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15 de setembro de 2010

O conto "Na Linha de Montagem"


"Na Linha de Montagem" é o décimo-primeiro conto do livro. Do texto curto não caberia fazer amostra, portanto discutirei brevemente sobre o tema e sua publicação anterior.

O conto transcorre em uma linha de montagem de naves espaciais, como uma conversa entre dois montadores após um deles ter discutido com um superior. O conto foi escrito para publicação em um livro da série Perry Rhodan, editada no Brasil pela Editora SSPG. Além de episódios que dão andamento à cronologia da série, os livros traziam contos com temática compatível, ou seja, espacial.

Aceitei a oportunidade de redigir um conto pequeno, me impondo um desafio de não escrever um texto de ficção científica puro, mas com uma visão crítica sobre os elementos clássicos da ambientação. Visei então dar atenção não às maravilhas futuristas imaginadas pelos (geralmente) esperançosos autores, mas ao operacional requerido para executar tais maravilhas. Lembrei-me da infeliz realidade de incontáveis feitos técnicos de nossa história, como veículos e construções, aos quais são associados os nomes dos inventores e projetistas -- algumas poucas centenas -- contra os milhões de anônimos que retiraram matéria-prima, operaram máquinas, se arriscaram e se comprometeram para a difusão da tecnologia. Esses homens só são lembrados se ocorrem desastres, esquecidos pouco depois de surgirem nas notícias ou com seus nomes sepultados em placas de memoriais. 

Fica difícil dizer a essas pessoas para se orgulharem de seus trabalhos e se sentirem bem por contribuírem para a sociedade da forma que conseguem, se a própria sociedade destina real reconhecimento de valor apenas a alguns poucos que tiveram a oportunidade e recursos para obterem formação e uma posição em que possam empregá-la, desfrutando dos privilégios subsequentes.

Um dos requerimentos inevitáveis de uma sociedade tecnológica é a mão-de-obra industrial. Só é possível que todos desfrutem de posições de trabalho intelectual quando (e se) houverem substitutos completos para o trabalho braçal, que alguns futuristas apostam que virão da robótica. Se for considerado o fator mais determinante de decisões referentes à produção industrial -- a lucratividade -- sobre o qual o custo da produção tem influência direta, pode-se especular que pode não existir, até num futuro distante, substituto economicamente viável para a mão-de-obra humana.

O tema do conto oferece uma janela para um futuro de gloriosas conquistas, mas voltado para uma conjetura realista que em última análise pode ser aplicada a toda a evolução da civilização humana.

