no colo. Suas mãos estavam apoiadas nas páginas, um dos dedos acompanhando a leitura. Tinha pelo menos sete anéis nas duas mãos.
     No assento duplo, atrás das primeiras portas de saída, havia um jovem casal de mãos dadas. O rapaz tinha pele morena, cabelo escuro curto e espetado com partes clareadas, e óculos escuros. A moça tinha pele clara de rubor fácil, evidente pelas maçãs do rosto avermelhadas, cabelos loiros alisados na altura dos ombros e olhos pintados. O rapaz olhava para fora do ônibus. A moça sorriu para P. quando este passou por ela, revelando um aparelho ortodôntico.
     No assento duplo virado para o fundo do ônibus, diante da segunda porta de saída, estava sentado um homem de terno. Havia uma valise aberta sobre um paletó no assento ao lado. Tinha cabelos ondulados escuros brilhando com gel, gravata afrouxada e camisa aberta no colarinho, com manchas de suor nas axilas. Era de estatura média, mas um tanto gordo, parecendo por isso ter porte maior. Lutava para abrir uma garrafa de água, quando precisou atender ao telefone celular.
     Nos fundos do ônibus, no lado correspondente ao motorista, uma mulher aborrecida, segurando uma sacola de plástico, cuidava, só com o olhar, de um menino que teimava em permanecer de pé com o ônibus em movimento. O menino devia ter seus oito anos e corria alegre de assento vazio em assento vazio, deslizando sobre cada um eles um carrinho de brinquedo, fazendo o som do motor com a boca.
     P. sentou-se nos fundos do ônibus, no lado oposto ao da mãe do menino. Cumprimentou-a com um sorriso. A mulher retornou apenas o olhar, sem sorrir.
     Voltou-se para a janela. Atravessavam uma região pouco populosa. Para o lado que olhava, via o asfalto, o meio-fio, a calçada, a passagem constante de postes de iluminação, os inúmeros fios escuros pendendo entre eles. Depois, um declive e um amplo campo gramado, que se estendia por centenas de metros até os limites de uma região arborizada, ao longe.
     Olhou para o outro lado. Lá estava a cidade. Era para onde ia. Para onde todos iam.
     Solavancos. Freios. P. viu a senhora de roxo erguer as mãos para o alto, e a moça loira erguer a cabeça exageradamente, como se estivesse sendo forçada. Ambas gritaram.
     O ônibus foi subitamente jogado para cima, parando com um grande choque. P. foi arremessado com violência contra o teto do ônibus.
     Escuridão.


"Mulheres e Crianças Primeiro" é o oitavo conto do livro, e o último a se passar no presente. A estória ocorre no interior de um ônibus.

Esta é uma das estórias que me vieram em sonho (outras incluem "Raptor", do meu primeiro livro, e "Vapor Sobre o Vermelho", que ficará para uma coletânea posterior). É raro eu sonhar, e mais raro ainda sonhar com estórias, mas ocasionalmente acontece de eu vivenciar uma estória completa. A sensação é curiosa. Quando não sou o protagonista, acompanho tão de perto que me sinto como tal. Além disso, eu experimento a estória como já tivesse passado por ela e estivesse apenas lembrando o que ocorreu, sem um ritmo ou ordem para os eventos.

Alguns sonhos me escapam tão rápido que se não alcançar papel a tempo, eu perco detalhes ou mesmo a ideia inteira. Outros ficam fixos como ideias conscientes. Esta estória se encaixa no último caso, não a anotei nem a escrevi de imediato, mas me recordava de toda a estória e eventualmente a escrevi.

É uma estória que emprega a mudança de paradigma, de forma brusca, para tratar de um tema clássico de ficção científica, aproximado do cotidiano e abordando a ilusória segurança das convenções que sustentam nossa civilização.

O título, cuja razão fica clara ao fim do conto, foi a última coisa a ser definida. Assim como o oportuno sonho com a estória, o título providencial veio da letra de Idioteque, do álbum Kid A (2000) da banda Radiohead.

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