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23 de junho de 2010

O conto "Primeiro-tenente"


     Há algum tempo, na infância do século XX, eu, como tenente do exército, servi meu país de um jeito bastante peculiar, que traz memórias de idêntico caráter, se não ainda mais dotadas de uma excentricidade que almejo conseguir colocar em palavras.
     Respondia, então, como Bastos. Segundo-Tenente Bastos, quero dizer. Já havia um tenente Rogério, e nomes de guerra não se repetem. Recordo-me muito bem de que ponderei a respeito de outros tantos Bastos que entrariam depois de mim, e que teriam seus nomes mutilados sem nenhum perdão, em nome da guerra fantasma para a qual estamos sempre preparados.
     Saí do belo treinamento de uma academia direto para o oficialato nu e cru, com todas as suas adversidades e problemas. De baixo, a ousadia e rebeldia velada dos praças, soldados a sargentos, que traduziam a própria incapacidade para ascensão nos postos com uma agressividade contida em relação a aqueles “garotos” que tinham caído no meio do comando, sem passar pelos maus bocados antes. Apesar de muitos oficiais terem sido praças, na atualidade isso não mais acontecia. Sabia muito bem disso, porque nesta realidade recente me incluo.
     Nunca, de fato, havia experimentado a ação que vem junto com o recrutamento em níveis mais baixos. Mas, de igual modo, não tive o tempo suficiente para apreciar todas as idiossincrasias de ser um comandante desafiado, pois de cima vieram outros fatores, em menor número mas em maior peso, que desviaram por completo toda a minha atenção.
     Ele se chamava Capitão Monteiro. Descobriria posteriormente que o nome oculto por trás da dignidade era Roberto. Pouco depois do outro oficial que me apresentou a meu novo superior deixar nossa companhia, o Capitão Monteiro deixou forçosamente cristalino que eu deveria me endereçar a ele apenas como Capitão. Qualquer adendo que extrapolasse o compulsório “senhor”, antes ou depois do denominativo de sua capitania, seria por ele considerado como insubordinação, com todas as conseqüências originadas disso. Como bom aluno de minha academia, aprendi a lidar muito bem com essa exacerbação autoproclamada, que vem com o desgaste de muitos anos em um posto.
     Minha designação, em toda a sua extensão, devia-se à morte em ação de um tenente subordinado ao Capitão. Substituir por este motivo um oficial preexistente é, com certeza, a pior forma de começar um novo serviço. A despeito disso, em face do novo ambiente em que trabalhava, passei a buscar a confraternização com os companheiros de farda, a fim de garantir a melhor harmonia em trabalhos futuros. Não sem certo pesar, que por motivos óbvios impedi de se manifestar, descobri que minha presença ali incomodava a boa maioria dos praças, e gerou, talvez exatamente por isso, a subserviência absoluta dos sargentos, que tinham agora o que usar para humilhar os soldados pelas minhas costas. Mas até eles, creio, não nutriam por mim real respeito
.


"Primeiro-tenente" é o terceiro conto do livro. A estória se passa no Brasil no início do século XX. A localização precisa é deixada sem detalhar, mas a inspiração para o conto veio de uma especulação sobre a Revolução Federalista no sul do país. 

A Revolução Federalista, como outros movimentos semelhantes, envolveu um embate violento entre as forças armadas e os revoltosos. Eliminada a revolta, a presença destas forças deveria ser continuada sobre pontos estratégicos e focos da revolta, para evitar uma ressurreição do movimento. Sem a fiscalização apropriada, estas células militares, comandadas por homens corruptíveis, poderia assumir o controle da região não como uma presença de paz, mas como uma presença dominadora. Este fenômeno vem ocorrendo com forças de ocupação até os nossos dias.

A ideia para o conto surgiu após meu contato com o direito penal militar, que difere do direito penal por fundar-se nos princípios de ordem militar, como hierarquia e disciplina. Os procedimentos dos Inquéritos Policiais Militares, conduzidos de forma impecável pelos oficiais envolvidos, e diversos casos de verdadeira dominação promovida por oficiais em comarcas do inteiror me levou a conjeturas sobre um procedimento semelhante realizado em épocas em que a fiscalização era ainda mais precária.

No conto, o narrador, o segundo-tenente Rogério Bastos, descreve todo o seu serviço junto ao abusivo Capitão Roberto Monteiro, desde o início de sua subordinação até o desfecho que esclarece a natureza exata de seu serviço. Procurei utilizar uma linguagem adequada ao personagem, que fosse precisa e cerimoniosa como um militar dirigindo-se a um superior.

O título alude a uma evidente promoção do tenente protagonista; a intenção é exatamente provocativa, para o leitor imaginar se essa promoção é ou não procurada ou obtida.

1 comentários:

Paulo D'Bram

Cara, que escrita maravilhosa! Desculpe a expressão, é "de fuder". Prefiro os toscos elogios populares, acho mais emocionantes e verdadeiros, do que tecer críticas pomposas. Não consigo enxergar um texto através de seus elementos isoladamente, todos formam uma homogeneidade e produzem um único resultado, e é sobre esse resultado que formo minha opinião. Fluído, apropriado, refinado, adorei. Vou no bookes procurar seu livro.

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