13 de setembro de 2010

Chaplin e o Tempo

O inglês Charles Spencer Chaplin (1889-1977), melhor conhecido como Charlie Chaplin e no Brasil como "Carlitos", é um ícone imortal do cinema e um gênio da Sétima Arte, com seus talentos abrangendo toda a produção cinematográfica, tendo atuado, produzido, dirigido, escrito roteiros e composto músicas para seus próprios filmes, e vivenciado a transição do cinema mudo para o falado. Sua carreira inclusive alcançou o cinema em cores, ainda que tenha sido um só filme (A Condessa de Hong Kong, 1967).
Minha ideia original era falar do magnífico "Tempos Modernos", mas para não discutir apenas uma das preciosas obras do grande Carlitos, resolvi apresentar também um conjunto de seus outros filmes com elementos relacionados ao Tempo.
  • Carlitos Contra o Relógio (Twenty Minutes of Love, 1914). O primeiro filme que dirigiu. Carlitos vai a um parque e encontra casais de namorados, que se tornam alvos de suas zombarias e brincadeiras. Uma mulher pede a seu namorado uma prova de seu amor, e ele rouba um relógio de bolso de outro que dorme para dar a ela. Enquanto isso, a mesma mulher flerta com Carlitos. Ele então encontra o namorado e rouba o relógio dele, dando-o de presente à mulher. O namorado os vê juntos, briga com Carlitos, que foge com o relógio. Ele então tenta vendê-lo ao seu dono original, o homem que dormia. As brigas à beira do lago parecem ter a única conclusão possível.
  • O Passado Pré-Histórico (His Prehistoric Past, 1914). O último filme de Chaplin para os estúdios Keystone. Impagável como homem das cavernas vestindo pele mas ainda de chapéu e bengala e fumando, Carlitos se encanta com Sum-Babee, a favorita do harém de mil esposas do rei. Carlitos empurra o rei em um precipício e se proclama rei, mas o rei retorna e bate na cabeça dele com uma pedra. A cena final revela o que realmente estava acontecendo.
  • O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940). Magnífica obra que Chaplin dirigiu, produziu, escreveu, estrelou em papel duplo e cuja música compôs. Notável por ter sido o primeiro longa-metragem a satirizar a Alemanha Nazista, antes de seus maiores horrores serem revelados. Um barbeiro judeu, amnésico e internado desde a Primeira Guerra Mundial, recebe alta e retorna à sua barbearia no país de Tomania, governado pelo ditador hitleresco Adenoid Hynkel. Reencontrando suas memórias com Schultz, um oficial alemão que salvou na guerra, o barbeiro é ajudado por ele em uma trama que culmina em um plano para tirar Hynkel do poder, com o sucesso vindo de forma inusitada.
  • Luzes da Ribalta (Limelight, 1953). Ambientado em 1914, ano dos primeiros filmes de Chaplin, em que representa papel quase autobiográfico. O comediante Calvero, velho e bêbado, evita que a jovem atriz Terry Ambrose se suicide, e tentando elevar o ânimo dela acaba também se reanimando. Terry quer casar-se com ele a despeito da idade, mas Calvero tenta dissuadi-la da ideia tornando-se um artista de rua. Estrela de seu próprio espetáculo, Terry o reencontra e pede que faça um espetáculo beneficente. Calvero se reúne com um velho parceiro (Buster Keaton, na única vez que contracenam juntos) e sua performance magnífica encerra sua carreira.
  • Tempos Modernos (Modern Times, 1936). O filme inteiro é marcado pelos tempos de mudança, iniciando com um relógio. O filme começa em uma indústria que o chefe monitora por telas, e controlada por um painel de alavancas e válvulas. Na linha de produção, um operário que aperta parafusos não consegue acompanhar os limites de velocidade pressionados pelo chefe e outros abusos, é tragado pela máquina e enlouquece. Saindo do hospital, ele tenta devolver uma bandeira que caiu de um caminhão bem na hora que uma passeata comunista o segue, fazendo-o ser preso como líder do movimento. Na prisão, ele inadvertidamente come cocaína como se fosse sal e, em delírio, combate criminosos que vieram soltar prisioneiros, ganhando regalias dos carcereiros. Eventualmente ele é perdoado e solto, mas quer voltar e tenta assumir a culpa por um roubo cometido por uma garota pobre, sem sucesso. Preso enfim por ter comido em uma lanchonete sem pagar, ele reencontra a garota pobre no camburão, com quem foge e planeja uma vida melhor, a despeito das subsequentes prisões, falhas em trabalhos e confusões. Eventualmente ele se torna cantor na cafeteria em que é garçom e em que a garota dança, com um improviso seu fazendo grande sucesso, mas a polícia surge novamente, tornando-os uma vez mais fugitivos.

3 de setembro de 2010

8 de setembro

Na semana que vem não farei postagens. Durante minha ausência, trago algumas curiosidades sobre 8 de setembro, dia de meu aniversário!

Um Dia Sequencial é uma curiosidade matemática que ocorre quando há uma sequência numérica na data escrita com apenas dois dígitos para dia, mês e ano. Meu aniversário na semana que vem é um Dia Sequencial: 08/09/10. A limitação para a ocorrência de Dias Sequenciais é o dígito correspondente ao mês. Como esse número só pode ir de 1 a 12 -- e não havendo dia 00 -- há uma janela de 11 anos em que podem ocorrer Dias Sequenciais:

01/02/03 - ocorreu em 1903 e 2003 e só ocorrerá novamente em 2103;
02/03/04 - ocorreu em 1904 e 2004 e só ocorrerá novamente em 2104;
03/04/05 - ocorreu em 1905 e 2005 e só ocorrerá novamente em 2105;
04/05/06 - ocorreu em 1906 e 2006 e só ocorrerá novamente em 2106;
05/06/07 - ocorreu em 1907 e 2007 e só ocorrerá novamente em 2107;
06/07/08 - ocorreu em 1908 e 2008 e só ocorrerá novamente em 2108;
07/08/09 - ocorreu em 1909 e 2009 e só ocorrerá novamente em 2109;
08/09/10 - ocorreu em 1910, ocorrerá agora em 2010 e depois só em 2110;
09/10/11 - ocorreu em 1911, ocorrerá em 2011 e depois só em 2111;
10/11/12 - ocorreu em 1912, ocorrerá em 2012 e depois só em 2112;
11/12/13 - ocorreu em 1913, ocorrerá em 2013 e depois só em 2113.

Para aumentar a sequência, é possível considerar sequências de horários também, como às 06:07 do dia 08/09/10, ou, considerando os segundos, às 05:06:07 do dia 08/09/10.

