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10 de junho de 2010

Bastante, não pouco


Sendo desde a infância um apreciador de Edgar Allan Poe, pode parecer inusitado que não procurei o conto como formato inicial, tendo antes enveredado por uma tentativa de romance malfadada. Analisando retroativamente, vejo como o tal romance era na verdade composto de vários contos entrelaçados, e portanto descaracterizados. Eu não sabia disso na época, fui me descobrir como contista apenas anos depois, e me definir como tal ainda mais tarde.

Não segui, portanto, Poe como o faria um acadêmico ou um discípulo. Lembro-me de estar frustrado com aquela história "comprida demais" e sentado para apenas contar uma outra história "logo de uma vez". O objetivo impulsionou a narrativa, gerou apenas os elementos suficientes, descartando os elementos supérfluos, visando apenas emergir realizado ao fim do texto. E emergiu, propiciando minha primeira percepção das verdadeiras qualidades do conto.

Considero infeliz a noção de que o conto está sendo revitalizado não por tais qualidades, mas pela pressa que caracteriza cada vez mais nossos tempos modernos. O risco é do interesse no conto ser utilitarista como jantares prontos de microondas, bronzeamento em spray ou o homeopático Twitter. A noção do conto, então, já nublada pela própria natureza, fica ainda mais prejudicada, atrelada meramente ao seu tamanho. O utilitarismo então reincide em termos de quantia: mais significa melhor, logo um romance é melhor que um conto.


O tratamento acadêmico pode ser mencionado mas será em vão. A questão da extensão do texto, não é dispensável, do contrário, é fator essencial mas por outros motivos. O definidor do conto moderno é Edgar Allan Poe (1809-1849), que tratou a extensão antes de qualquer outro fator em sua "Filosofia da composição" (1846): "A consideração inicial é aquela da extensão. Se qualquer obra literária é longa demais para ser lida em uma sentada, nós devemos nos contentar e dispensar o efeito imensamente importante derivado da unidade de impressão - porque, se duas sentadas forem requeridas, os problemas do mundo interferem, e tudo semelhante a totalidade é destruído de uma vez".

Poe defendia o que chamou de unidade de efeito ou impressão, a força que o texto, ao longo de uma única leitura, fornece ao efeito final que é seu objetivo. Em sua resenha sobre a obra "Twice-told Tales" (1837/42) de Nathaniel Hawthorne (1804-1864), Poe escreve: "Precisamos apenas dizer aqui, sobre este tópico, que, em quase todas as classes de composição, a unidade de efeito ou impressão é um ponto da maior importância. É claro, ademais, que esta unidade não pode ser exaustivamente preservada em produções cuja apreciação não possa ser completada em uma sentada. Nós podemos continuar a leitura de uma composição em prosa, pela natureza mesma da prosa em si, por muito mais tempo do que podemos perseverar, por qualquer bom propósito, na apreciação de um poema". Conclui adiante: "A brevidade extrema vai degenerar no epigramatismo; mas o pecado do comprimento extremo é ainda mais imperdoável. In medio tutissimus ibis". A frase latina significa: "no meio viaja-se com a maior segurança".


Anton Tchekhov (1860-1904) concorda no aspecto da brevidade mas oferece um contraponto ao modelo de Poe, no sentido de gerar o efeito ou impressão não no final do conto, mas ao longo dele, diminuindo o tom no final muitas vezes com ocorrências triviais. Isto não remove o efeito como objetivo do conto, mas deslocar o clímax do final faz com que o texto reconduza à normalidade que havia antes do texto, salientando sua condição de passageiro. Tchekhov também divergia de Poe no sentido de que para alcançar o efeito do texto, considerava importante o que era deixado de fora. Em carta de 1º de abril de 1890 para Alexey Suvorin, ele diz: "Veja, para representar ladrões de cavalo em 700 linhas eu devo a todo tempo falar e pensar no tom deles e sentir no espírito deles, por outro lado, se introduzir subjetividade, a imagem se torna borrada e a estória não vai ser compacta como todos os contos deveriam ser. Quando escrevo eu conto inteiramente com o leitor adicionar por si mesmo os elementos subjetivos que faltam à estória". Uma frase indicada como sendo de uma carta dele de 1888 a Leontyiev Shchleglov (não encontrei esta carta) é: "nos contos é melhor não dizer o suficiente do que dizer demais". Manifestação máxima disso talvez seja a prática de Tchekhov deixar contos sem conclusão ou desfecho, permitindo-o ao leitor.

Em "Notícia da atual Literatura Brasileira - Instinto de Nacionalidade" (1873), Machado de Assis (1839-1908) disse do conto: "É gênero difícil, a despeito da sua aparente facilidade, e creio que essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores, e não lhe dando, penso eu, o público toda a atenção de que ele é muitas vezes credor". 

Mencionei que abordar a discussão acadêmica seria em vão exatamente pelo público não partilhar dela. A aproximação mercadológica de um livro tem o efeito de convertê-lo em produto, em concorrência com os outros. Dentre as várias qualidades procuradas, várias não se referem à qualidade do texto. Uma dessas qualidades é a extensão do texto, o tamanho do volume. A qual fim se destina o livro? Quanto tempo há disponível para a leitura? Busco satisfação imediata, ou algo cumulativo a longo prazo? É neste ponto que Poe e Tchekhov e o leitor utilitarista se aproximam, a brevidade desejável literariamente acaba alcançando alguma recepção pelo leitor-consumidor.

Do impulso de contar a história "logo de uma vez", a minha concepção de conto maturou para elogiar genuinamente a brevidade, e a capacidade de apreciar um autor não apenas pelo que escreve, mas também pelo que deixa de escrever.

1 comentários:

Raphael

Ficou muito bom o blog! Ficou 'leve'! Parabéns!
Abraço

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