Além da peculiaridade neste ano, o dia 8 de setembro é sempre feriado em Curitiba, sendo o dia de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, a padroeira da cidade. É também o Dia Internacional da Alfabetização desde 1966. Dentre as inúmeras ocorrências neste dia na história, destaco as seguintes:
  • 1157: nascimento do rei inglês Ricardo I, o Coração de Leão
  • 1504: revelação do "David" de Michelangelo
  • 1551: fundação de Vitória/ES
  • 1830: nascimento do escritor francês Frédéric Mistral, Nobel de Literatura de 1904
  • 1841: nascimento do compositor tcheco Antonín Leopold Dvorák
  • 1888: descoberta do corpo de Annie Chapman, segunda vítima de Jack, o Estripador
  • 1925: nascimento do ator britânico Peter Sellers
  • 1926: admissão da Alemanha na Liga das Nações
  • 1930: primeiro rolo de fita transparente Scotch, da 3M, é enviado a um cliente
  • 1941: alemães iniciam o Cerco de Leningrado
  • 1944: lançado o primeiro dos 1358 foguetes alemães Vergeltungswaffe 2 que atingiu Londres
  • 1949: falece o compositor alemão Richard Strauss
  • 1966: inicia pela NBC-TV a série original de Jornada nas Estrelas, com o episódio The Man-Trap
  • 1968: estreia mundial do filme promocional de Hey Jude, dos Beatles, no programa de TV Frost on Saturday
  • 1991: Declaração de Independência da Macedônia

2 de setembro de 2010

"A Quarta Dimensão" de Eduardo Capistrano

Esta postagem será atualizada conforme passos da publicação são completados. Futuramente constará aqui a capa, dados sobre o livro e formas de aquisição, como a postagem que fiz para meu primeiro livro, "Histórias Estranhas". Os títulos dos contos tem atalhos para postagens com amostras e discussões sobre seus temas e elementos.
O conteúdo desta postagem tornou-se a descrição do livro na seção própria do blog.

     O tema desta coletânea de contos de Eduardo Capistrano é o Tempo. Estórias inspiradas pela história, ambientadas no passado; visões distópicas, sombrias ou bem-humoradas, lançadas no futuro; e narrativas sobre a passagem do tempo, no contato entre gerações, na invocação das memórias e na importância dos mais breves momentos.
     Os contos são ordenados cronologicamente e abrangem as diversas relações do homem com o Tempo. Os quatro primeiros tratam do passado. “Espelhos da Alma” é um diálogo que expõe a condição do “homem de ciência” da Renascença e sua relação com o homem médio, não muito diferente do que ocorre hoje. Em “Beijo de Ópio” um brasileiro na Era Vitoriana conta como se deixou seduzir pela total decadência moral. “Primeiro-Tenente” acompanha um militar sob um comando abusivo no início da República. “Carolina de Óculos” mostra as estranhas visões documentadas no diário de uma menina de imaginação fértil.
     Os quatro contos seguintes ocorrem no presente. Um garoto tenta entender a capacidade de parar o tempo que aprendeu com o pai em “Entre Segundos”. Um estranho sinal parece ser a resposta à monotonia da vida reclusa de um matemático em “Saudações do Futuro”. O título de “Parafuso Frouxo” traz a causa de um mundo chegar ao fim. “Mulheres e Crianças Primeiro” mostra qual força tem as convenções sociais quando a causa de um acidente de ônibus é revelada.
     Seis contos ocorrem no futuro. “A Maçã Elétrica” acompanha um solitário programador de inteligências artificiais em conflitos emocionais com suas criações. “Futuro Seguro” traz uma distopia bem-humorada de um futuro em que as corporações regozijam sem limites. “Na Linha de Montagem” discute a evolução da tecnologia comparada à da moral humana. “Controle Remoto” mostra a brutal opressão de uma sociedade controlada através de televisores. “Planeta Asfalto” é um mundo dominado por automóveis inteligentes. “A Água de Croma” é uma reflexão sobre a evolução sentimental da humanidade.
     A coletânea conclui com “Ouroboros”, que discute o eterno retorno com a documentação medieval de um interrogatório feito a um visitante distante.

1 de setembro de 2010

O conto "Controle Remoto"


     Ele teve um nome, algum dia. Agora tinha uma alcunha de processamento. Era ca.15.f3.b9.
     Estava em sua casa, uma residência-padrão. A sala era quadrada de 3 metros por 3 metros, com 2 janelas e: 1 (um) vaso de plantas de plástico; 1 (um) sofá estofado; 1 (um) tapete grande; 1 (uma) mesa de madeira falsa; 2 (duas) cadeiras de madeira falsa; e 1 (um) multitelevisor. Cada item era disponibilizado com alguma variedade, em 3 tipos diferentes, de modo que uma sala pudesse ser diferente de outra. Uma porta levava ao quarto, que continha: 1 (uma) cama de solteiro, 1 (um) armário embutido padrão e 1 (um) multitelevisor. Outra porta era a saída.
     Ele estava sentado em seu sofá. Perto dele, seu fiel amigo Rex. Existiu um nome para a raça do cão, algum dia. Agora ele era um cachorro-padrão, 2º tipo, dentre os que podiam vir com a casa. A seleção de mascotes era cachorros ou gatos, cada um em 3 tipos diferentes, totalizando 6 tipos diferentes, sendo, assim em variedade muito maior que a dos móveis.
     Estava diante do multitelevisor da sala. O aparelho era de vidro negro não-reflexivo de um metro de altura por dois metros de largura e três centímetros de espessura, de cantos arredondados e instalado na parede, tendo na parte de baixo um painel com uma fenda quase imperceptível.  O aparelho podia ser operado por meio de toques na tela, mas isso não era usual. Em suas mãos, ca.15.f3.b9 tinha o controle remoto para multitelevisores, cuja guarda era talvez sua responsabilidade mais importante. O controle remoto era um paralelepípedo fino de plástico preto e polido. Apontando-o para a tela e movendo-o, era possível comandar um pequeno ponto para selecionar opções. Havia um único botão para ativar as opções selecionadas. O multitelevisor não podia ser desligado.
     Ele estudou com cuidado a tela. O aparelho exibia uma série de datas e apontamentos. Era uma programação. Ele leu as entradas para a semana seguinte: “Dia 1. 0h: repouso. 6h: trabalho. 12h: trabalho. 18h: descanso”. Todos os outros dias eram idênticos. Ele soltou um suspiro e operou o controle desanimado, o cursor na tela respondendo a todo pequeno movimento do controle. Então, sua atenção foi subitamente capturada por algo na tela.
     Tinha aberto uma lista de eventos para os quais havia sido classificado. “Mudar de emprego”, “aprender um ofício”, “aprender um passatempo”, “fazer amigo”, “engordar”, “emagrecer”... Já havia visto a maior parte deles e nenhum o interessava. Mas havia um item novo. Ele o selecionou e requisitou detalhes, inclinando-se para frente, os olhos brilhando.
     “Namorar. Seus índices de aproveitamento o classificaram para iniciar uma relação de caráter amoroso com pessoa também classificada. Se optar por este evento, uma lista das pessoas disponíveis lhe será transmitida. O cancelamento será possível caso a lista não contenha itens satisfatórios”.


"Controle Remoto" é o décimo-segundo conto do livro. A estória se passa no futuro, uma distopia em que os indivíduos tem suas vidas controladas através de televisores.

Dois fatores distintos se reuniram -- espero que homogeneamente -- para a realização deste conto. Consegui em várias ocasiões escrever estórias inteiras desenvolvendo algum lampejo que parecia ter graça ou lógica, ou um fato curioso isolado. Classifico assim estórias que desenvolvi tendo o título em mente, como é (em parte) o caso deste. O termo "controle remoto", na sociedade moderna, permite uma noção curiosa: é o nome do dispositivo que usamos para operar o televisor, através do qual age a mídia mais difusa e influente sobre a opinião pública, o que já foi exposto como uma forma eficiente de controlá-la. O termo, neste contexto, torna-se ambivalente e evoca a ironia do consumidor que pensa estar controlando, exercendo sua liberdade em escolhas, quando na verdade está sendo controlado, mantido preso em obrigações. 

A noção já figurava nas distopias consagradas pelas obras "Fahrenheit 451" (1953) do estadunidense Ray Bradbury (1920-) e, mais diretamente, "Nós" (1924) do russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937), através da obra mais notória que inspirou, "Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" (1949) do britânico George Orwell (1903-1950) -- origem do termo "Grande Irmão" estranhamente celebrado na atualidade. A oportunidade é boa para fazer uma relação com outra famosa distopia em que o controle não é propriamente por televisores. Em seu livro "Vamos nos divertir até a morte" (Amusing Ourselves to Death, 1985), o estadunidense Neil Postman (1931-2003) denuncia que a cultura televisiva atual não é tanto orwelliana, estando mais próxima de "Admirável Mundo Novo" (1932) de Aldous Huxley (1894-1963), em que o controle era feito pelo consumo de uma droga alucinógena.

Não encontrei uma "roupagem" apropriada para escrever a ideia, até surgir o segundo fator. Sonhei com a cena que se tornou a conclusão do conto, que não tinha relação alguma com a noção que expliquei. Mas a atmosfera angustiante, lúgubre e opressora do sonho serviu não apenas para evocar a sociedade sufocante da estória, como também forneceu o enredo, uma estória de amor, um tom claro contrastando com a escuridão circundante.